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Brasiliana

'Apesar da censura e opressão, éramos felizes'

por Beatriz Mendes — publicado 06/04/2012 12h39, última modificação 19/04/2012 02h32
Amigos de colégio e boteco em BH, Marcio Borges e Dilma Rousseff encontraram na música e na militância política caminhos distintos para escrever o nome na História
marcio borges

O compositor Marcio Borges, em depoimento sobre Dilma Rousseff gravado durante a campanha eleitoral

Quando a ditadura foi instaurada no Brasil, Márcio Borges, o segundo filho de uma grande família de 11 músicos, era ainda um menino. Em 1964, aos 18 anos de idade, ainda não escrevia versos para as composições de Milton Nascimento. Aliás, nem mesmo as próprias músicas existiam: “Bituca” – apelido de Milton na época – estava em um curso pré-vestibular, estudando para tentar uma vaga no curso de Economia da Universidade Federal de Minas Gerais.

Na esquina da Rua Divinópolis com a Paraisópolis, no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte, não havia clube algum. Sem saber que poucos anos mais tarde seria o responsável pelas estrofes de clássicos como Clube da Esquina, Um girassol da cor de seu cabelo e Os Povos, Márcio Borges preenchia seus dias com uma quantidade considerável de idas ao cinema, batidas de limão, conversas infinitas com amigos pelos corredores do Edifício Levy - prédio onde morava com pais e irmãos - e o cotidiano da Escola Estadual Central. No mesmo período, lá também estudava a hoje presidenta Dilma Rousseff.

Dilma e Márcio nunca foram da mesma classe. Os dois se conheceram por amigos em comum do colégio estadual. Na época, a instituição era um pólo político e cultural da capital mineira - por lá também passaram os irmãos Henfil, Toninho Horta, Fernando Pimentel entre outras figuras célebres da história do Brasil - como Getúlio Vargas, Fernando Sabino e ex-jogador Tostão. “Todo mundo que estudava no Central era engajado com causas sociais, com a política, fazíamos oposição à ditadura. Foi lá que se consolidou o movimento estudantil da cidade”, conta Márcio Borges.

Nas décadas de 60 e 70, o Estadual Central era sinônimo de referência em educação. Até os herdeiros das elites eram alunos - estudar lá era garantia de acesso à UFMG. O prédio, sem muros, arquitetado por Oscar Niemeyer, abrigava uma lógica incompatível com a opressão da ditadura: havia liberdade de expressão, os estudantes podiam matar aulas, namorar e fumar nos bancos da escola. “Nós tínhamos abertura para reivindicar, expressar nossas ideias e isso incentivava nosso lado criativo”, afirma o letrista.

A amizade entre ele e a futura presidenta se consolidou do lado de fora do colégio. Os dois se conheceram no Bar do Bucheco, o QG predileto da turma. Foi um dos primeiros bares em Minas Gerais  a ser frequentado por meninas.  “Era um bar despojado, pequeno, esfumaçado. Não tinha balcão. Eram poucas mesas, com cadeiras improvisadas com caixotes de madeira e uma vitrola velha”, lembra.

Um rapaz chamado Dickson foi quem os apresentou. Ele era mais velho, um dos intelectuais da turma, falava bem sobre política, cinema e literatura. “Todo mundo no Bucheco gostava de conversar sobre cultura e filosofia”, conta o compositor.

Dilma já apresentava mais interesse pelas questões políticas. Logo que entrou no Estadual Central, em 1964, ingressou na Polop – Política Operária -, movimento de esquerda cujas reuniões tinham como sede o próprio Bucheco.

Márcio gostava mesmo era de cinema. Gostava de Godard e defendia com ênfase a ideia de que os filmes do diretor francês eram sempre os melhores. Por isso, ganhou o apelido de “Marcinho Godard”. A alcunha foi lembrada por Dilma em 2010: ela o chamou assim quando eles se encontraram durante a campanha para as eleições presidenciais.

Além do Bucheco, os membros da turma também eram fieis frequentadores da Pensão da Dona Odete, onde filavam de graça bons pratos de comida.

O Edifício Maletta, no centro de Belo Horizonte, era outro ponto de encontro. Até hoje a maior parte dos apartamentos do prédio é composta por repúblicas de estudantes.  Cláudio Galeno, namorado de Dilma na época, era um dos moradores. “Apesar de todas as questões políticas, da censura, da opressão, nós éramos felizes. Eu ia à casa de Dilma roubar cerveja da geladeira dos Rousseff, ela também frequentava a minha casa”, diverte-se Márcio Borges.

Após o decreto do Ato Institucional nº5 e o endurecimento da ditadura, aos poucos Márcio passou a ver seus amigos partirem para o exílio ou para as guerrilhas, como foi o caso de Dilma.

"Nós sempre nos ajudávamos muito, eu só não entrei para a Polop porque acabei imerso no mundo da música", analisa.

Em 1968, ano do AI-5, ele já havia escrito as letras de Canção do Sal e Gira Girou para as composições de Bituca.

Desde então muitas coisas já mudaram. Os tempos são outros: a ditadura acabou, o bar do Bucheco já não existe. A estudante politizada virou presidenta da República e o jovem compositor marcou história no cenário musical.

Mas são histórias de amizade e companheirismo como essa que serviram de matéria-prima e deram motivação para que, em 1972, o Clube da Esquina fosse gerado. "Foram bons tempos", conclui Borges.

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