Número 958,

Saúde

Saúde Pública

Obesidade: epidemia mundial

por Riad Younes publicado 02/07/2017 00h46, última modificação 30/06/2017 12h09
O excesso de peso afeta 100 milhões de crianças no mundo. Entre adultos, chega a 600 milhões
Marcos Santos/USP Imagens
Alimentação.jpg

A epidemia de obesidade é uma situação de emergência para a saúde pública

Percebemos facilmente ao nosso redor o número crescente de pessoas com sobrepeso ou obesidade. E isso não é mais um problema de estética. Paralelo ao aumento do peso vem uma variedade de doenças graves, como diabetes, hipertensão, câncer, infarto e derrame, entre outras. Vários alertas nos últimos anos chamam atenção, em vários países, sobre esse problema de saúde pública.

Somente agora apareceu um estudo extenso e abrangente que avaliou os efeitos do sobrepeso e da obesidade em 195 países, durante 25 anos. Essa pesquisa foi publicada esta semana na prestigiosa revista médica New England Journal of Medicine. Conversamos sobre esse estudo e seu impacto com o doutor Ricardo Cohen, coordenador do Centro de Obesidade de Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.


CartaCapital: O estudo foi muito extenso. O que o destaca dos anteriores?

Ricardo Cohen: A iniciativa desse trabalho, realizado pelo grupo Global Burden of Disease, é um esforço mundial extraordinário, um estudo primordial no campo epidemiológico, em minha opinião. Embora seja conduzido por centenas de investigadores globalmente, a direção-geral é de sete universidades de vários continentes, sob a liderança do Centro de Coordenação de Dados da Universidade de Washington, em Seattle.


CC: Quem financiou esse estudo?

RC: Inicialmente, foi financiado, nos anos 1970 e 1990, pelo Banco Mundial e, mais recentemente, pela Fundação Gates, que também está sediada em Seattle.


CC: Apesar de a prevalência da obesidade ser óbvia, ainda faltavam muitos dados concretos, cientificamente confirmados. Como esse estudo respondeu às várias dúvidas dos especialistas?

RC: Para responder a essas lacunas no conhecimento, foi sistematicamente avaliada a prevalência de sobrepeso e obesidade, bem como os padrões de mortalidades e os anos de vida ajustados e relacionados com o Índice de Massa Corpórea (IMC) elevado, idade e sexo, em 195 países.

Essa análise substitui todos os resultados anteriores das consequências do IMC elevado na população global e analisados integralmente todos os dados, de 1990 a 2015. “Obesidade” foi definida como um IMC 30 (kg/m2) ou superior (calculado pelo peso dividido pelo quadrado da altura). “Excesso de peso” definido por IMC entre 25 e 30. O diagnóstico das doenças associadas, assim como a sua estratificação de gravidade, seguiu parâmetros validados por critérios internacionais.


CC: Quantas pessoas foram incluídas no estudo?

RC: A epidemia global de obesidade está crescendo e afetando cerca de 600 milhões de adultos e 100 milhões de crianças em 2015. Usando as informações colhidas em cerca de 70 milhões de pessoas em 195 países, os pesquisadores compararam as taxas de obesidade entre 1980 e 2015.


CC: O que observaram?

RC: As principais conclusões foram: 1. A prevalência de obesidade em 73 países duplicou entre 1980 e 2015. 2. Em 2015, 12% dos adultos e 5% das crianças eram obesos. 3. Entre os 20 países mais populosos, o Egito tem a maior taxa de obesidade em adultos (35%) em 2015, enquanto os Estados Unidos foram os primeiros na prevalência da obesidade entre crianças (13%). 4.

Em 2015, o excesso de peso e obesidade foi envolvido em 7% das mortes, devido a qualquer causa, sendo na maioria das vezes cardiovascular. Além disso, o trabalho incluiu análises de outros estudos sobre os efeitos do excesso de peso e ligações de potencial entre IMC elevado e as neoplasias do esôfago, do cólon e reto, do fígado, da vesícula biliar e das vias biliares, pâncreas, mama, útero, ovários, rim e tireoide, além de leucemia.


CC: O impacto na saúde pública é enorme. O que os pesquisadores recomendam?

RC: O grupo de autores concluiu que “o rápido aumento da prevalência de doenças secundárias ao IMC elevado prioriza a necessidade de foco contínuo na vigilância do crescimento da obesidade, concentrando esforços na identificação, execução e avaliação de intervenções baseadas em evidências para a resolução desse grave problema”. E o alerta mais substanciado para todos os responsáveis por políticas de saúde pública em todo o mundo. Programas integrados de manejo dessa epidemia são atualmente uma emergência global.