Número 960,

Saúde

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Os "serial killers" da indústria do cigarro

por Drauzio Varella publicado 17/07/2017 00h10, última modificação 14/07/2017 13h02
A designação "baixos teores" de nicotina era arbitrária e desprovida de qualquer outro sentido que não o mercadológico
Rafael Neddermeyer/ Fotos Públicas
Fumo

"Em 2006, no decorrer do processo “United States vs. Phillip Morris et al.”, os executivos da indústria declararam à Justiça americana que sempre souberam que a denominação “baixos teores” era arbitrária e desprovida de outro sentido que não o mercadológico".

A associação entre cigarro e câncer de pulmão foi estabelecida nos anos 1950. Naquele tempo, o poder de dissuasão da indústria tabaqueira era enorme. As fortunas investidas em publicidade lhes davam o poder de controlar os meios de comunicação de massa.

Qualquer menção aos malefícios do fumo era rebatida por “cientistas” de aluguel encarregados de criticar a metodologia dos estudos apresentados.

Quando essa estratégia não dava resultado, ameaçavam com o corte das verbas publicitárias.
Existem dois grupos de cânceres de pulmão: os carcinomas de pequenas células e os de não pequenas células, grupo ao qual pertencem os adenocarcinomas, os carcinomas de células escamosas e outros.

Nos anos 1950, os adenocarcinomas correspondiam a cerca de 5% dos casos. Como os inquéritos epidemiológicos apresentavam resultados contraditórios, muitos admitiam que esse seria o único subtipo que não guardaria relação com o fumo.

No decorrer das décadas de 1960 e 1970, no entanto, a incidência dos adenocarcinomas aumentou abruptamente, a ponto de torná-los os tumores mais prevalentes no sexo masculino e nos fumantes mais jovens.

Entre 1990 e 1994, entretanto, foi demonstrado que se tratava da histologia mais frequente também em mulheres e em homens de qualquer idade, brancos ou negros.

Qual seria a explicação? Nesse período, convencida de que se tornava impossível conter e desmentir a enxurrada de evidências científicas que relacionavam fumo ao câncer, a indústria investiu pesado na comercialização de cigarros com filtro. Surgiram, então, os famigerados light e ultralight, apresentados criminosamente como cigarros mais seguros, por conter teores mais baixos de alcatrão e nicotina.

Resultado: as marcas com filtro, que ocupavam cerca de 1% do mercado nos anos 1950, chegaram a 60% nos anos 1960, e a mais de 90% no decorrer da década de 1980.

Os números do Surveillance, Epidemiology, and End Results database (Seer), do governo americano, não deixam dúvidas: esse sucesso mercadológico precedeu e acompanhou o crescimento exponencial dos casos de adenocarcinoma.

Em 2006, no decorrer do processo “United States vs. Phillip Morris et al.”, os executivos da indústria declararam à Justiça americana que sempre souberam que a denominação “baixos teores” era arbitrária e desprovida de outro sentido que não o mercadológico. Hoje é consenso atribuir aos cigarros com filtro maior periculosidade.

Quem controla a quantidade de nicotina inalada são os receptores nicotínicos existentes nas membranas dos neurônios cerebrais. Ao passar pelo filtro, a fumaça resultante da combustão vem misturada com o ar, portanto, menos concentrada e mais palatável.

Para compensar a concentração mais baixa de nicotina, o fumante dá tragadas mais profundas e demoradas, com a finalidade inconsciente de reter a fumaça mais tempo em contato com os alvéolos pulmonares.

O contato prolongado e íntimo das vias aéreas inferiores com os agentes cancerígenos em suspensão cria condições propícias à carcinogênese.