Número 954,

Internacional

Oriente Médio

Trump e a diplomacia de fake news

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 04/06/2017 00h19, última modificação 02/06/2017 10h27
Trump continua no caminho desastroso traçado pelos antecessores, mas vai além na hipocrisia
Bandar Al-Jaloud/AFP
Trump e tiranos

Em cena digna de supervilões de cinema, Trump e dois tiranos inauguram o imaginário combate do fundamentalismo por fundamentalistas

Um falastrão incompetente como Donald Trump lidar com uma questão tão delicada quanto o Oriente Médio era uma receita certa para um desastre. Que não tenha cometido nenhuma gafe realmente séria, depois de ter chegado a nomear um assessor de Segurança Nacional, Michael Flynn (logo demitido por mentir sobre contatos com a Rússia), que considerava o Islã um “câncer maligno” e uma “ideologia política disfarçada de religião”, é quase uma surpresa.

No essencial, limitou-se a continuar no caminho para a catástrofe traçado por seus antecessores, de Franklin Roosevelt a Barack Obama.

Trump foi um dos mais insistentes em responsabilizar a Arábia Saudita pelos atentados do 11 de setembro de 2001 e condenar Obama por confraternizar com sua família real, mas seguiu o roteiro traçado pela diplomacia sem incidentes, salvo falar em “terrorismo islâmico”, clichê que soa mal em Riad e gerou chamadas tão paradoxais quanto a do site G1: “Em discurso, Trump apela a líderes muçulmanos por luta contra o islamismo”.

Os sauditas fingiram que não ouviram, assim como fingiram esquecer a campanha republicana centrada em promover a islamofobia, denunciar os “politicamente corretos” por se oporem à discriminação do Islã e até em acusar Obama de ser um agente secreto da Irmandade Muçulmana.

Mais lamentável, embora seja hipocrisia calculada e não deslize, foi acusar o Irã de financiar o terrorismo e “rezar pelo dia em que o povo iraniano tenha o governo justo e legítimo que merece” ao lado do rei Salman, cujo país é na vida real o maior financiador do terrorismo, o inspirador do fundamentalismo sunita em todo o mundo e um dos chefes de Estado mais autocráticos do mundo.

Em comparação, o Irã, que acabava de reeleger o moderado e pacifista Hassan Rohani em uma eleição com sérias limitações, mas autenticamente disputada com os ultraconservadores, parece uma democracia vibrante.

Também estava presente, entre outras dezenas de autocratas árabes, o marechal Al-Sisi, ditador egípcio igualmente responsável por massacres de opositores, torturas e prisões arbitrárias. Ele, Trump e o rei saudita protagonizaram uma cena digna de supervilões de cinema ao acionarem juntos um globo luminoso e darem margem a muitas comparações divertidas nas redes sociais, embora seu significado real seja ainda mais bizarro.

O ato inaugurava simbolicamente o “Centro Global para o Combate a Ideologias Extremistas” na capital do reino que mais faz para difundir tais ideologias e Trump, que prometia banir a imigração muçulmana e combater o “globalismo”, segurava um globo rodeado de fundamentalistas muçulmanos para encarregá-los de combater o “islamismo” numa perspectiva global.

O objetivo verdadeiro da visita foi articular uma das pernas de uma aliança explícita entre as monarquias árabes mais retrógradas e Israel, em nome do combate ao Irã – que nesse contexto representa, apesar de tudo, uma influência modernizadora e anti-imperialista –, e ao mesmo tempo fazer negócios multibilionários com material bélico e investimentos imobiliários e de infraestrutura.

Foram vendidas à monarquia saudita armas no valor de 110 bilhões de dólares, primeira parte de um pacote que deve chegar a 350 bilhões.

E como se fosse pouca impostura, sauditas e Emirados, os dois países mais retrógrados em termos de direitos das mulheres, nos quais elas nem sequer têm autonomia para assinar contratos sem permissão de maridos ou outros responsáveis, ofereceram à primeira-filha Ivanka Trump 100 milhões para um “Fundo de Mulheres Empreendedoras” a ser administrado pelo Banco Mundial.

Há nisso mais de um nível de ironia: no ano passado, Trump criticou Hillary Clinton pelo mesmo motivo: “A Arábia Saudita e muitos dos países que deram grandes quantias de dinheiro à Fundação Clinton querem mulheres como escravas e matam gays, Hillary deveria lhes devolver todo o dinheiro!”

Em seguida, Trump fez o primeiro voo sem escalas da história (público, pelo menos) entre a Arábia Saudita e Israel, sinal da aproximação entre os dois Estados. Entretanto, mesmo com todo alarde de Trump sobre sua capacidade de conseguir um “acordo definitivo antes do que todos poderiam esperar”, nada substancial resultou dessa etapa.

Netanyahu
Netanyahu esperava muito mais da visita(Foto:Jack Guez/AFP)

A ultradireita israelense esperava ver Trump transferir sua embaixada para Jerusalém e dar carta branca à anexação desde os primeiros dias de governo e estava decepcionada. Alguns ministros ameaçaram boicotar a visita e tiveram de ser explicitamente chamados à ordem por Benjamin Netanyahu.

A cautela da Casa Branca com mencionar Jerusalém chegou ao ponto de o secretário de Estado, Rex Tillerson, anunciar a partida para “Tel-Aviv, lar do judaísmo”. O ministro da Educação israelense, Naftali Bennett, tentou apanhar Trump pela vaidade, pedindo-lhe para “fazer história e reconhecer Jerusalém”, mas recebeu como resposta apenas “é uma ideia”.

O máximo que o governo israelense conseguiu de Trump foi fazê-lo visitar o Muro das Lamentações, no setor oriental (palestino) da cidade, e tentar usar isso como prova de reconhecimento in pectore da anexação. Entretanto, os EUA recusaram permitir a Netanyahu acompanhá-lo, justamente por não reconhecer a soberania de Israel no local, e deram ao episódio o caráter de ato particular, fora do programa oficial da visita.

Mas os palestinos, se esperavam qualquer tipo de progresso, também ficaram desiludidos. Trump nem sequer pronunciou a expressão “dois Estados” durante a visita. Muito menos qualquer crítica às ações concretas do governo Netanyahu nos últimos meses para tornar a ocupação irreversível, marginalizar a população árabe e criar um apartheid explícito.

Incluem um projeto de lei para fazer de Israel oficialmente um “Estado judeu”, reconhecer direito de autodeterminação apenas aos judeus, abolir o árabe como uma de suas línguas oficiais e permitir aos tribunais aplicar justiça com base na “herança judaica”, além de medidas para reforçar a autoridade dos rabinos ortodoxos sobre conversões e casamentos e fazer do país, cada vez mais, um Estado confessional, se não uma teocracia.

A ideia de que Trump endossaria explicitamente o rolo compressor da direita judaica sobre os palestinos e a oposição não se confirmou, mas tampouco aquela segundo a qual pretendia dar partida a um autêntico acordo de paz em troca do reconhecimento de Israel pelas monarquias sauditas e de uma aliança formal contra o Irã, mesmo se o povo iraniano enfraqueceu esse discurso ao rejeitar seus próprios radicais e reeleger um moderado.

Os sinais são de que Washington continua a lavar as mãos sobre a questão palestina, mas também não se esforçará para legitimar o sionismo radical aos olhos do mundo e apenas espera de Tel-Aviv, como Obama, que evite provocações explícitas. Seu objetivo é lucrar mais em negócios e negociatas com as monarquias árabes, sem perder o apoio e os recursos do lobby sionista.

Enquanto muito se falou do essencialmente imaginário “terrorismo islâmico” promovido pelo Irã, mal se aludiu ao terrorismo real, aquele promovido pelo Estado Islâmico, Al-Qaeda e outras organizações inspiradas na vertente saudita do Islã sunita e financiadas por milionários das monarquias do Golfo com a cumplicidade de seus governantes, mesmo se não faltaram motivos para abordar o assunto.

Incluem a iminente tomada de Mossul ao Estado Islâmico, o atentado reivindicado pela mesma organização ao espetáculo da cantora Ariana Grande em Manchester, que deixou 23 mortos e mais de 120 feridos, e a recente reportagem da TV Al-Aan de Dubai, Undercover in Idlib (Secretamente em Idlib).

Esta mostrou a vida na principal cidade em poder dos “rebeldes sírios” apoiados pelo Ocidente e pela Turquia como mais um emirado da Al-Qaeda, que controla suas prisões, tribunais e polícia, oprime minorias e treina e doutrina crianças para a guerra exatamente como o Estado Islâmico.

Seria uma indelicadeza para seus anfitriões tanto em Riad como em Tel-Aviv, uns e outros com relações relativamente cordiais com esses grupos, vistos como aliados contra o Irã, o Hezbollah e Bashar al-Assad. O Estado Islâmico até pediu desculpas ao governo Netanyahu por disparos contra o governo sírio que acidentalmente atingiram território ocupado por Israel em Golan.

Na última escala do tour das religiões abraâmicas, Trump visitou o papa Francisco. Havia ali também potencial para gafes históricas, mas foi possível evitá-las. A recepção foi fria, o papa fincou pé em suas posições sobre a paz, imigração e ecologia, e presenteou o visitante com seus próprios textos e encíclicas sobre o assunto, ao cabo de uma reunião de apenas 27 minutos, e recebeu uma caixa com as obras completas de Martin Luther King.

“Meu desejo é ver você se tornar uma oliveira para construir a paz”, disse o papa, ao qual o presidente respondeu: “Podemos usar a paz”. Apesar de essa frase deixar claro que Trump vê a paz como, no máximo, um instrumento para empreendimentos lucrativos, a visita pode lhe ter servido para marcar pontos em relações públicas, se abstraída da expressão de desconforto do pobre pontífice ao receber o sorridente bilionário.

Acompanhado, por sinal, do primeiro-genro e da esposa e filha, ambas pudicamente trajadas com roupas negras e véus que teriam enorme escândalo e seriam apontadas como símbolos de atraso e opressão, se usadas na Arábia Saudita ou no Irã.