Número 950,

Internacional

Europa

França: Macron. E depois?

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 06/05/2017 00h46, última modificação 05/05/2017 09h25
A vitória de Macron no segundo turno pode ser dada como certa. Mas pode vir a ser uma vitória de Pirro
Eric Feferberg/AFP
Macron

Macron deve levar o segundo turno sem sustos, em nome das bandeiras da França e da União Europeia

Desta vez, os institutos de pesquisa puderam suspirar de alívio. O resultado do primeiro turno da eleição presidencial francesa foi quase exatamente o previsto. Para a decepção dos seguidores de Marine Le Pen, seu desempenho esteve um pouco inferior à média das pesquisas, apesar de muitos deles acreditarem que estas estavam enviesadas contra sua candidata ou esperarem um salto pela morte de dois policiais nos Champs-Elysées em atentado reivindicado pelo Estado Islâmico.

Também não impressionou os eleitores o boato de meses sobre a homossexualidade de Macron, nem o mais recente, segundo o qual seria amante da própria nora.

Isso permite apostar com tranquilidade na vitória de Emmanuel Macron no segundo turno, em 7 de maio. Os eleitores mostraram ser capazes de manter a cabeça fria ante eventuais ataques terroristas e a diferença nas intenções de voto entre ele e a concorrente é da ordem de 20%, grande demais para ser revertida em duas semanas de campanha.

Macron recebeu apoio das principais forças políticas derrotadas, com a possível exceção da “França Insubmissa” de Jean-Luc Mélenchon, que optou por consultar os 450 mil militantes sobre se deve indicar voto em Macron, voto em branco ou liberar seus eleitores. O único endosso imaginável a Le Pen é o do conservador “gaullista” Nicolas Dupont-Aignan, que recebeu 4,7% dos votos. Pode-se descartar uma surpresa das dimensões do Brexit ou de Donald Trump.

Mesmo assim, Le Pen partiu para um esforço de última hora. Na campanha do primeiro turno, inspirada pelos sucessos inesperados da direita nacionalista anglo-saxônica, radicalizou o discurso a ponto de exaltar o passado colonialista e negar a responsabilidade da França na captura de judeus durante o nazismo, postura provavelmente responsável por seu declínio na reta final: de 27% a 28% em meados de março, caiu para 21,3% na apuração final. Mélenchon subiu no mesmo período, o que sugere que os excessos fizeram parte dos seus eleitores recorrerem à esquerda “radical” como voto de protesto.

Agora ela parece querer amenizar sua imagem e recuperar esses eleitores perdidos, pois se afastou temporariamente da liderança da Frente Nacional para tomar ares suprapartidários, invocar a lembrança de Charles de Gaulle, propor uma “aliança de patriotas” e até denunciar a “uberização” – expressão popularizada por Mélenchon – do mercado de trabalho.

O pai abertamente neofascista, Jean-Marie Le Pen, previsivelmente discorda: “Em seu lugar eu teria feito uma campanha ‘à la Trump’, ou seja, muito mais agressiva contra os responsáveis pela decadência do país”, disse à tevê.

De qualquer modo, é muito pouco tempo para tentar reconstruir discurso e imagem, seja mais, seja menos à direita. Para ela, trata-se de reduzir a diferença ante Macron e pôr seu partido, hoje com apenas um deputado e dois senadores, em melhores condições de disputar as eleições legislativas de junho e fazer uma oposição mais ruidosa. Mesmo sem vencer desta vez, a ultradireita avançou muito desde 2012 e, se nada mudar, pode rir por último em 2022.

Embora tenha recebido meros 12% na Île-de-France (Grande Paris e vizinhanças), foi a mais votada em várias regiões do país, principalmente as zonas industriais decadentes do extremo norte e as zonas com maior presença de imigrantes, comunidades de origem árabe e descendentes de colonos retornados da Argélia (os chamados pieds-noirs, frequentemente reacionários, ultranacionalistas e antiárabes) do extremo sul. 

Le Pen
São grandes os riscos de que um governo ineficaz abra o caminho a Le Pen em 2022
A questão relevante não é, portanto, qual será o resultado do segundo turno, mas se Macron terá condições de liderar um governo funcional ou deixará um desastre capaz de eleger a rival. A Constituição da Quinta República, concebida por De Gaulle para superar os impasses parlamentares da Quarta sem romper totalmente com o parlamentarismo, prevê um presidente com poderes amplos, mas dependente de uma maioria parlamentar.

Se Le Pen conta hoje com três representantes em um Parlamento de 348 senadores e 577 deputados, Macron não tem nenhum. Embora tenha prometido lançar candidatos de seu partido “Em Marcha!” (nome escolhido para ter iniciais iguais às suas) em todos os 577 distritos, é improvável que vença em muitos deles. Seu apelo é personalista e difícil de transmitir.

Isso pode deixar o presidente nas mãos de alianças precárias, ou reduzi-lo a um papel praticamente cerimonial, como o de seu obscuro colega alemão. É preocupante, pois o próximo quinquênio exigirá decisões importantes e estratégias claras ante o Brexit, a crise europeia e os abalos da ordem internacional que se podem esperar do governo Trump.

Se os impasses persistirem, a desagregação social e o apelo do nacionalismo continuarão a crescer. O Nobel de Economia Paul Krugman, ao comentar o resultado do primeiro turno pelo Twitter, lamentou sobre a União Europeia: “Tem o mau costume de, a cada vez que evita um perigo existencial por pouco, tomar isso como sinal de que nada precisa mudar”.

A votação de Macron no segundo turno deve ficar entre 60% e 64%, segundo as primeiras pesquisas após o primeiro turno, mas esse é o tamanho da rejeição ao neofascismo. Será perigoso tomá-la como endosso à ideia de que a União Europeia deve ficar como está e à França cabe apenas realizar reformas liberais para se adequar à “realidade”.

O apoio a essa tese é, no máximo, a soma dos votos em Fillon (20%), na versão “linha dura” e Macron (24%) em roupagem mais amena, mas igualmente comprometida com o sistema financeiro, do qual, como sócio e ex-executivo do Banco Rothschild, Macron é um representante.

Krugman
Outra vez, a Europa escapou por pouco. Para Krugman, o perigo é tomar isso como sinal de que não precisa mudar
Todos os outros nove candidatos, sem exceção, propuseram algum tipo de ruptura, mais ou menos radical. Pela ruptura socialista à esquerda, de diferentes matizes, estiveram Mélenchon (19,6%), Benoît Hamon (6,4%), Philippe Poutou (1,1%) e Nathalie Arthaud (0,6%), um total de 27,7%. Pela ruptura nacionalista à direita ou extrema-direita, Le Pen (21,3%), Dupont-Aignan (4,7%), Jean Lassalle (1,2%), François Asselineau (0,9%) e Jacques Cheminade (0,2%), somando 28,3%. Mesmo sem considerar os votos nulos, a rejeição ao status quo é majoritária, apesar de dividida ao meio entre progressistas e reacionários.

Como mostram os mesmos números, também é arriscado supor que a esquerda está morta. Se Mélenchon e Hamon tivessem unido forças, estariam no segundo turno com Macron e com mais chances de vitória que Le Pen. Que o Partido Socialista Francês esteja com um pé na cova, é outra questão.

A decadência dos social-democratas e trabalhistas na União Europeia (com a interessante exceção de Portugal) já tem um nome técnico, “pasokização”, em homenagem ao partido socialista grego Pasok, o primeiro a descer por essa ladeira pela qual partidos que tradicionalmente se alternavam no poder com o centro-direita despencaram ou ameaçam despencar para um dígito nas intenções de voto e a completa irrelevância política.

Trata-se, fundamentalmente, de decepção com um centro-esquerda tradicional a reboque da austeridade imposta pela elite financeira e industrial à União Europeia por intermédio do governo de Berlim. No governo ou em aliança com liberais, esses partidos não só quebram promessas, como cada vez mais desistem de formulá-las.

Consequentemente, perdem eleitores, enquanto os conservadores, cujas bases não tinham as mesmas expectativas, resistem melhor à crise. Não são, porém, imunes, como mostra o desgaste mais lento, mas perceptível, dos Republicanos de François Fillon, em favor de Macron e Le Pen, e do PP espanhol de Mariano Rajoy para ganho do Ciudadanos e mesmo da CDU de Angela Merkel para a AfD.

As bases do centro-esquerda não se tornam necessariamente neoliberais ou neofascistas. Duas outras respostas se mostram comuns: a abstenção pelo desencanto político e o voto em um partido de esquerda menos transigente, antes “nanico” ou inexistente.

Na Grécia, o Pasok cedeu terreno ao Syriza, na Espanha o PSOE ao Podemos, na Holanda o Partido Trabalhista (PvdA) à Esquerda Verde (GroenLinks). Na França, há que esperar junho para se verificar se o avanço de Mélenchon sobre o eleitorado socialista anuncia um ganho comparável da sua França Insubmissa às custas do PSF no Parlamento.

Em sua próxima eleição, até março de 2018, a Itália pode seguir caminho análogo, pois o centro-esquerda tradicional, o Partido Democrata, sofrerá a concorrência de duas novas legendas mais à esquerda, ambas surgidas de dissidências suas: a Esquerda Italiana e o Movimento Democrático Progressista. No Reino Unido, apesar de o Partido Trabalhista também estar ameaçado de “pasokização” pela eleição antecipada de junho, ainda não surgiu uma alternativa viável fora da Escócia, onde seu papel foi tomado por um centro-esquerda separatista, o Partido Nacional Escocês.

Apesar de chamadas de “radicais” e “populistas”, a maioria dessas novas esquerdas propõe reformas sociais e democráticas de média intensidade, modestas pelos padrões dos anos 1960, tanto nas instituições nacionais quanto nas europeias. Suas propostas são convergentes e, se a política liberal continuar a fracassar, serão a única alternativa realista à desagregação da Europa em nacionalismos mutuamente hostis.

Entretanto, o vexame do Syriza no poder mostrou os riscos do “reformismo em um só país”, principalmente se fraco e endividado. A concretização desse projeto exigiria sua ascensão em vários países importantes da União. Entretanto, a divisão do voto de centro-esquerda entre os partidos tradicionais decadentes e os novos ainda não testados, somada aos ressentimentos de ambas as partes, reduz as chances de qualquer das tendências chegar ao poder e de uma reforma séria no momento em que sua necessidade é mais crítica.