Número 956,

Internacional

Oriente Médio

A trumpificação do Catar

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 17/06/2017 00h16, última modificação 14/06/2017 11h01
O bloqueio saudita mostra que a visita de Trump a Riad foi uma bomba de efeito retardado
Mandel Ngan/AFP
Trump e Tamim

Ao encontrar o emir Tamim, do Catar, em sua visita a Riad, Trump ofereceu-lhe "lindas armas" e tudo foram flores. Dias depois, os sauditas, clientes maiores, acusaram o Catar de terrorismo e o presidente os apoiou e reivindicou a autoria do caos, sem pensar na base vital dos EUA em Al-Udeid

Na semana passada, ao comentar a passagem de Donald Trump pela Europa, apontamos como ela abalou a ordem mundial e pôs em risco o futuro da civilização, enquanto a visita anterior ao Oriente Médio pouco trouxera de novo. Fomos ingenuamente otimistas. Transpareceu na segunda-feira 5 que a breve estada do presidente dos EUA em Riad e em Tel-Aviv também deixou um rastro de caos.

Nessa data, Bahrein, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos não só romperam relações com o Catar, vizinho e sócio do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC, em inglês) formado pelas monarquias da Península Arábica, como impuseram ao pequeno e rico emirado um bloqueio diplomático, terrestre, marítimo, aéreo e financeiro.

Foram seguidos pelos demais satélites dos sauditas: as Ilhas Maldivas, os governos “oficiais” da Líbia e Iêmen (ambos em guerra civil e incapazes de controlar a maior parte de seus países) e o Egito, este convertido em satélite, apesar de sua dimensão histórica, demográfica e econômica, pela subserviência do ditador militar Al-Sisi, posto e mantido no poder pela família Saud. A Jordânia alinhou-se parcialmente, retirando o embaixador do Catar sem romper completamente.

O governo do Bahrein alegou “incitação pela mídia do Catar”, apoio a atividades terroristas e financiamento a grupos iranianos para sabotá-lo. Os sauditas falaram de “apoio a grupos terroristas e sectários para desestabilizar a região” e o Egito de “antagonismo” contra o país e “fracasso em impedir o apoio a grupos terroristas”. Os Emirados chegaram a ameaçar de prisão quem manifestar simpatia pelo Catar nas redes sociais.

Um bloqueio dessa extensão a um país que importa quase todos os seus alimentos e demais bens de consumo pela fronteira saudita e por terminais de carga nos Emirados (Jebel Ali e Abu Dabi), é quase uma declaração de guerra. Grandes conflitos foram iniciados por muito menos. A justificativa de Tel-Aviv para a Guerra dos Seis Dias de 1967, por exemplo, foi o fechamento, pelo Egito, da navegação pelo Estreito de Tiran a Israel.

A crise teve como precedente a publicação, em 24 de maio, no site da estatal Qatar News Agency (QNA), de uma matéria, segundo a qual o soberano, emir Tamim, teria declarado que “não há razão para a hostilidade dos árabes ao Irã”. Além disso, o texto declarava apoio do Catar à Irmandade Muçulmana e ao Hamas, além de alardear boas relações com Israel.

Segundo o Catar, o site foi hackeado. O texto foi notado às 12h15 e às 13h00 o governo de Doha alertou a mídia sobre sua falsidade. Por quem? Segundo The Guardian, uma investigação do FBI e da National Crime Agency responsabilizou hackers russos, mas o jornal acrescenta: “Acredita-se que o governo russo não está envolvido. Hackers independentes foram pagos por outro Estado ou indivíduo. Alguns observadores afirmaram em privado que pode ser encomenda da Arábia Saudita ou dos Emirados”.

Base dos EUA no Qatar
O pretexto para a ruptura pode ter sido plantado pelos próprios sauditas (Foto: Corey Hook/U.S. Air Force)
Isto se deu quando Trump chegava em Roma vindo de Tel-Aviv, três dias após a visita a Riad, durante a qual muito se exagerou a inexistente “ameaça terrorista” do Irã e nada se falou das violações de direitos humanos pelas monarquias árabes, muito menos de seu patrocínio a grupos jihadistas. Pode-se supor que os governantes da Arábia Saudita se sentiram encorajados a assediar o Catar em nome da frente única contra o Irã desejada por Israel e apoiada por Trump.


Quando menos, porque o presidente reivindicou a autoria da crise em dois tuítes da terça-feira 6: “Como é bom ver a visita à Arábia Saudita com o rei e 50 países dar frutos. Eles disseram que adotariam uma linha dura contra o financiamento do extremismo e todas as referências apontavam para o Catar. Talvez seja o começo do fim do horror do terrorismo”.

Como disse o ministro alemão das Relações Exteriores, Sigmar Gabriel, a respeito da crise, “essa trumpificação das relações numa região suscetível a crises é particularmente perigosa”. Não é preciso acreditar que Trump planejou tudo de caso pensado. Talvez tenha feito como o Estado Islâmico em Manila e se apressado em assumir o atentado para parecer mais poderoso. Na visita a Riad, Trump encontrou o emir Tamim e disse ter discutido a compra pelo Catar de “montes de lindos equipamentos militares”. Mas, sem dúvida, pôs mais lenha na fogueira.

O mesmo fez o EI propriamente dito. Na quarta-feira 7, cometeu dois atentados suicidas em Teerã, um no mausoléu do Aiatolá Khomeini, outro no Parlamento, que deixaram 12 mortos e dezenas de feridos. Provavelmente, quis incitar os radicais iranianos a passar por cima da moderação do reeleito presidente Hassan Rohani e iniciar uma guerra apocalíptica contra os sauditas. De fato, a Guarda Revolucionária do Irã prontamente ligou os ataques à reunião dos sauditas com Trump, em comunicado oficial.

Teerã. Os atentados do Estado Islâmico em plena crise diplomática parecem querer incitar radicais iranianos a uma guerra apocalíptica em toda a região (Foto: Erfan Kouchari/Tasnin/IranImages/ZumaPress/FotoArena)
Os EUA têm no Catar a base de Al-Udeid, a mais importante no Oriente Médio, com 10 mil soldados, porque a Arábia Saudita os expulsaram em 2003, devido aos protestos de seus fundamentalistas contra a presença de infiéis na terra sagrada de Maomé. Dali parte a maioria dos bombardeios “antiterroristas” dirigidos ao Afeganistão, Iraque e Síria. Trump talvez não soubesse disso e, com certeza, não ouviu seus diplomatas e militares, que continuam a buscar uma solução. Houve uma crise semelhante, com ameaça de bloqueio, em março de 2014, mas daquela vez os sauditas, provavelmente pressionados por Barack Obama, voltaram atrás.

O hacking foi um pretexto e a acusação principal, se não chega a ser uma completa mentira, é ridiculamente hipócrita. Parte do financiamento do terrorismo vem de cidadãos do Catar, mas também dos Emirados e, em escala muito maior, da Arábia Saudita. Os famosos e-mails de Hillary Clinton eram claros a esse respeito e o próprio Trump acusava os sauditas pelo 11 de Setembro antes da posse. Em 2016, o governo britânico prometeu um inquérito sobre o financiamento do extremismo islâmico em troca de apoio à participação nos bombardeios ao EI e acabou por engavetá-lo por apontar a Arábia Saudita como fonte principal.

Entretanto, o Catar insiste em ser neutro em relação ao Irã, com o qual divide uma reserva de gás que é hoje sua grande riqueza natural. Insiste em manter uma política externa independente, em financiar os palestinos – tanto a Autoridade Palestina quanto Gaza – sem se submeter aos interesses dos sauditas de apoiar uma liderança palestina mais submissa e se reaproximar de Israel. Apoia organizações islâmicas hostis a Riad, principalmente a Irmandade Muçulmana.


Ainda mais irritante, projeta no mundo árabe uma influência desproporcional ao seu tamanho por meio de órgãos de mídia relativamente independentes e populares no mundo árabe, principalmente a Al-Jazeera.  Fez uma cobertura simpática à resistência do Iraque à invasão dos EUA em 2003, à luta do Hezbollah contra a invasão israelense de 2006 e à Primavera Árabe de 2010-2012 e é crítica das monarquias vizinhas, cada vez mais inseguras.

Se é para fazer distinções, o governo de Doha dá mais liberdade a seus cidadãos e turistas, especialmente às mulheres, que os sauditas e emiradenses, e as forças apoiadas especificamente pelo Catar são mais sensatas e menos sectárias do que aquelas patrocinadas pelos sauditas. A Irmandade Muçulmana, durante o governo egípcio de Mohamed Morsi (2012-2013), mostrou-se cordata em comparação aos salafistas e à ditadura de Al-Sisi, apoiados pela monarquia dos Saud.

O Hamas e o Hezbollah trazem dores de cabeça a Israel e os Houthi aos sauditas, mas não são terroristas no mesmo sentido da Al-Qaeda ou do Estado Islâmico e não ameaçam o Ocidente com atentados. O problema é terem boas relações com o Irã (do qual Morsi chegou a se aproximar) e ameaçar a hegemonia das elites árabes.

Pedra no sapato. A relativamente independente rede catarense é um pesadelo para os sauditas e aliados, que exigem sua completa extinção (Foto: Karim Jaafar/AFP)
O objetivo evidente dos sauditas e seus satélites é forçar o Catar a se submeter e se alinhar contra o Irã. Isso inclui fechar a Al-Jazeera e expulsar os clérigos egípcios da Irmandade Muçulmana, que de lá criticam a ditadura egípcia, bem como os representantes políticos do Hamas em Doha. Pode, porém, ter o resultado oposto. Ao menos no primeiro momento, o Catar apelou ao vizinho do outro lado do Golfo Pérsico.


Proibidos de sobrevoar os vizinhos árabes, os aviões da Qatar Airways passaram a dar a volta pelo Irã para se dirigirem à Europa e Ásia Oriental, e o governo de Doha negocia o uso de portos iranianos para receber as mercadorias das quais necessita. Kuwait e Omã, que também pertencem ao GCC, não se alinharam à hostilidade saudita e o primeiro se propôs como mediador.

A Turquia, cujas posições na Primavera Árabe foram similares às do Catar e que se equilibra entre Teerã e Riad, também quer mediar a crise e ofereceu água e alimentos ao Catar.

Se o Catar ceder, os planos sauditas serão temporariamente realizados, não se sabe a que custo para a estabilidade do país e de toda a região. Se resistir com sucesso, o GCC terá deixado de existir para todos os efeitos e será o fim da pretensão dos EUA de organizar uma “Otan árabe” contra o Irã.

O Pentágono talvez perca sua base mais importante em um momento crítico para suas operações contra o EI e o Taleban e o governo de Teerã sairá prestigiado. Se os sauditas, inconformados, invadirem o país, talvez cometam o mesmo erro de Saddam Hussein ao interpretar a ambiguidade de Bush pai como uma autorização para anexar o Kuwait. Há o risco de uma guerra de grandes proporções.