Número 952,

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Pio XI e Mussolini, unidos pelo poder

por Eduardo Nunomura — publicado 07/06/2017 00h14, última modificação 06/06/2017 11h38
Biografia premiada com o Pulitzer revela como o papa e o ditador firmaram um pacto que favoreceu o fascismo e o nazismo
Pio XI e Mussolini

Com fotos proibidas, encontro dos dois só existe na ilustração

Pio XI foi eleito papa em 6 de fevereiro de 1922. Oito meses depois, Benito Mussolini tornava-se primeiro-ministro da Itália. Pelos 17 anos seguintes, os dois só se encontrariam uma única vez, na biblioteca do papa, no ano de 1932. Na ocasião, Il Duce, título criado pelo próprio ditador italiano, não se curvou nem beijou a mão do pontífice. Não houve registro fotográfico dessa reunião.

A escassez de imagens conjuntas, contudo, oculta uma intensa troca de correspondências e comunicados entre emissários dos dois lados. Um precisou do outro para exercer o poder e, enquanto foi conveniente, ambos se beneficiaram dessa relação. A biografia O Papa e Mussolini, que acaba de ser lançada no Brasil pela Editora Intrínseca, apresenta um retrato bastante diverso do que até hoje a narrativa católica procurava vender ao mundo.

O historiador e antropólogo David I. Kertzer, especialista em estudos italianos na Universidade Brown, nos Estados Unidos, é o autor dessa reveladora biografia vencedora do Prêmio Pulitzer em 2015. A partir da investigação minuciosa sobre arquivos secretos, liberados parcialmente em 2002 por João Paulo II e depois, integralmente, em 2006, por Bento XVI, Kertzer mostra que “a Santa Sé desempenhou papel central no estabelecimento e na manutenção do regime fascista”.

Kertzer
O historiador antropólogo David Kertzer (Rene Perez)
Kertzer trabalhou durante sete anos sobre 25 mil páginas de documentos oficiais de diferentes arquivos, que iam dos departamentos de polícia aos órgãos do Estado fascista italiano, além de cartas diplomáticas a diários italianos, franceses, britânicos, americanos e alemães.

Mas foi só com a abertura, em 2006, dos arquivos secretos do Vaticano que a história completa pôde ser, enfim, contada. Embora aparentemente fossem figuras bastante diferentes entre si, Pio XI e Mussolini guardavam a mesma sede de poder e de controle, sentimento que os uniu historicamente.

O milanês Ambrogio Damiano Achille Ratti, após testemunhar ação do Exército Vermelho, tornou-se convicto anticomunista. 

Mussolini também se tornou anticomunista após a Primeira  Guerra Mundial. Mas, antes de fundar o movimento fascista, em 1919, chegou a ser um destacado socialista radical. Alcançou o poder político aos 39 anos pelo voto legítimo, num Parlamento livremente eleito.

Antes mesmo de Mussolini virar primeiro-ministro, Pio XI percebeu no líder fascista a possibilidade de ter um “homem forte” no comando da Itália e livre das disputas multipartidárias que paralisavam o país.

O papa empenhou-se junto aos fiéis pelo triunfo de Mussolini na eleição de março daquele ano, quando o fascista conquistou 98,3% dos votos. Mas não sem contrapartidas: o pontífice indicava para o Parlamento “fascistas de sólida fé católica” ao mesmo tempo que exigia que judeus e maçons fossem expurgados. 

Essa relação era movida pelos interesses de cada um. Pio XI queria ressuscitar um Estado católico, enquanto o Duce via na influência da Igreja uma forma de consolidar seu poder. “Tanto o papa quanto o ditador italiano se beneficiaram grandemente da decisão de estabelecerem uma aliança.

A longo prazo, é claro, essa aliança não salvou Mussolini de seu sórdido destino”, afirma Kertzer a CartaCapital. “Nesse sentido, o papa e a Igreja provaram ser os beneficiários finais. Graças ao seu acordo para lançar o apoio da Igreja por trás de Mussolini, a Cidade do Vaticano foi estabelecida como um Estado soberano e houve a separação entre a Igreja e o Estado.”

David I. Kretzer. Íntrinseca, 592 páginas, 69,90 reaisMas o exercício de poder, ressalta a biografia, faria com que os atritos surgissem rapidamente. Foi o que aconteceu já no ano de 1931, quando o líder fascista mandou fechar todos os grupos de juventude da Ação Católica, um dos principais instrumentos de Pio XI para recristianizar a sociedade italiana.

De forma surpreendente, os arquivos secretos do Vaticano revelam agora, de forma cristalina, que Pio XI chegou a apoiar brevemente Hitler, logo depois que este virou chanceler da Alemanha, em janeiro de 1933, e passou a aproximar-se de Mussolini.

O papa não economizou elogios a Hitler em sua luta contra o comunismo: “É a primeira vez que uma voz de governo se ergue para denunciar o bolchevismo em termos tão categóricos”. Ele contrariava, assim, até os bispos alemães que tinham sido unânimes ao denunciar os nazistas. Mas os planos do Terceiro Reich na luta antissemita fizeram com que Pio XI e até Mussolini recuassem no apoio ao Führer

No começo de 1937, perto de morrer, Pio XI revelou arrependimento por ter apoiado Hitler, publicando uma encíclica crítica ao nazismo (sem mencionar esse nome). No documento, ele repreendia aqueles que idolatravam raça e nação.

Para Kertzer, a Itália vive ainda hoje uma “amnésia histórica” que compra a narrativa de uma Igreja que se opôs ao fascismo e desconhece o apoio crucial do Vaticano a Mussolini.  O historiador afirma que os últimos dias de Pio XI foram penosos. Como uma de suas últimas ações, o papa escreveu uma fala de domingo aos bispos em que abordava os ataques do Duce à Ação Católica, a perseguição da Igreja na Alemanha e a “ferida infligida à concordata pela proibição de casamentos entre arianos e não arianos”. O discurso teve cópias destruídas.

Esse texto só pôde ser visto na íntegra com a abertura dos arquivos secretos do Vaticano, em 2006. Não por acidente, Eugenio Pacelli, o menos cotado no universo católico, foi eleito papa Pio XII em 2 de março de 1939. O jornalista John Cornwell chamou o sucessor de “o papa de Hitler” (em livro publicado em 2000 pela Editora Imago).

Os documentos do sucessor Pio XII continuam secretos no Vaticano para, quem sabe, um dia serem revelados. “A relação do Vaticano com o regime fascista italiano nos anos de guerra continua a ser controversa e a abertura desses arquivos deve lançar uma nova luz importante sobre essa história”, finaliza Kertzer. 

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