Número 956,

Cultura

Teatro

Ubu Rei: o usurpador real como metáfora de Temer

por Eduardo Nunomura — publicado 15/06/2017 01h00, última modificação 14/06/2017 13h00
Peça com Marco Nanini e Josi Campos serve de exemplo para o país que tem um governante cruel no poder
Carlos Cabera
Teatro Ubu Rei

Os atores Marco Nanini e Josi Campos formam a afiada dupla Rei e Mãe Ubu

Um rei cruel, ganancioso e covarde que conquista brutalmente o poder e não tem escrúpulos para governar o povo de maneira totalitária. Pode-se dizer que em todas as épocas há um rei Ubu, e o Brasil de hoje parece a síntese perfeita desse enredo. Na história, Pai Ubu, interpretado por Marco Nanini, assume o trono ao assassinar o rei Venceslau da Polônia e passa a matar e roubar a população para se perpetuar no poder.

Em seguida, o usurpador envolve-se numa guerra com a Rússia. Enquanto isso, sua mulher, Mãe Ubu, interpretada por Josi Campos, igualmente sórdida e vil, tenta roubar o tesouro da Polônia, mas enfrenta a resistência do príncipe herdeiro, Bugrelau, que lidera uma revolta popular.

A realidade cênica implícita pode passar despercebida pelo público mais desatento, desavisado ou desinteressado do espetáculo Ubu Rei, em cartaz até 25 de junho no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Como, por sinal, reagem muitos brasileiros diante do golpe orquestrado por Pai Temer, digo, Pai Ubu. E novamente a montagem de Daniel Herz ajuda a refletir sobre a permanência de um reinado tirânico.

O personagem de Nanini, um déspota mentiroso, despudorado e assassino, é a clássica figura do anti-herói. Faltam a Pai Ubu os atributos morais de um líder nato. Mas, mesmo assim, não é de todo impossível que parte dos súditos o queira nesse posto justamente pela ausência dessas qualidades.

Ubu Rei, com seus personagens desbocados e despudorados, escandalizou a Paris do fim do século XIX. O texto de Alfred Jarry, na época com 23 anos, foi mal recebido por um público até então acostumado a montagens clássicas e com personagens mais previsíveis. A peça tragicômica serviu de inspiração para diferentes movimentos da dramaturgia moderna, como o surrealismo, o dadaísmo e o Teatro do Absurdo.

Foi encenada por diversas companhias do mundo todo, como tentativa de dar uma resposta às crescentes ondas de brutalidade e turbulência social dos séculos XX e XXI. A atual montagem brasileira é favorecida pela rica execução da trilha sonora ao vivo pelos integrantes da Cia Atores de Laura, que dão uma vivacidade extra à narrativa de Jarry.