Número 951,

Cultura

Memória

A revolução permanente de Belchior

por Jotabê Medeiros — publicado 06/05/2017 00h45, última modificação 05/05/2017 17h36
Mais de 10 mil fãs despedem-se do compositor cearense, que viveu desaparecido desde 2008
AG. O Globo
Belchior

O autor de Como Nossos Pais foi sepultado vestido de camisa jeans desbotada

As 9h50 da terça-feira 2 de maio, no Parque da Paz, o caixão com o corpo de Belchior baixou à sepultura. Ele vestia camisa jeans desbotada e tinha o cabelo muito preto, penteado para trás com gomalina. Centenas de fãs, dos milhares que já o tinham visitado durante a noite (mesmo depois que desabou uma chuvarada na madrugada), acompanharam sua descida do caminhão dos bombeiros, aplaudiam e não faziam menção de largá-lo. No cemitério, seguiam cantando suas músicas em dois grupos nem sempre afinados, mas muito emocionados e felizes em revê-lo, nem que fosse por um instante, após dez anos e quatro meses que o ídolo não aparecia no Ceará, sua terra natal.

Três dias após ser encontrado morto na casa em que se hospedava em Santa Cruz do Sul (RS), a 4.128 quilômetros de Fortaleza, o cantor e compositor Belchior reencontrava-se com família, fãs, amigos, discípulos e adoradores de todos os quadrantes. Nas 24 horas em que o corpo ficou à disposição dos fãs, a vigília incessante lembrava a que Michael Jackson suscitou no Staples Center de Los Angeles, em julho de 2009. A diferença era a resiliência e a alegria emocionada. 

Fernanda Bueno passou a madrugada no velório desenhando em um sketchbook todos os acontecimentos e envolvendo os desenhos com frases das letras do cantor. O almoxarife e violonista Aristênio Benício tocou violão durante cinco horas seguidas, repassando mais de 50 canções. Aos 77 anos, Shirley Vasconcelos, a primeira da fila, ficou das 7 às 15 horas. Brincava com os seguranças, dizendo que amparava a coluna para o centro cultural onde ocorria o velório não desabar. “Artista não quer viver em cidade pequena”, dizia ela, explicando a fuga do ídolo de “voz aconchegante”.

A morte do dono da “voz aconchegante” exumou as alegrias, os rancores, o debate estético em torno da importância do artista e até algumas querelas antigas, como a que teve com Caetano Veloso no início da carreira, um embate em versos. “Veloso, o sol não é tão bonito para quem vem do Norte e vai viver na rua”, escreveu Belchior, em 1976. “Nada é divino, nada é maravilhoso”, cantou o cearense de Sobral, implicando com algum sintoma de alienação social do Tropicalismo.

Em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo na segunda-feira 1º de maio, o baiano de Santo Amaro, Caetano, fez-lhe uma oportuna reverência, 41 anos depois, mas não perdeu a chance de responder. Afirmou que Belchior, após conseguir algum êxito, dobrou-se aos prazeres burgueses e passou a usar ternos finos, fumar charutos e falar na cultura da parisiense Rive Gauche.

O funeral de Belchior mobilizou mais de 10 mil pessoas em Fortaleza, e a comoção que causou o coloca em pé de igualdade com outros mitos da MPB que foram canonizados pelos fãs, como o baiano Raul Seixas ou o paulista Antonio Marcos. “Acredito mesmo que a filosofia popular de Belchior ganhe ainda mais corpo do que a de Raulzito na memória dos fãs, porque ele tem um imenso repertório”, disse Paulo Linhares, diretor do Centro Cultural Dragão do Mar – o local que a família escolheu para o velório, embora tenham sido oferecidos palácios e catedrais históricas da cidade.

Na cerimônia de despedida, as canções de ressonância geracional de Belchior eram as mais cantadas pelos artistas de rua, em especial Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, alegorias de revolução permanente. Mas era possível sentir que a cearensidade, a nordestinidade, como Belchior chamava o apelo regional, eram as melodias que faziam mais eco. Não por acaso, a seção cearense da OAB pediu, na quarta, o tombamento da obra de Belchior como patrimônio imaterial do estado.

Enterro Belchior
Na parede do Centro Cultural Dragão do Mar, Belchior assiste à passagem do corpo de Belchior (Foto: JB Medeiros)

Irmã do primeiro casamento do pai de Belchior, Otávio, a freira Clementina, da Congregação Irmãs de Sant’Ana, viu-se repentinamente no meio de um turbilhão de mídia, aos 86 anos. “Ele deixou a alegria. Não queria fama e dinheiro, queria ser feliz”, afirmou ela. Em seguida, saiu cantarolando eu sou apenas um rapaz latino-americano na frente da repórter de tevê que lhe pedia entrevista. A vocação religiosa quase tirou Belchior também do show biz: ele estudou por três anos no mosteiro dos capuchinhos de Guaramiranga, mas desistiu antes de se ordenar frade.

Tirando o amigo, compositor e arquiteto cearense Fausto Nilo (autor de sucessos de rádio como Chão da Praça, Bloco do Prazer e Pedras Que Cantam), os famosos da MPB não apareceram para se despedir. Alguns não eram mesmo aguardados, como o conterrâneo Fagner, com quem Belchior alimentou uma das rivalidades mais encardidas da música brasileira.

Mas a história do cantor cearense ganhou contornos definitivos com os rituais montados pelos amigos mais antigos e próximos, como o médico Mariano Freitas, ex-colega de Faculdade de Medicina, com quem Belchior formou uma chapa para disputar eleição para o DCE em 1968. Os adversários eram José Genoino (que se tornaria deputado pelo PT) e o amigo Fausto Nilo.

Belchior não enveredou pelos caminhos da política convencional, como sabemos. Teve canções censuradas pela ditadura, como Pequeno Mapa do Tempo, mas  manteve-se à margem do confronto político explícito, embora cortejasse o anarquismo. Sua irmã, a socióloga Angela Belchior, interpelou Ciro Gomes (o único político de expressão nacional presente, além do governador Camilo Santana), em lágrimas perto do corpo do amigo. “Você tem a obrigação de realizar o sonho dele”, disse ao pré-candidato à Presidência, sem, contudo, esclarecer qual era o sonho – mas, evidentemente, a música de Belchior sempre tratou de igualdade e justiça.

Edna Prometheu, a viúva de Belchior, que o acompanhou na peregrinação dos últimos anos para longe da vida pública, a partir de 2008, chegou tão transtornada em Fortaleza que até foi barrada no velório. Foi encaminhada pelos seguranças para uma fila de 5 mil pessoas, mas depois salva por uma jornalista que a reconheceu. Francisco Belchior, irmão três anos mais novo, relembrava de forma incansável as histórias da família e os detalhes de seus relacionamentos.

Contou que a última vez que falara com Belchior tinha sido quatro anos atrás. Francisco comunicou então a morte da mãe, Dolores, falecida havia quatro meses. “Mas por que vocês não me avisaram?”, ralhou Belchior. “Teríamos te avisado, mas você não deixou nem um número de telefone”, rebateu Francisco.