Número 952,

Política

Entrevista

Pepe Mujica: "Temos de cuidar melhor da nossa classe média"

por Rodrigo Martins e Sérgio Lirio — publicado 18/05/2017 00h10, última modificação 17/05/2017 15h38
Com Macri e Temer, o continente abre mão de uma integração regional capaz de garantir soberania a todos, alerta o ex-presidente uruguaio
Wanezza Soares
Mujica

Estagnadas, as classes médias de países centrais flertam com o discurso nacionalista de viés conservador, lamenta Mujica

No início dos anos 2000, os governos progressistas da América Latina deram consistentes passos para a integração econômica do continente, que poderia despontar como um dos mais competitivos do mundo, favorecido, inclusive, pelos fartos recursos naturais disponíveis. Com a eleição de Mauricio Macri na Argentina e a ascensão de Michel Temer no Brasil, após a destituição de Dilma Rousseff, o sonho ruiu.

A dupla esmera-se em seguir cegamente os dogmas dos financistas, abdicando de formar nos trópicos um poderoso mercado consumidor. A análise foi apresentada por José Mujica, ex-presidente do Uruguai e ícone da esquerda latino-americana, durante palestra na sexta-feira 5, a convite de CartaCapital e da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo

Antes de se dirigir ao auditório apinhado de estudantes, Pepe Mujica, como é conhecido, questionou a excludente “teologia” do mercado e reafirmou a necessidade de fortalecer a economia regional, sem, no entanto, incorrer na disputa suicida por investimentos estrangeiros. “Temos de dar maior importância à capitalização interna, cuidar melhor da nossa classe média”, disse.

“Não se trata de cair em um protecionismo extremo, fechar-se ao mundo. Não faz sentido manter, porém, essa corrida entre os governos da América Latina para ver quem oferece melhores condições às multinacionais, para que se instalem, porque é uma guerra entre nós mesmos, com o único resultado de beneficiá-los”. 

CartaCapital: Nos Estados Unidos e na América Latina, há uma onda de conservadorismo em curso. Como o senhor interpreta esse fenômeno?

José Mujica: Problemas muito complexos não têm uma única causa. No fundo, a história humana é marcada pela velha luta entre os que defendem maior equidade, direitos humanos e bem-estar para todos, de um lado, e aqueles que privilegiam seus próprios interesses, de outro. O homem moderno acredita que isso é coisa de esquerda ou direita, um conceito inventado pela Revolução Francesa.

Toda a história humana é caracterizada, porém, por esse vaivém entre o conservadorismo e o desejo de mudança. Nossa época vive um avanço globalizador, a serviço das multinacionais, o capital financeiro mais a revolução tecnológica. Por seu caráter cruamente capitalista, esse processo tende a concentrar a riqueza de forma excessiva. As classes médias dos países centrais sentem-se estagnadas. Reagem politicamente, mas reagem com ingenuidade.  

CC: Como as classes médias costumam reagir?

JM: O operário de Detroit pensa que fica sem trabalho por causa do operário mexicano. O pequeno empresário nos EUA costuma atribuir a culpa da crise aos produtos que vêm da China. Sempre resta o discurso nacionalista de viés conservador. É uma expressão de interesses impotentes e congelados. Há massas de classe média que se sentem estagnadas. São as que tiraram a Inglaterra da Comunidade Econômica Europeia, criando contradições dentro da própria direita. É porque a globalização é feita pelo capitalismo, a parte mais cruel do capitalismo.

CC: Qual foi o erro dos movimentos progressistas? 

JM: Em uma conjuntura de mundo particularmente especial, tivemos um importante avanço da economia e isso permitiu mitigar dívidas sociais. Em grande medida, esse avanço foi propiciado pelo investimento direto estrangeiro, que depois precisa ser pago, exige o envio de dividendos para fora.

Quando esse modelo se esgota, é preciso oferecer melhores condições para que o investimento estrangeiro volte. É um fenômeno que se retroalimenta e continua crescendo. Ao cabo, nos transformamos em portadores de capital que temos de pagar depois com juros, gerando um enorme fluxo de capitais que saem das nossas economias para o exterior. 

CC: Como escapar dessa armadilha?

JM: Infelizmente, não conseguimos alavancar o desenvolvimento com uma poupança interna. Dependemos demais do investimento estrangeiro. Temos de dar maior importância à capitalização interna, cuidar melhor da nossa classe média. Não se trata de cair em um protecionismo extremo, fechar-se ao mundo.

Não faz sentido manter, porém, essa disputa entre os governos da América Latina para ver quem oferece melhores condições às multinacionais para que se instalem, porque é uma guerra entre nós mesmos, com o único resultado de beneficiá-los.

Tome o exemplo do meu pequeno país. Em 2002 ou 2003, o Uruguai enviava, aproximadamente, 300 milhões de dólares em amortizações do crédito estrangeiro. Agora remete mais de 2 bilhões por ano. Em todos os países latino-americanos acontece isso. No Brasil deve ser algo gigantesco. 

CC: Como o senhor avalia a situação do Brasil neste momento?

JM: Somos espectadores interessados no destino do Brasil. Temos certeza de que a atual política não vai melhorar os problemas do País. Ao contrário, deve agravar um problema histórico, que é a enorme desigualdade social. O Brasil é muito rico, mas muito injusto, um dos países mais injustos da Terra. A má distribuição da renda freia o desenvolvimento do Brasil e o da América Latina como um todo, porque vocês representam o maior mercado consumidor do continente. Nosso desenvolvimento está unido ao de vocês.

O problema é que o Brasil não tem conseguido resolver seus problemas, não é integrado internamente. Até porque não há um Brasil apenas, há vários. Estou no coração industrial de uma parte do País, mas esta é uma bomba de sucção que devora o outro Brasil, extremamente pobre, que precisa ser levado em conta. 

CC: E a situação do ex-presidente Lula? 

JM: Lula é um velho amigo. Na América Latina, sofremos uma ofensiva planejada e desestabilizadora, que se utiliza da judicialização da política como ferramenta. Os grandes meios de comunicação tratam de colocar em descrédito a política como um todo, mas em particular as correntes mais progressistas. Isso que acontece no Brasil se dá em todo o continente. É uma estratégia pensada dos sistemas empresariais, que buscam aumentar suas taxas de lucro e explorar a debilidade da burocracia.

Não conheço grupo humano imune a erros, mas não são os partidos que falham, e sim os homens. Não falham as causas, mas os homens falham e continuarão falhando ao longo da história. Se nos rendemos, não há progresso humano. A pior agressão que se pode fazer a um povo é lhe matar a esperança. 

CC: O senhor acredita que Lula representa essa esperança?

JM: Penso que representará. O Brasil terá de aprender com seus próprios erros, está claro, mas sem abandonar a causa da justiça social. Se os Estados não se preocupam em ter políticas sociais, que amortizem a falta de equidade manifesta da economia do mercado, uma multidão de cidadãos estará condenada. Se deixarmos somente o mercado ditar nossos destinos, ele vai acumular riqueza numa ponta e miséria na outra, desgraçadamente. Acredito que o ser humano é gregário. Não podemos viver em solidão. Não somos felinos. Necessitamos de grupos humanos para nos amparar, eis a razão do surgimento das civilizações.

Tem razão Aristóteles quando disse que o homem é um animal político, porque precisamos viver em sociedade e sempre haverá conflitos. A natureza nos faz semelhantes, nunca idênticos. Há disputas em nossas entranhas. O papel da política é minimizar os conflitos para que exista sociedade. O caçador pré-histórico movia-se pela espécie, não apenas por ele. Quando caçava, sabia que aquele cervo pertencia ao grupo humano que ele integrava. Não era dele. A civilização moderna não pensa na espécie, pensa no homem. Se não conseguirmos superar o egoísmo e o olhar de curto prazo, talvez a espécie esteja trabalhando para se eliminar. 

desigualdade
O Brasil é rico mas muito desigual, um dos países mais injustos da Terra (Foto: Fabio Costa/Fotoarena)

CC: No Brasil e na Argentina, a retirada de direitos dos trabalhadores e a redução dos gastos sociais têm sido vendidas como medidas inevitáveis, ações de “responsabilidade fiscal”. Como superar essa retórica?

JM: Essa retórica tem avançado forte no campo das ciências econômicas. Até Adam Smith, economia, ética e filosofia vinham no mesmo pacote.

Com o descobrimento da importância do mercado, a economia começa a separar-se das demais ciências. Quando o liberalismo prospera, a macroeconomia passa a impor barreiras e a enquadrar a política. Na prática, a política passa a ser vista como um brinquedo, um jogo de paixões humanas que precisa se movimentar dentro de determinadas regras macroeconômicas que jamais podem ser discutidas.

CC: Quase como uma manifestação de fé...

JM: Exato, é uma coisa teológica, mas que se reveste de ciência. E basta que o senhor Trump diga algum disparate para que as bolsas de valores subam e desçam 4 ou 5 pontos. Não existe nada tão teológico quanto a economia. Vou num banco e me dão um papel, com a promessa de me devolver aquilo que depositei. Às vezes, não me devolvem. Mas eu creio de boa-fé. A própria linguagem é bastante singular. O tempo todo fala-se em “sinais”, é como uma fé religiosa mesmo.