Número 955,

Política

Análise

Tudo pode piorar, sempre

por Celso Loducca — publicado 11/06/2017 00h13, última modificação 09/06/2017 10h07
O poço, ninguém se iluda, não tem fundo. Para evitar o pior, o Brasil precisa unir justiça social e livre-iniciativa
poço

Desculpe não adoçar estes seus minutos de leitura em tempos tão carentes de algum tipo de prazer. Mas, realmente, não acredito que poço algum tenha fundo e, pior, a depender de nossas escolhas, podemos cavar infinitamente num estado de barbárie absoluta.

Aquilo que chamamos de civilização, para mim, é um esforço, uma construção conjunta que precisa ser sustentada diariamente pelos indivíduos por meio das instituições criadas exatamente para não nos matarmos uns aos outros o tempo todo, não escravizarmos os mais frágeis (daquele momento) e podermos ter alguma paz e prosperidade.

Quando quem deveria respeitar e manter essas instituições – os indivíduos de um lugar e seus representantes, ou todos nós – não mais acredita nessa construção coletiva, seja por qual motivo (corrupção generalizada e desrespeito às leis, por exemplo), a reação natural, mas não a desejável, é o salve-se quem puder, cada um cuida do que é seu, já que ninguém se importa mais com ninguém.

Não sou analista político ou sociólogo, mas leio um pouco, e minha origem em marketing me obrigou a desenvolver algum grau de percepção dos movimentos e tendências dos seres humanos, e, infelizmente, acho, estamos pendurados por um fio de seda, na iminência de desencadear um processo descontrolado de destruição do pouco que nos resta de civilidade.

Os cidadãos precisam de algo ou alguém (no plural) para confiar, urgentemente. Estão cansados de sentir o cheiro das entranhas do Brasil real. 

Parênteses: nessa angústia os oportunistas pescam seus votos com falsas soluções, saídas simplórias para problemas complexos, tanto aqui quanto nos países ditos desenvolvidos.

Convenhamos, sabíamos, ou desconfiávamos, que o Brasil era, como dizia minha avó Ignez sobre algumas namoradas que ela não simpatizava: “Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento”.

Muitos daqueles que se dizem chocados com tanta sujeira costumam borrar seu entorno com a mesma substância intestina e acusam para tentar se ver livres do mal que causam. Quem mais grita sua pureza costuma ser o maior responsável pelo estado atual das coisas.

Apesar do perigo iminente de caos, sinto, além do medo da barbárie e do Mad Max que podemos vir a viver, um certo alívio: enfim, enfrentamos tudo isso. Torço para sermos fortes para sairmos dessa. Mas não tenho certeza, nem muita esperança.

Quando começou, a Operação Lava Jato estava concentrada em um partido, o do poder naquele momento. E me admirava a ausência dos “outros”.  Parecia ingenuidade ou má-fé focar em um e ignorar os outros. A Lava Jato, costumava dizer, precisava ser Lava Tudo, senão seria apenas um ato político para tirar um que se lambuzou e colocar outro que se lambuzava há mais tempo no poder.

Fico satisfeito em agora estar mais claro que a Lava Jato é, finalmente, apartidária e “quem errou vai pagar”, seja quem for. E muitos erraram. Muito mais do que gostaríamos de ver, admitir ou até saber.

Mas, ainda como mera opinião pessoal, acho que o tempo que a Lava Jato levou para ampliar seu foco acabou por aprofundar as divisões do País entre os petistas que efetivamente defendiam os mais pobres, mas eram também corruptos, e os que se diziam éticos e afirmavam pensar no bem do País (mas corruptos ainda não revelados).

Gerou uma simplificação precária, oportunista e forçosamente hipócrita, como está mais do que provado agora. E não falo só daqueles que frequentam os noticiários diariamente, como os políticos que dizem representar o povo, mas representam seus próprios bolsos, ou ainda empresários que se dizem capitalistas, liberais, mas mamam nas tetas do governo, manipulam as leis e odeiam concorrência.

Falo aqui de todos que tentaram esconder sua precariedade ética, berrando histericamente contra os outros.

Vamos deixar esse joguinho adolescente de lado e tentar amadurecer um pouco? Este país apodrecido é o nosso.

Olhar no espelho pode ser doloroso, mas pode ser libertador também. Não acho que devamos virar a cara ou fingir que isso aí cheirando mal não tem nada a ver com cada um de nós. Somos nós.

E, como disse alguns parágrafos acima, acredito que estamos muito perto de entrar numa espiral descontrolada de violência, em todos os sentidos. Falta uma faísca, um fato, algo que não sei bem descrever. Falta pouco, me parece. 

Talvez por isso este seja o momento. Talvez agora que todos os lutadores estão na lona, que ninguém venceu, que sabemos que todos perdemos muito e temos muito mais a perder, possamos parar de nos destruir e buscar algum tipo de entendimento.

Vivemos em uma das maiores economias do mundo, ainda, mas com um mercado antiquado e uma concentração de renda vergonhosa. As esquerdas avançaram na construção da igualdade, mas não foram capazes de mudar estruturas corruptas do País.

Pior, foram engolidas por elas. A direita não passa de grupos de interesses quase sempre ilegítimos, travestidos de modernidade, apenas em busca de se apropriar do patrimônio público. Por isso aqui estamos.

Precisamos de uma saída nova capaz de unir os brasileiros que se entendem tanto de esquerda quanto de direita, ou, como queiram, progressistas e conservadores (e não me venham com esse papo de que isso não existe mais).

É necessário um caminho pelo qual o País se comprometa radicalmente com a justiça social e com a livre-iniciativa, desde que signifique, também, concorrer em condições de igualdade.

Sensibilidade social e oportunidades semelhantes para concorrer. Se conseguirmos construir politicamente uma saída assim, talvez seja possível evitar o pior.