Número 956,

Esporte

Esporte

Expressão Paulista, o purgatório da bola

por Fábio Fujita — publicado 18/06/2017 00h19, última modificação 14/06/2017 11h12
O clube tornou-se o refúgio de jogadores profissionais desempregados
Fábio Fujita
Treinos técnicos

Um dia de treino na Várzea

O campo ao lado da Ponte Aricanduva, no bairro da Penha, zona leste de São Paulo, é precário: muitos trechos de terra tomaram o espaço da grama. A cal que demarca as quatro linhas praticamente sumiu.

Bem perto das laterais, árvores frondosas parecem brutos zagueiros e exigem uma atenção redobrada dos jogadores para evitar um choque acidental.

É sexta-feira 26 de maio. Um cachorro vira-lata entra em desabalada carreira no gramado e, sem ser incomodado, fareja por todos os lados até se fartar e ir embora. Estamos na sede da Associação Esportiva Mooquem, time de várzea.

Naquela manhã ensolarada, os 13 atletas que iniciam a “roda de bobinho” são jogadores profissionais. Desempregados.

O grupo integra o programa Expressão Paulista, mantido pelo Sindicato de Atletas Profissionais do Estado de São Paulo, que tem por objetivo respaldar jogadores sem contrato. Oferece treinamentos físicos e técnicos, além de jogos-treino, em três dias da semana.

O sindicato paga ao Mooquem pela locação do espaço. A ideia é que a passagem dos atletas pelo projeto seja transitória (e breve), até que consigam um novo clube. Por isso, a quantidade de participantes varia conforme a sazonalidade. Há períodos em que passam de 40.

Em 2016, um nome conhecido foi visto com frequência na várzea: o goleiro Deola. Primeiro titular da meta do Palmeiras após a aposentadoria do ídolo Marcos, em 2011, Deola tinha abandonado as luvas no segundo semestre de 2015, depois de uma passagem discreta pelo Fortaleza. “Ele estava tocando um restaurante quando decidiu voltar a jogar.

Chegou aqui enorme, com 100 quilos”, lembra Júlio César Bonfim, um dos quatro integrantes da comissão técnica. Meses de treinamento e recondicionamento recuperaram a forma do goleiro, que assinou um contrato com o Juventus para disputar a Segunda Divisão do Campeonato Paulista deste ano.

O ex-palmeirense é exceção entre nomes consagrados. Em geral, aqueles que aderem ao Expressão Paulista são jogadores que peregrinam por divisões intermediárias. Segundo Bonfim, em geral o boleiro de renome, mesmo longe do auge, é vaidoso e recusa-se a se submeter a uma infraestrutura como a do Mooquem.

 

O goleiro Deola
Deola, ex-Palmeiras, passou pelo Expressão antes de assinar com o Juventus. Raros atletas que atuaram em times de ponta aderem (Foto: Ale Vianna - C.A. Juventus)

E cita o caso de um campeão brasileiro pelo Corinthians em 2005 que não se animou a integrar o programa. “O jogador desempregado pode até pagar uma academia ou contratar um personal trainer.

Mas ele não tem como reunir 21 jogadores para fazer um coletivo”, analisa, sobre um dos méritos da proposta, o de manter os atletas com ritmo de jogo.

O goleiro Luiz Fernando Pongelupe, 29 anos, não se constrange em ter de treinar sob condições aquém das ideais.

Formado no Corinthians, na mesma safra dos atacantes Dentinho e Lulinha, e atleta que mais vezes defendeu o Red Bull Brasil (116 jogos), Pongelupe conseguiu um contrato curto no início do ano com o Democrata, time da Série A do Campeonato Mineiro.

“O Democrata não tem calendário de competições no segundo semestre”, justifica. “Treinando aqui, tenho um trabalho de campo específico de goleiro. E preciso estar em boas condições quando assinar com um novo clube.”

Com duas experiências internacionais, no Chipre e em Mianmar, o atleta aguardará até o fim da próxima janela de transferências, em julho, para tentar se recolocar no exterior e não ser obrigado a aceitar propostas “muito ruins financeiramente” de clubes brasileiros.

Outros que suam a camisa no Expressão Paulista praticamente só flertaram com a esfera profissional. É o caso do atacante Marco Antônio Albuquerque da Cunha, de 30 anos.

Para realizar o sonho da bola, Cunha vendeu bala e chiclete mesmo em idade adulta, até conseguir seu primeiro contrato aos 28 anos, para jogar por quatro meses a Segunda Divisão do Campeonato Tocantinense pelo Nova Conquista, da cidade de Santa Fé do Araguaia.

“Sou bem brasileiro, sabia que tinha talento na ponta da chuteira e não iria desistir”, afirma Cunha sobre sua obstinação. Depois, jogou uma temporada na sétima divisão da Alemanha, pelo Bochum de Düsseldorf.

“Sem contatos influentes” no meio, suas perspectivas atuais são nebulosas. Naquela sexta-feira, nem apareceu no Mooquem para treinar. Corretor de imóveis, Cunha viu-se obrigado a atender um cliente. Nada que abale seu otimismo.

Sua grande oportunidade chegará, tem certeza, ainda que demore. “O mesmo Deus do Zé Roberto é o meu”, decreta, em referência ao lateral do Palmeiras que segue em atividade aos 42 anos.