Número 952,

Política

Opinião

O triplex ruiu

por Mauricio Dias publicado 13/05/2017 00h01, última modificação 12/05/2017 09h12
Na quarta 10 de maio, o acusado engoliu o acusador ao demonstrar, qual fosse um teorema, que não há como culpá-lo sem provas
Depoimento

Implacável na ironia, o ex-presidente transformou o interrogatório em um espetáculo divertido

Foi um fiasco, com cinco horas de duração ou pouco mais, o resultado do interrogatório do ex-presidente Lula conduzido pelo juiz Sergio Moro. Apoiado em delações sem provas consistentes, o interrogador facilitou as respostas do interrogado, acusado de ser proprietário do célebre triplex, supostamente doado por uma empreiteira. Moro percebeu que, sem sustentação, a casa cairia. 

A voz melosa do magistrado tentou, então, envolver Lula em outras questões, com perguntas tiradas, por exemplo, da delação de Renato Duque sobre contas do ex-diretor da Petrobras no exterior. Ele negou na ocasião. Agora admite.

Havia quase 7 mil manifestantes nas imediações do Tribunal de Justiça. O número deles foi calculado a partir de dezenas de ônibus vindos de várias partes do Brasil para apoiar Lula. Para o que desse e viesse. Faziam barulho. Não vazava para a sala de audiência. Moro sabia que eles estavam por lá quando disse a Lula: “Houve boatos de que poderia ser decretada sua prisão durante este ato. Eu lhe asseguro de pronto que isso não vai acontecer”.

O boato sempre esteve na mídia. Moro nunca desmentiu o que leu, nas várias vezes em que falou publicamente sobre a Lava Jato. Não se sabe se sorria nestes momentos. 

O metalúrgico, no limite da serenidade, respondeu a Moro: “Considero o processo ilegítimo e a denúncia uma farsa”. Lula foi sempre enfático nas observações e irônico em algumas respostas ao juiz. Alguns exemplos:

Lula: “O Dallagnol não tá aqui. Eu queria o Dallagnol aqui pra me explicar aquele PowerPoint”, falou olhando para os procuradores da Lava Jato.

Moro: “Tem um documento aqui que fala do triplex”.

Lula: “Está assinado por quem?”

Moro: “A assinatura tá em branco...”

Lula: “Então, o senhor pode guardar, por gentileza”.

Moro: “Esse documento em que a perícia da PF constatou ter sido feita uma rasura. O senhor sabe quem rasurou?”

Lula: “A PF não descobriu quem foi? Não? Então, quando descobrir, o senhor me fala. Eu também quero saber”.

Moro: “Saíram denúncias na Folha de S.Paulo e no jornal O Globo de que...”

Lula: “Doutor não me julgue por notícias, mas por provas”.

Moro: “Senhor ex-presidente, você não sabia que Renato Duque (ex-diretor da empresa, hoje preso) roubava a Petrobras?”

Lula: “Doutor, o filho, quando tira nota vermelha, ele não chega em casa e fala: ‘Pai, tirei nota vermelha’.

Moro: “Os meus filhos falam”.

Lula: “Doutor Moro, o Renato Duque não é seu filho”.

No dia seguinte ao depoimento, houve diversas avaliações da audiência. Alguns tentaram jogar nas costas de Lula a responsabilidade pela politização da Lava Jato. Mentira. Quem estimulou isso foram os procuradores, os policiais federais e certos juízes que ainda militam descaradamente contra Lula, Dilma e o PT.

Além disso, a partidarização da Lava Jato é claramente simpática ao PSDB. Sem disfarce. Há muitos tucanos citados nas delações, mas não há um só tucano na gaiola.