Número 954,

Economia

Recessão

A crise global e a crise brasileira estão encadeadas

por Carlos Drummond publicado 03/06/2017 00h15, última modificação 02/06/2017 10h25
O colapso avassalador do País ocorre em um momento de complicações globais sem solução no horizonte
Mehmet Demirci/Zumapress/Fotoarena
Lehman Brothers

A demora para sair da crise de 2008, iniciada com a quebra da Lehman Brothers, é recorde desde 1860. Os erros dos países avançados complicam a solução, mas as economias dependentes de soja e outras commodities não aproveitaram o boom das cotações (Foto: Mehmet Demirci/Zumapress/Fotoarena)

Seja qual for o encaminhamento dado à avassaladora crise doméstica, o Brasil terá de lidar ainda com um quadro mundial considerado muito difícil para o Hemisfério Sul e o resto do mundo. O nó global é mostrado em acurado estudo feito neste mês pelo South Centre, organização intergovernamental que reúne os países em desenvolvimento e os emergentes e os auxilia a combinar esforços e conhecimentos para promover seus interesses comuns no plano internacional.

Na análise elaborada pelos economistas Yılmaz Akyüz e Vicente Paolo B. Yu III, a crise mundial iniciada há dez anos está longe de uma solução, porque foi aprofundada por encaminhamentos errados definidos tanto pelas economias avançadas quanto pelas demais. O resultado é que a atual recuperação se mostra longa e lenta mesmo pelos padrões das recessões passadas associadas a crises financeiras.

Nas cem piores crises financeiras desde a década de 1860, demorou cerca de sete anos, em média, para os desenvolvidos alcançarem o nível de renda per capita de antes da crise. Na atual crise global, dos 11 países industrializados afetados – França, Grécia, Islândia, Irlanda, Itália, Holanda, Portugal, Espanha, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos –,  apenas os dois últimos demoraram menos que a média histórica para atingir o patamar anterior.

Com base na comparação histórica acima, feita pela economista Carmen Reinhart e a partir também das projeções do FMI, os autores do estudo estimaram que aquele grupo de países levaria cerca de nove anos para atingir o nível de renda de antes da crise.

A resposta política do Hemisfério Norte, de restringir gastos dos governos e inundar o mercado com dinheiro a juros baixos ou negativos, falhou ao promover uma recuperação robusta e agravou problemas crônicos globais, como a desigualdade, a insuficiência da demanda e a fragilidade financeira, com “fortes efeitos desestabilizadores para o Hemisfério Sul”, diagnostica o South Centre.

Quanto ao Brasil e outras grandes economias emergentes, saudadas há alguns anos como futuras locomotivas globais, não só perderam o seu ímpeto, como também se tornaram altamente vulneráveis a choques comerciais e financeiros. A causa do seu enfraquecimento é que, após crises recorrentes com graves consequências para as sociedades nos anos 1990 e no início dos anos 2000, se integraram ainda mais ao que hoje é amplamente reconhecido como um sistema financeiro internacional inerentemente instável.

A liberalização generalizada dos fluxos de capitais internacionais e a maior abertura às instituições financeiras estrangeiras naquelas economias, ao lado do crescente otimismo em relação às perspectivas de crescimento de várias delas, desempenharam um papel importante na atração de investidores e credores estrangeiros. Esse processo foi ajudado, em grande medida, por condições financeiras globais altamente favoráveis, ​​resultantes das mesmas bolhas de crédito e consumo que culminaram em crises nos Estados Unidos e na Europa e por políticas monetárias de compra intensiva de títulos públicos e abastecimento do mercado com dinheiro abundante após 2008.

O criticado aumento dos investimentos da Petrobras, em vez de exceção, foi uma norma no setor (Foto: Stéferson Faria/Ag. Petrobras)

O quadro descrito resultou, segundo o estudo, num aumento significativo da presença dos investidores e credores estrangeiros nos mercados financeiros internos das economias emergentes e daquelas em desenvolvimento, bem como da participação de seus residentes nos mercados financeiros internacionais, tornando-os altamente vulneráveis ​​aos ciclos globais de crescimento e recessão gerados por mudanças nas políticas dos maiores centros financeiros, principalmente os Estados Unidos.

Os aumentos nos preços das matérias-primas e os fluxos de capital nos anos 2000 não foram sempre geridos com prudência pelos países dependentes de commodities, criticam os analistas. Antes da crise, a política fiscal era geralmente pró-cíclica, isto é, acentuava os problemas da economia.

O espaço fiscal, de atuação do Estado, utilizado durante a crise como resultado de políticas anticíclicas, portanto opostas àquelas, não foi, entretanto, reconstruído. Poucos conseguiram aumentar sua participação nas receitas da bonança de commodities ao renegociar com êxito os royalties com empresas transnacionais e, na maioria dos casos, os benefícios foram colhidos principalmente por essas companhias.

Não é um consolo, mas a crise verde-amarela tem muito mais a ver com um processo geral do que gostariam de admitir vários críticos. Brasil, Angola, Chile, Colômbia, Indonésia, Nigéria, Rússia, África do Sul, Venezuela e Zâmbia tiveram valorização real significativa das taxas de câmbio. Para piorar, uma parte importante das reservas acumuladas veio de entradas de capital e não de superávits em conta corrente. Países dependentes de commodities, como Brasil e Rússia, permitiram um acréscimo significativo da dívida externa das empresas contraída em dólares. A situação das contas correntes de Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Venezuela, Congo, Gana, Tanzânia, Rússia e Indonésia piorou, mesmo com o boom nos preços das matérias-primas.

“Apesar de toda a retórica sobre a industrialização, a história de crescimento no Sul, com algumas notáveis ​​exceções, continua a ser uma história de commodities”, criticam os autores da pesquisa. Isso é ainda mais verdadeiro agora do que há 10 ou 20 anos, por causa da desindustrialização, iniciada na década de 1990.

A hipótese de que tanto os emergentes quanto aqueles em desenvolvimento teriam se “descolado” dos avançados, defendida pelo FMI, não se verificou.  A rápida aceleração do crescimento dos primeiros e o desempenho relativamente fraco dos últimos antes de 2008 foram amplamente interpretados como maior independência do Sul em relação ao Norte. Seguiu-se uma combinação de recuperação rápida do primeiro grupo com estagnação e crescimento vacilante dos industrializados, que não só reavivou a hipótese de desacoplamento como também criou uma expectativa generalizada de que grandes países do primeiro grupo, com destaque para a China e, em menor escala, a Índia e o Brasil, desempenhariam um papel fundamental para tirar a economia mundial da recessão.

“O FMI foi um grande defensor da tese de dissociação. No entanto, à medida que as economias emergentes e as em desenvolvimento arrefeceram e as previsões continuaram a desapontar, em 2013 o Fundo abandonou a sua visão de que aquele grupo foi o motor do dinamismo mundial e mostrou uma série humilhante de reviravoltas na sua avaliação econômica global”, condenam os especialistas do South Centre.

Apesar de toda a retórica sobre a importância da industrialização, a história de crescimento no Hemisfério Sul continua a ser, com notáveis exceções, uma história de commodities e isso é ainda mais verdadeiro agora do que há 20 anos, por causa da desindustrialização (Foto: Robson Fernandjes/Estadão Conteúdo)
Entre as menções ao Brasil destaca-se, no estudo do South Centre, uma análise do endividamento das companhias petrolíferas. “Os altos preços das commodities tendem a reduzir as taxas de risco e encorajar a tomada de empréstimos para investimentos no setor. Por exemplo, estima-se, que, em 2015, a dívida total do setor de petróleo e gás em todo o mundo situou-se perto de 2,5 trilhões de dólares, duas vezes e meia o que era no fim de 2006. Uma parte substancial do aumento do endividamento foi feita por grandes empresas de petróleo estatais integradas de economias emergentes e em desenvolvimento. Entre 2006 e 2014, o estoque de empréstimos totais – incluindo as chamadas operações sindicalizadas e títulos de dívida – das empresas russas cresceu a uma taxa anual de 13%. O valor foi de 25% para a Petrobras e de 31% para as petroleiras estatais chinesas.”

Parte das duras críticas ao suposto excesso de endividamento da empresa pública brasileira decorre, é possível concluir, de desconhecimento ou desprezo do fato de que o aumento do endividamento da brasileira foi parte de um fenômeno global no setor.

Os bancos, veículos e impulsionadores da crise, saíram-se muito bem. Em vez de impedirem as execuções das hipotecas de cerca de 9 milhões de casas nos Estados Unidos, deram prioridade aos resgates dos credores. “As operações de resgate e a política monetária frouxa impediram um colapso bancário e permitiram que os bancos recuperassem a rentabilidade anterior à crise e, em seguida, alcançassem lucros recordes. Já em 2013, os quatro maiores bancos dos EUA eram 30% maiores do que antes do colapso e aqueles demasiado grandes para falir eram ainda maiores. Continuaram a registrar lucros ainda mais elevados nos últimos três anos”, chama a atenção o South Center.

As políticas propostas pela nova administração nos Estados Unidos tendem a representar um duplo golpe para as economias emergentes e em desenvolvimento que se tornaram altamente dependentes de mercados externos, capital e corporações transnacionais, advertem os autores do estudo. A União Europeia, dizem, “continua a ser um peso morto global, gerando impulsos deflacionários para o resto do mundo. Não se sabe ainda se a segunda maior potência econômica, a China, será capaz de evitar turbulência financeira e colapso do crescimento. Essa situação levanta sérios desafios políticos ao Hemisfério Sul para responder a choques externos e redefinir o ritmo e o padrão da sua integração, de modo a aproveitar as oportunidades que um espaço econômico mais amplo pode oferecer e minimizar os riscos potenciais que isso representa”.