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Cultura

Crônica do Villas

Meu Tio Zezé Siffert

por Alberto Villas publicado 23/04/2015 10h16, última modificação 23/04/2015 10h47
Lembranças de uma figura absolutamente fora do comum
Divulgação
Zezé Siffert

Zezé Siffert: fartura e bom humor

Ele era o meu tio mais diferente de todos os meus tios. Era mulato, bem mulato, o meu tio Zezé Siffert. Não era diferente dos outros simplesmente porque era mulato nato, era todo diferente.

Casado com a minha tia Lourdes, bem novinho ainda, praticamente imberbe, já era pai de seis filhos, meus primos: Nelson, Delson, Elcio, Celso, Lia e Lea, as caçulas, gêmeas.

Enquanto todos os meus tios tinham carteira assinada, emprego fixo, ordenado no final do mês, hora de entrar e sair da repartição, enquanto eles tinham assistência médica do IAPI, IAPC ou do IAPETEC, o meu tio Zezé Siffert não tinha nada, ele era representante, dizia minha mãe.

Numa família de doutores, era esquisito o meu tio ser representante. Representante, nunca soube de que mas, na verdade, o que importa é lembrar que a casa dele, era uma festa, uma fartura só.

Eu, menino ainda, acostumado a ver o meu pai todo dia primeiro ir buscar o ordenado no Banco do Brasil, ficava imaginando como era diferente na casa do meu tio Zezé Siffert. O dinheiro que entrava era oito ou oitenta. De vez em quando vinha uma bolada, no outro mês, nada.

Meu tio era apaixonado por minha tia Lourdes, muito apaixonado. Um dia, cansada de guerra, ela deu sinais que estava a fim de se separar dele. Pra quê! Quando ela saiu pra ir ao mercadinho, ele foi até o banheiro, pegou um vidro de mercúrio cromo e espalhou pelo corpo inteiro.

Quando ouviu o barulho dos seus passos nos degraus daquele edifício na rua Romano Stochiero, em Belo Horizonte, ele deitou-se no chão da sala e ficou lá estendido, com o corpo coberto de mercúrio cromo.

Minha tia quase enfartou quando abriu a porta e viu a cena. Sentindo-se quase viúva aos 22 anos, mãe de seis filhos, ela foi acudi-lo. Chegou perto daquele corpo estendido no chão e percebeu que ele respirava normalmente. Foi quando o meu tio Zezé Siffert levantou-se e fez o que a família considerava a maior declaração de amor de todos os tempos. E os dois viveram felizes para sempre.

A minha tia Lourdes contava que, no passado, num passado muito passado, o meu tio Zezé teve um armazém, se não me falha a memória, no bairro de Santa Teresa.  

Nunca soube que armazém era esse, como se chamava, se era grande ou pequeno,  se vendia Cremogema, Grapette ou Q-Suco.  Mas eu me lembro que, muitas vezes em que fomos visitá-lo, ele nos dava umas balas de café embrulhadas em papel celofane, deliciosas. Desconfiava que ele era representante dessas balas.

Nunca vi o meu tio Zezé Siffert saindo pro trabalho, com fazia o meu pai, todos os dias. A vida de representante, para a família, era uma vida meio de aventureiro, sem salário fixo, sem mesa de trabalho e sem patrão, um pouco arriscada. Apesar dessa instabilidade, confesso que nunca vi o meu tio triste.

A casa do meu tio Zezé Siffert era a casa mais farta do mundo. Quando chegávamos, ele logo ia comprar coisas pro lanche. Subia aquelas escadas com meia dúzia de pão americano nos braços, que era como chamávamos o pão de forma. Equilibrava-se com um presunto numa mão e um queijo prato na outra. Ele conseguia ainda carregar duas barras de manteiga Itambé, um tijolo napolitano da Kibon, meia dúzia de roscas e um pacote de pãezinhos doces, daqueles com açúcar cristal por cima.

Não tinha miserê na casa do meu tio Zezé Siffert. Ele colocava aquilo tudo em cima da mesa, passava um café e preparava na coqueteleira um Ovomaltine gelado que a gente adorava.

Na verdade, eu achava que o meu tio Zezé Siffert, mesmo sendo apenas um representante, era mais rico que o meu pai porque na minha casa muito raramente tinha pão americano, presunto ou Ovomaltine. Era só pão comum, mortadela e Toddy, tudo mais barato.

A mesa já cheia e o meu tio ainda espremia umas laranjas e fazia uma limonada suíça como ninguém, jogando limão com casca e tudo dentro de um liquidificador Arno que fazia um barulho infernal.  Na casa dele tinha sempre Coca-Cola, Pepsi-Cola e Crush. Era uma farra fazer o lanche lá, rodeado de tanta juventude, tanta comida, naqueles sábados dos anos 60.  

A vida do meu tio Zezé Siffert era mesmo muito diferente da nossa. Um dia chegamos na casa dele e tinha seis aparelhos de telefone em cima da mesa da sala. Telefones daqueles pretos, enormes, pesadões, de disco. Lembro dele contando pro meu pai que havia feito um ótimo negócio naquele dia. Comprara os seis telefones e já tinha vendido na mesma hora, pelo dobro do preço. Só estava esperando o cara da firma que comprou vir buscar. O dinheiro que ele tinha ganho com aqueles telefones, era o salário do meu pai durante meses.

Meu tio Zezé Siffert era também pau pra toda obra. Nunca me esqueço, um sábado de carnaval, quando chegamos na casa dele e ele estava com o ferro quente na mão, passando uma pilha de fantasias de  cetim pros filhos que se preparavam pra ir pro baile do marinheiro no Pampulha Iate Clube, o PIC.

Aquela confusão toda e o meu tio lá, na maior animação, de cueca samba-canção e sem camisa, suando muito,  passando, uma a uma e caprichosamente as fantasias de marinheiro, azuis e brancas de  listras, um branco da cor de algodão e um azul da cor do mar.