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Crônica / Matheus Pichonelli

Mais forte que bombas

por Matheus Pichonelli publicado 15/04/2016 17h39
Filme do norueguês Joachim Trier tem como ponto central o conflito de uma mãe a ser 'descoberta'. Não é o 'anjo do lar', mas alguém deslocada dentro da própria casa
Mais forte que bombas

Gabriel Byrne e Devin Druid em cena do filme "Mais forte que bombas", de Joachim Trier

Num intervalo de uma semana, entraram em cartaz dois filmes sobre homens que tentam seguir a vida após a morte da mulher. Depois do brasileiro “Para minha amada morta”, de Aly Muritiba, entrou em cartaz, há alguns dias, “Mais Forte de Bombas”, drama do norueguês Joachim Trier sobre quatro homens que tentam reconstituir, pela memória, a vida de uma fotógrafa consagrada morta em um acidente de carro.

Os filmes têm roteiros semelhantes. Ambos contam a história de mulheres já mortas que mantiveram relacionamentos fora do casamento. O fato, no primeiro caso, leva o protagonista, interpretado por Fernando Alves Pinto, à loucura – à medida que tenta, em vão, entender e revidar o ruído descoberto na imagem da companheira, lembrada até então tal qual o anjo do lar descrito por Virginia Wolf.

No segundo caso a traição é apenas um dos muitos pontos que os homens – o marido e o amante – tentam desvendar ou relembrar. A pergunta fundamental entre eles, e aí incluindo os filhos, é quem foi ou quem é aquela mulher (interpretada por Isabelle Huppert)

A diferença fundamental é que na obra brasileira a mulher praticamente não tem voz. Sabemos que era uma advogada, que tinha um filho e um marido. Do resto, tudo o que visualizamos nela vêm das fitas antigas de VHS guardadas pelo parceiro, entre as quais a “prova” de sua traição, em relances recortados ao espelho, imagens desfocadas e uma única frase, vista e revista à exaustão. É como se, entre o anjo e o fantasma entrecortado ao espelho, não existisse qualquer direito à existência.

A investigação articulada pelo marido que se descobre traído não é para saber quem foi aquela mulher, mas as circunstâncias da traição. “Essa mulher era doida”, diz, a certa altura, o ex-amante.

A investigação leva Fernando, o personagem, a uma interdição. O exercício de alteridade, essa capacidade surrada de se reconhecer e reconhecer as dores e desejos de quem nos cerca, é um exercício de autodestruição. O que o leva à loucura não é o ato em si, mas a descoberta de que, ao seu lado, existia alguém – alguém sobre o qual não tinha o controle ou o monopólio dos próprios afetos. Trata-se de uma ideia de casamento que se esgarça pela própria natureza humana.

Em “Mais Forte que Bombas”, o dilema dos familiares em relação à mulher, uma consagrada fotógrafa de conflitos, é menos moral do que afetivo, num contraste da maturidade da abordagem de um mesmo tema. A começar por um detalhe peculiar: a amada morta do diretor norueguês tem direito à fala, e isso muda toda a perspectiva ao seu entorno.

Três anos após sua morte, ela é tema de uma exposição com suas principais fotografias em uma importante galeria nos EUA. Conforme recolhem o material, os filhos, o marido e o ex-parceiro de trabalho têm a oportunidade de se reencontrar não apenas com ela, mas com fragmentos dela que não necessariamente são conhecidos e reconhecidos pelos demais. A mãe, aos olhos do filho mais novo, não é a mesma lembrada pelo filho mais velho. A companheira de casa não era a mesma do trabalho. A visão do marido não é a mesma dos filhos. A consciência de si não era exatamente o que estava explícita na obra. E por aí vai.

É dessa alteridade, em crise no mundo contemporâneo, que nos fala o diretor: à medida que a câmera se desloca dentro da mesma cena, descobrimos aspectos diferentes da mesma história, ou das pessoas envolvidas nela. Num desses deslocamentos, descobrimos quem é o filho quando deixamos de vê-lo pelo olhar do pai. Este sofre por desconhecê-lo e por não saber como encontra-lo.

A certa altura, o pai relata ter criado um perfil num game online só para encontrar o personagem encarnado pelo filho. Este, por sua vez, não é só o esquisitão que preenche as horas silenciosas em armaduras do videogame. É também o filho que sofre com a ausência da mãe. O irmão disposto a se abrir ao irmão mais velho – que é, ao mesmo tempo, filho presente e pai ausente. É o estudante que não se adapta. Que se apaixona. Que propõe um relato de si como um exercício de autodescoberta pelo olhar do outro.

Como pano de fundo está a mãe. Não o anjo do lar, mas a personagem deslocada dentro da própria casa. Confusa entre os papéis que quer e que deve exercer. Uma mãe que se sente segura numa zona de conflito real, e desarmada no tiroteio entre ela e ela mesmo. Um conflito que a leva se ver e a ser vista, revista e recontada como uma personagem complexa, ora contraditória, mas definitivamente distante de qualquer sinopse ou papel pré-definido – afinal, como todos nós.