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Cultura

Crônica do Menalton

Candidamente otimista

por Menalton Braff publicado 28/01/2013 10h52, última modificação 28/01/2013 10h52
Recebi a mensagem de um jovem indignado em que ele me acusa de pessimismo tenebroso. Isso me comoveu

Recebi tempos atrás a mensagem de um jovem indignado, em que ele me acusa de pessimismo tenebroso. O senhor não sabe ver o lado bom das coisas, diz-me ele do alto de sua irrepreensível visão de mundo. Não, meu caro e indignado jovem, não me acuse de coisa tão feia, justamente a mim, que reiteradamente tenho afirmado andar na vida em busca de satisfações e razões para a alegria. Se às vezes pareço ver sem muito entusiasmo o que anda acontecendo a nosso redor, é porque nem sempre encontro as razões suficientes, como doutrinava o Dr. Pangloss, um filósofo da Vestfália, e por isso não percebo as relações de causa e efeito.

Tudo que acontece é porque deve acontecer, costumava repetir aquele jovem discípulo de metafísica, conhecido pela alcunha de Cândido. E acrescentava filosoficamente: Vivemos no melhor dos mundos.

Confesso que a mensagem do jovem indignado me comoveu. A juventude é sempre comovente. Me comoveu e me lembrou certo francês do século XVIII, batizado François-Marie Arouet, mas conhecido pelo pseudônimo de Voltaire. E tanto me comoveu que decidi, com base nos ensinamentos desse polêmico francês, tentar uma visão mais branda da realidade. Ou mais cândida, talvez. Quem sabe mais otimista. Pois o Dr. Pangloss, que muito sabia de causas e efeitos, além de razões suficientes, descobrira que em todos os acontecimentos, mesmo nos mais catastróficos, sempre existe, embora muitas vezes em forma obscura, pouco visível, um lado bom.

Tento hoje meu primeiro ensaio de uma visão cândida, que, evidentemente, parecerá um tanto irônica.

Há uns dias atrás, vocês todos viram: a seleção brasileira de futebol, categoria sub-20, em plena Argentina, por nós eleita primeira adversária, mesmo assim, tendo a torcida jovem local ainda não contaminada por nossos preconceitos em apoio entusiasmado a nossos meninos, como assinalou a crônica esportiva, foi desclassificada  por 2 x 0  pelo Peru, e não era Natal. Algumas pessoas ficaram tristes. Meu Deus do céu, mas então é difícil perceber que isso aconteceu para nossa suprema felicidade? Imagine o senhor, a senhora, que, vencedora nossa seleção, esses meninos acabariam sendo assediados por equipes européias, deixando nossos clubes a ver navios singrando os mares no rumo do velho mundo. Tivemos foi uma sorte imensa, porque nossos clubes, a partir de certo momento, não teriam mais como repor as peças que deverão substituir nossos velhinhos. Perceberam como em todo mal pode-se descobrir algum bem?

Se você é dos que ficaram um pouco tristes porque a seleção brasileira de futebol, categoria sub-20, foi desclassificado pelo Peru, sinta-se alegre novamente, depois de acompanhar um raciocínio verdadeiramente otimista. Muita gente vive do futebol no Brasil, um país já um tanto atrapalhado com esse negócio de desemprego. Nosso país é famoso no mundo todo por seus jogadores, por seu futebol. Ninguém, quer dizer, nenhum país venceu tantos campeonatos mundiais, até hoje, como o Brasil.

Mas tudo tem um limite. Quando se é absoluto em alguma coisa, imbatível, começam a escassear os adversários, porque ninguém tem vocação para saco de pancada. Não concordam? Se o Brasil nunca perdesse de nenhum país, com o tempo não teria mais com quem jogar. E você já imaginou como o desemprego seria agravado por aqui? Realmente o Dr. Pangloss tem razão: Acontece tudo que tem de acontecer porque nós vivemos no melhor dos mundos.

Espero que meu jovem detrator se dê o trabalho de ler meu arrazoado.