Sustentabilidade

Agropecuária

A Operação Carne fraca e os “facilitadores”

por Rui Daher publicado 21/03/2017 00h00, última modificação 20/03/2017 17h35
Sua existência é história velha, mas a verdade é que a maioria são funcionários honestos, esforçados e mal remunerados
José Cruz/Agência Brasil
O presidente Michel Temer em churrasco com os embaixadores

Em 40 anos profissionais próximos ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento sei que “facilitadores” existem, mas a maioria é de funcionários honestos e mal remunerados

Como são as coisas nesta Federação de Corporações. Critica-se a exportação de bens primários por não agregar valor, o que por si só já é uma bobagem, mas se destrói uma das cadeias alimentares mais importantes, como o complexo de carnes que se especializou, adquiriu tecnologia para aumentar o grau da adição de valor e competitividade, numa operação chinfrim da Sacristia de Curitiba, a acobertar briguinhas internas entre delegados da Polícia Federal.

Coincidentemente, quando o jornal Valor Econômico, de 15 de março, destaca que a “JBS deflagra nova fase de expansão nos EUA”. Depois de comprar, em 2007, a norte-americana Swift, a JBS tem hoje 45 unidades de produção no país, emprega 63,5 mil pessoas e teve receita líquida de US$ 33,8 bilhões, em 2016.

A existência de “facilitadores” técnicos e burocráticos no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), sobretudo a favor dos grandes grupos em detrimento dos fabricantes, por exemplo, de orgânicos, é história velha, limitada, e agora requentada pela Polícia Federal, e pelas folhas e telas cotidianas que logo se acalmarão pensando nas receitas publicitárias que a cadeia (ops) lhes proporciona.

Depois de 40 anos profissionais próximos ao MAPA sei que “facilitadores” existem, mas a grande maioria é de funcionários e técnicos honestos, esforçados e mal remunerados. Oportunidades teriam quando estive vice-presidente e diretor de grandes empresas de fertilizantes, e também hoje como consultor e pequeno empresário. Nunca, no entanto fui achacado. Minhas colunas contêm fortes críticas às ações e inações do MAPA.

Atenção, pois, Sérgio Moro, não garanto que, no futuro, não atenda a um “facilitador” desses, mas antecipo o prêmio que gostaria pela delação: o senhor ouvir minhas histórias de quando o Paraná foi um Estado da Federação.

Há um grande interesse dos EUA em comprar do Brasil carnes in natura. De menor valor agregado, economistas corporativos. Já vejo os enormes aviões que costumam voltar com os corpos dos mortos em combates de invasões alucinadas, pousando no Brasil para abrigar, como Arca de Noé, enorme fila de franguinhos, porquinhos e boizinhos nacionais.

Hortaliças

Passemos dos incorretos carnívoros aos corretos vegetarianos e veganos. Tenho escrito sobre os perrengues que, em 2016, passaram os produtores de hortaliças, legumes, tubérculos e bulbos. O início deste ano não se fez melhor. Menos pelo clima, que foi bom e ampliou a oferta, mas por efeito dos baixos preços de comercialização, a ponto de não cobrir os custos. 

Muitas áreas nem mesmo foram colhidas, trazendo prejuízos sem a contrapartida de ver, sorridentes, os apresentadores do Jornal Nacional, na TV Globo, não os acusando de “os vilões da inflação”.

As quedas chegam a 50% sobre os patamares do mesmo período do ano passado. Valem para folhosas, batatas, cebolas, tomates, cenouras, beterrabas e outras.

Na semana passada, em Andanças Capitais, ouvi que o preço dos pepinos está se recuperando. Fácil de entender tal a quantidade de cucumináceas que o governo golpista impõe à população.

Vivemos uma política econômica contracionista. Cai a demanda seja ela qual for. De bananas e hortaliças a automóveis. Mesmo a venda de iates está em queda. Mesmo porque quem não os têm, rouba.

É frequente o mercado interno agropecuário sofrer com políticas econômicas neoliberais. Menos emprego, renda e crédito inibem o consumo. Quem fornece não encontra fregueses, e quando encontram não recebem. Endividados, os produtores perdem acesso aos financiamentos e patrimônio dado em garantia.

Os pedidos de prorrogação para pagamento não estão sendo atendidos.

Criou-se o círculo da danação. Grita, produtor!

Alerta para os grandões

As taxas de juros para custeio do Plano Safra sempre estiveram abaixo da Selic. Entre 2007 e 2016 (ainda de Dilma e Kátia), em média 40%. Estuda-se atrelá-los à Selic e operar com gatilhos. Como o artefato sempre me traz à memória malfeitores, tomem cuidado: quando para baixo, eles costumam acionar o gatilho três anos depois que você morreu.