Número 951,

Cultura

Livro

Brevidades de Dostoiévski

por Jotabê Medeiros — publicado 17/05/2017 01h00, última modificação 16/05/2017 18h40
Contos Reunidos mostra a maestria do escritor de Crime e Castigo em narrativas curtas, um verdadeiro laboratório de obras-primas

Quando tinha 25 anos, Dostoiévski publicou “Como É Perigoso Entregar-Se a Sonhos de Vaidade”. Esse texto, com tradução de Irineu Franco Perpetuo, é a vedete do volume lançado agora pela Editora 34, Contos Reunidos, que engloba o conjunto dos 28 contos publicados pelo autor. O exercício consiste em notar que o arcabouço da obra já está representado nessa primeira história breve: o questionamento das forças de ascensão e submissão social, o profundo exame da consciência moral do indivíduo, o sarcasmo, o retrato da decadência da burguesia russa, o ideal de liberdade filosófico.

Dostoiévski invariavelmente partia de uma notícia cotidiana colhida em jornais para construir sua teia. Da superfície estavam as consciências, que ele perscrutava com habilidade de médico-legista. “O sonho é extravagante e de uma crueldade estranha”, escreve. Em “Como É Perigoso Entregar-Se a Sonhos de Vaidade”, a ação de um ladrão durante o sono de um bem-sucedido funcionário público desencadeia a ruína desse último não pela perda de bens, mas pela desmontagem psicológica. Há nessa injunção a sentença favorita do autor: todas as máscaras de prestígio social se assentam sobre castelos de areia. Essa conclusão acompanha os contos “A Mulher de Outro e o Marido Debaixo da Cama” (1848) e “O Ladrão Honrado” (1860).

Os contos, como assinala Fátima Bianchi no ensaio que precede a leitura, mostram como Dostoiévski capturou as mudanças humanas, de comportamento, numa Rússia que atravessava momento crítico, com a derrocada do estilo de vida burguês, a desagregação familiar, a pauperização do povo e o caos administrativo. 

Há também a questão da política. Dostoiévski posta-se como um observador privilegiado, e invisível, da oposição entre patrão e empregado. Ambos se subestimam, e a construção das narrativas implica um exame cru e imparcial das vicissitudes, sem indulgência para com o senhor nem para com o serviçal. O humanismo de Dostoiévski sempre o coloca do lado dos explorados, mesmo do gatuno amoral que foge pelas ruas de Moscou. E há um senso de humor e picardia que não tem intenção de envelhecer.

O estilo mostra como o escritor fazia dos contos o laboratório de inseminação dos romances, alguns dos maiores da história da literatura, como Crime e Castigo (1866) e Os irmãos Karamázov (1880). O cantor Belchior cita o mestre em Onde Jaz Meu Coração, nos “humilhados e ofendidos” do Nordeste. O retrato de uma sociedade pode encaixar-se em outra – o fundamento é sempre o mesmo, o homem.