Número 959,

Cultura

Livro

Saturnino Braga e a virtude da política

por Nirlando Beirão publicado 16/07/2017 00h23, última modificação 14/07/2017 11h46
Ex-senador e ex-prefeito publica testemunho de uma geração que fez vida pública com decência
Sergio Dutti
Saturino Braga

Sempre de esquerda. "Um sentimento de solidariedade humana com o sofrimento e a humilhação da probreza"

A poeira de hipocrisia, safadeza, desfaçatez, intolerância e ignorância levantada pelos políticos carnavalescos e pelo Judiciário fanfarrão neste infeliz ano de 2017 empana a memória de tempos em que a atividade pública era exercida – pelo menos por alguns – com honradez, patriotismo, convicções, debate e honestidade.

Roberto Saturnino Braga percorreu todas essas virtudes em suas mais de cinco décadas em prol da democracia, mesmo tendo tido acesso, como deputado federal, senador da República, prefeito do Rio de Janeiro e vereador, ao poder que, aos outros, tenta e corrompe. 

Num contraponto gritante ao que se assiste hoje no Brasil e, em particular, no Rio devastado ao qual Saturnino dedicara sua energia política e sua inteligência criativa, ele deu adeus aos cargos e aos mandatos sem se deixar macular por um único arranhão ético.

Em Itinerância, que acaba de ser lançado pela Editora Contraponto, Saturnino Braga pede a palavra para rememorar, com modéstia tranquila, uma trajetória que começa no agora tão espezinhado BNDE (hoje, BNDES).

De cara presta um inesperado tributo ao então superintendente: Roberto de Oliveira Campos. É, foi graças ao futuro mentor econômico da ditadura que, em 1956, tempos de democracia, o jovem Saturnino conseguiu assumir o cargo que conquistara em concurso e que tentaram lhe barrar. A ele, e aos também economistas Juvenal Osório e Ignácio Rangel. 

Veto ideológico. O Dops dedou que Saturnino fora da Juventude Comunista (mas nunca do Partido) e viajara à Polônia e à União Soviética. Campos bancou a nomeação da trinca junto ao já trevoso ministro da Justiça, Armando Falcão. Por ironia, Saturnino derrotaria nas urnas esse mesmo Roberto Campos ao voltar ao Senado em 1998, pela legenda do PSB. Boa parte de sua militância ele a passou abrigado no PDT de Leonel Brizola, com quem viveu amizade e crises.

Assim como Brizola, padeceu do intenso bombardeio da mídia oligárquica. Sobretudo, experimentou o peculiar conceito de democracia que as Organizações Globo apregoam, com seu histórico farisaísmo. Ficou carimbado por ter presidido, deputado estreante, em 1966, a CPI Globo/Time Life – que tanto incomodou o doutor Roberto Marinho. Saturnino fez o que tinha de fazer. Foi parar no índex do jornal e da emissora.

“Fui político de esquerda toda a minha vida”, afirma. E continua sendo. Desde cedo foi exposto ao “sentimento de solidariedade humana, de compaixão com o sofrimento e a humilhação da pobreza, de inconformidade com as desigualdades entre ricos e pobres, entre afortunados e condenados à pobreza pela origem da vida, pelo preconceito da sociedade, não pelos méritos e deméritos de cada um”.

Saturnino aliou-se a uma geração que teve Ulysses Guimarães, Mário Covas e Tancredo Neves – e que fez da política um raro desempenho de dignidade cívica. Como escreve Mauricio Dias na apresentação, Saturnino Braga “é marcado por invejável serenidade política. Ele, porém, não sufoca a coragem”.