Número 961,

Política

Lava Jato

O intérprete do ódio

por Mauricio Dias publicado 15/07/2017 00h13, última modificação 14/07/2017 10h29
O inquisidor Moro cumpre sua missão e também condena Lula a 19 anos de abstinência política. A canalhice fica exposta
Paulo Pinto/AGPT
Lula

“Ele tem um otimismo sobre mim que eu mesmo não tenho”

Pela segunda vez, a oligarquia brasileira condena Lula. Inicialmente, o operário barbudo, engajado em lutas sindicais nos anos 1980, foi jogado numa cela por 31 dias. Hoje, após duas bem-sucedidas passagens pela Presidência da República, ele se vê de novo acossado pelo preconceito de classe, transformado em ódio na sentença de Sergio Moro.

Após a leitura da decisão monocrática do juiz, é compreensível ouvir o cidadão consciente repetir por mil vezes, ou mais, esta espécie de mantra: não há provas. Há deduções. A soma delas, no entanto, não resulta em verdade.

Na sentença, onde o problema trata do célebre triplex do Guarujá, Moro reage e nega a tese de que a condenação de Lula seria um caminho para evitar a possível volta dele à Presidência na eleição de 2018. O juiz argumenta: “O ex-presidente (...) não está sendo julgado por sua opinião política (...) e não há qualquer relevância em suas eventuais pretensões futuras de participar de novas eleições...”

Ponto extremamente importante, ao flagrar a canalhice de Moro. Seria por distração que o inquisidor curitibano restringiu a possibilidade de Lula ocupar cargos públicos por mais 19 anos? O magistrado botou a bola na marca do pênalti, afastou o goleiro e mandou Lula chutar. “Ele tem um otimismo sobre mim que eu mesmo não tenho”, sentenciou o ex-presidente.

O juiz projetou na soma da punição para Lula, hoje com 71 anos, uma expectativa de vida longa, muito além da expectativa de vida do brasileiro, de 72 anos. Assim, se for condenado, o petista não poderá disputar eleição até o ano de 2036.

No corpo da sentença, Sergio Moro faz referência à queixa-crime apresentada por Lula, oficialmente como réu, oficiosamente como adversário, contra o abuso de autoridade do juiz. O ex-presidente sustenta a acusação no caso da condução coercitiva sofrida em 2016, e por ter levantado o sigilo telefônico de Lula e da hoje ex-presidenta Dilma Rousseff.

Ele admite “ter errado” na divulgação dos áudios da gravação e da conversa de Dilma com Lula. Mas logo se refugia, para se proteger, no sistema de “erros e acertos” da Justiça brasileira. Lula, porém, já entrou pela porta da frente da história. Quanto a Moro – Moro? –, vai sair pela porta dos fundos.