Número 950,

Cultura

Literatura

Ocupai, Conceição Evaristo

por Pedro Alexandre Sanches — publicado 08/05/2017 01h00, última modificação 05/05/2017 13h44
A vida e a obra da escritora negra de 70 anos são festejadas no epicentro econômico do Brasil
Conceição Evaristo

Conceição Evaristo foi empregada doméstica e professora antes de se revelar como romancista

Trabalhadores sem-teto e sem-terra classificam como ocupação o ato de reivindicar terrenos rurais e propriedades urbanas que julgam lhes pertencer por direito, embora a institucionalidade e grande parte da sociedade não lhes reconheçam tal direito. Para o poder econômico, são invasores.

O projeto de ocupações artísticas do Itaú Cultural, no epicentro nervoso do poder econômico  (Avenida Paulista, 149), adquire significado adicional quando a ocupante, se não invasora, passa a ser a escritora negra Conceição Evaristo. “O termo é ocupação mesmo”, diz a pensadora mineira radicada no Rio de Janeiro desde os anos 1970.

“É ocupar por direito vazios de nossa ausência, que nos pertencem. Os africanos e seus descendentes estão presentes em todos os momentos do Brasil, como força de trabalho. Todos os espaços da sociedade nos pertencem também, como pertencem a todas as categorias subalternizadas”, reflete a autora que ganhou visibilidade só na maturidade (o primeiro romance, Ponciá Vicêncio, veio à luz em 2003, quando ela tinha 56 anos).

Mineira
Mineira, Conceição nasceu em uma favela em Belo Horizonte
Sua chegada à trincheira cultural de um dos bancos mais poderosos do País coincide com um episódio desastroso ocorrido na Academia Carioca de Letras, quando o professor de literatura Ivan Cavalcanti Proença afirmou que a obra da escritora (então homenageada) Carolina Maria de Jesus, uma antecessora e influenciadora de Conceição, não seria literatura.

A discípula vale-se de autoridade própria para discorrer sobre a mestra: “Carolina está escrevendo na mesma época que Jorge Amado e Clarice Lispector. A obra mais lida dela é Quarto de Despejo, que se imagina ser só sobre a fome física ou a miséria material. Mas quem lê com calma vê que aquela mulher, tanto quanto Clarice Lispector, está lidando com uma angústia pessoal, humana. Como a sociedade nos desumaniza, não pensa que as mulheres negras sofrem, padecem da solidão como qualquer outro ser humano”.

Conceição evoca também os nomes de Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara e Jovelina Pérola Negra, descobertas tardiamente. “Para as mulheres negras, conquistar um lugar ao sol, como se diz, é muito mais tardio. E na literatura, que é mais elitista e marcada por autores homens e brancos, as mulheres negras chegam como autoras visibilizadas muito mais tarde ainda.” Invadido, ou melhor, ocupado com ternura pela jovem escritora de 70 anos, o Itaú paga, a partir deste 3 de maio, parte infinitesimal de uma colossal dívida histórica com os Brasis.

registrado em: Literatura, Jorge Amado, Negros