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Internacional

Capitalismo

A crise do desenvolvimento sob o ponto de vista ecofeminista

por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais — publicado 14/07/2016 02h54
O avanço genocida do capitalismo abre espaço para a reorganização da esquerda e para a convergência das pautas de lutas
Reprodução/Flickr/Eduardo Santos
Desmatamento

A crise dos cuidados e a crise ecológica se sobrepõem em meio à instabilidade dos mercados

Por Tatiana Oliveira 

A ideia de crise pode ser definida como um momento de suspensão do andamento das coisas, uma paralisia que depende, para mover-se do lugar, da qualidade das perguntas que invocamos ao tempo histórico. Isto significa que a crise nos convoca a uma reflexão, pondo em espera uma decisão que, embora necessária, ainda não é possível tomar.

O momento da crise é precisamente aquele em que, diante da nebulosidade do porvir, se represam os desejos e os projetos que deverão desaguar no futuro próximo. O momento da crise é de disputa em torno desses projetos. A crítica os constitui, alongando a visão e ajudando a pensar sobre a transição para outra situação que não é ainda, mas pode vir a ser.

O Brasil, assim como outros latino-americanos que compuseram o ciclo progressista do início deste século, vivem um novo, e profícuo, momento de disputas relativo aos projetos de desenvolvimento. A direita busca impor uma visão econômica neoliberal e austericida, utilizando, para isto, inclusive, o golpe contra a democracia.

As esquerdas encontram-se diante de um dilema: se reorganizar oxigenando esta tradição a partir do diálogo com uma nova geração de ativismos ou sufocar a mudança reproduzindo velhos paradigmas.

O cenário é um alerta: Que se discuta a crise dos modelos de desenvolvimento e as formas de superá-la. As ruas, o protagonismo das mulheres nas diferentes lutas, além da emergência do ecologismo como uma questão concreta e cotidiana, têm demonstrado que sem pensar essa convergência ecofeminista não vai dar pé para a mudança. As ruas sinalizam o conflito indelével entre o capital e a vida num sistema, o capitalista, que a todo tempo a ataca.

Nesse sentido, a crise, entendida desde um ponto de vista ecofeminista e anticapitalista, mostra-se irredutível à situação dos mercados, embora de modo algum isto signifique deixar de discuti-los. A desconstrução dos mercados passa por uma análise profunda da sua dinâmica de funcionamento, mas também da maneira pela qual este mecanismo gera uma racionalidade utilitária particular que impregna nossas visões de mundo, fazendo-nos sentir como se não houvesse outra alternativa.

A crítica ecofeminista mostra que as alternativas existem. Mas para reconhecer as alternativas deve-se olhar e investigar as zonas cinzentas do capitalismo, muitas vezes, atividades econômicas não mercantilizadas que foram invisibilizadas pela centralidade dos mercados neste sistema econômico.

Aqui, cabe mencionar dois problemas que vimos enfrentando não é de hoje: a crise dos cuidados e a crise ecológica; ou, melhor, o modo pelo qual ambas as crises se sobrepõem, configurando um conjunto de outras crises que se colocam, em uma conjuntura de instabilidade dos mercados, de forma aguda e insuportável.

A crise de cuidados corresponde à negação da responsabilidade social, isto é, coletiva, no que se refere à sustentabilidade da vida. Ela diz respeito a uma concepção do cuidado segundo a qual recai sobre a família, unidade básica de produção, a responsabilidade exclusiva pela sobrevivência.

Além da “cara” feminizada do trabalho doméstico e de cuidados, chamo a atenção para a “feminização” dos empregos precários, o que torna muito mais difícil garantir a sobrevivência familiar, uma vez que as casas são em geral comandadas por mulheres. Esta situação também tem aumentado a migração de mulheres.

A crise ecológica corresponde à negação da ecodependência do homem em relação à natureza. Relaciona-se a uma percepção reducionista da natureza como mero depositário de recursos destinados à exploração da indústria, por oposição a uma concepção da natureza como “lugar” socialmente construído, onde sujeitos políticos se organizam social e economicamente em relação com o que “está a sua volta”.

A forma contemporânea do capitalismo neoliberal, que atua sob a lógica da financeirização, vai muito além da mercantilização da dimensão visível da natureza. Ele avança sobre a precificação e a commoditização do imaterial e do volátil: das práticas coletivas e saberes tradicionais de conservação, da paisagem, dos gases atmosféricos, etc.

Muito embora tais crises, de cuidados e ecológica, possam ser consideradas aporias do processo histórico de desenvolvimento do capitalismo em geral, elas trazem certas especificidades relativas à etapa neoliberal do capital globalizado e financeirizado. Os acordos comerciais plurilaterais atualmente em discussão reúnem vários aspectos dessa negociação, marcando também uma nova etapa da luta contra o neoliberalismo.

Vale lembrar, o comércio, e ainda mais comércio internacional, constituiu, historicamente, a maneira pela qual o capitalismo produziu narrativas voltadas à legitimação da expropriação dos povos. Esta é uma construção sutil que não apenas impõe o mercado como mecanismo que regula trocas, mas extrai dele toda a dimensão de valor que traduz e encerra a ideia de uma vida que vale a pena ser vivida.

No centro deste debate está a valorização dos processos produtivos e das técnicas de transformação da natureza. É preciso recordar que deriva da visão sobre o comércio, a teoria moderna da propriedade, usada, entre os séculos XVI e XVIII, como forma de legitimar a expropriação colonial. Nesse sentido, o direito de propriedade se fixa com base no uso e na obra, na benfeitoria, isto é, na transformação da natureza e dos territórios.

Não surpreende, portanto, que os tratados supramencionados tenham como objetivo muito mais do que simples trocas comerciais. Eles incluem bens, serviços, propriedade intelectual, operações financeiras, além de flexibilizarem alguns elementos da soberania e autodeterminação dos povos ao ampliar as possibilidades (já existente) de que empresas acionem estados na Justiça para defenderem os seus interesses particulares. 

Se efetivamente postos em prática, tais tratados irão figurar no quadro de um conjunto de estruturas e instituições internacionais que vêm sendo decisivas para a ampliação das desigualdades globais, econômicas e de gênero, conforme relatado em pesquisa recente realizada pela organização inglesa Oxfam.

O impacto desses tratados seria nada menos que devastador. E esta é a má notícia: Eles representam um retrocesso do ponto de vista da conquista de direitos em todo o mundo.

A boa notícia é que na crise ou nas múltiplas crises que vivemos, acirradas pela instabilidade dos mercados, o avanço genocida do capitalismo abre um espaço para a reorganização da esquerda e para a convergência das pautas de lutas, para uma retroalimentação positiva das lutas na sua diversidade, para repensarmos, enfim, novas formas de (re)existências e voltarmos a inquirir o futuro sobre que tipo de comunidade política nós queremos ser.

*Tatiana Oliveira é Doutora em Ciência Política pelo IESP/UERJ, militante feminista e membro do GR-RI.