Número 950,

Cultura

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Gilberto Gil: a música medicinal

por Jotabê Medeiros — publicado 05/05/2017 00h30, última modificação 04/05/2017 20h32
O cantor e compositor baiano recupera-se de problemas de saúde com a promessa de um novo disco
Luciano da Matta/ Ag. A Tarde
Gilberto Gil

Gilberto Gil é um antigo entusiasta e praticante do poder curativo do carinho na medicina

Em setembro do ano passado, Gilberto Gil apresentava uma situação preocupante de debilidade física. Tinha perdido 10 quilos, passara a pesar 52 quilos. “Foi um quadro difícil”, conta. Além de insuficiência renal, ele foi diagnosticado com hipertensão. Em outubro, ao dar entrada no Hospital Sírio-Libanês, nos baixos da Avenida 9 de Julho, em São Paulo, Roberta Saretta, a médica que o atendeu, levou-o ao procedimento médico segurando sua mão. A médica pediu uma biópsia do coração de Gil. Também se constatou insuficiência cardíaca. Passados seis meses daquela internação, Gil recuperou 8 quilos.

E, três anos após Gilbertos Samba, o álbum em que celebra a obra de intérprete de João Gilberto, o baiano voltou a produzir e, neste mês de maio, começa a gravar um novo disco. Aparentemente, uma das marcas fortes desse álbum é justamente a medicina: a doutora Roberta ganhou uma música ainda ali no hospital, enquanto Gil convalescia.

Ela mandou arrancar quatro pedacinhos do meu coração/ depois mandou examinar os quatro pedacinhos/ um para saber se há um depósito de proteínas esquisitas lá/ um para saber se as pequeninas são assassinas e podem matar/ um para saber se estou curado com os remédios que ela me deu/ um pra saber se estou errado de ter juntado meu destino ao seu, diz a letra. Roberto Kalil Filho, o cirurgião que acompanha a saúde do cantor há 30 anos, também ganhou uma música. “Você verá, lá no disco!”, avisou Gil a Kalil, que brincava de rejeitado em um simpósio sobre hipertensão, do qual Gil participou na semana passada.

A circunstância médica já havia trazido a Gil, hoje com 73 anos, outra grande canção. Aconteceu em 1976, quando, no meio de uma turnê com os Doces Bárbaros (supergrupo formado por ele com os conterrâneos Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia), foi internado compulsoriamente em um sanatório em Florianópolis: Sandra. Nessa música, ele nomeia as enfermeiras que o atendiam (Maria Aparecida, Maria Sebastiana, Maria de Lourdes, Lair e Carmensita), e faz um tributo àquelas profissionais.

Maria Aparecida, porque apareceu na vida/ Maria Sebastiana, porque Deus fez tão bonita/ Maria de Lourdes/ porque me pediu uma canção pra ela/ Carmensita, porque ela sussurou “seja bem-vindo” no meu ouvido/ na primeira noite quando nós chegamos no hospício/ e Lair, Lair/ porque quis me ver e foi lá no hospício, narra a letra de Sandra.

Canções sobre quartos de hospital e procedimentos médicos são um dos grandes mananciais do mundo da música, com exemplares que vão desde roqueiros como os Modern Lovers (Hospital, 1976) e os Babyshambles (Picture Me in a Hospital, 2013) até paradigmas da música popular brasileira, como O Fruto do Nosso Amor (Amor Perfeito) (1978), de Amado Batista.

O próprio Gil confeccionou, em dupla com Milton Nascimento (que então saía de longa crise de saúde com episódios de diabetes e anorexia), o áspero tema de protesto Lar Hospitalar (2000): E eu mesmo agora tenho que lhe ouvir dizer/ aos berros que a vida é pura maldição/ que o mundo é feito só para os eleitos/ que houve sempre fraude na tal da eleição/ portanto, só queimando tudo/ só matando meio mundo/ só pondo a outra metade no poder/ você no comando, sempre vigiando/ pra ninguém se corromper/ finda a banda podre, linda a banda nobre/ sobe a velha rampa e altiva vem reinar/ com imunidades contra o vírus da maldade/ com certeza, com pureza, com limpeza hospitalar.

Com a autoridade de quem havia composto uma canção chamada Doente Morena (1973) e em 1976 fora internado num hospital psiquiátrico depois da prisão por porte de drogas, Gil afirmava em 2000: Eu que já fui preso por porte de baseado/ é baseado nisso que eu lhe digo não, não, não/ não vou fazer seu coro, seu sermão/ a não ser que você possa instalar/ o chip da ignorância em minha cuca/ a não ser que você consiga me reprogramar.

Gil é um antigo crente e praticante do poder curativo do carinho na medicina. “Além dos cuidados técnicos, evidencia um jorro afetivo particular. Isso ressoa”, disse o cantor a CartaCapital. “Tem ressonância forte no meu coração, o do lado direito e o esquerdo. O coração direito, onde reside o afeto. E são sempre inspiradores esses momentos. Essas duas canções são muito isso, a que foi feita para as meninas de Florianópolis e a que foi feita agora. Sou filho de médico, o estetoscópio e o tensiômetro (estavam sempre presentes). Nem era pressão, era a tensão. O consultório do meu pai era extensão da minha casa. Meu pai era clínico geral”, confessou.

Gil condenado
Julgado e condenado por porte de drogas em 1976, Gil foi internado num sanatório e compôs uma música para as enfermeiras; neste ano, o médico Roberto Kalil ganhará uma canção (Foto: Arquivo/Estadão Conteúdo e Divulgação)

Macrobiótico nos anos 1970, Gil brincou com as coisas menos artificiais da medicina em canções como Pílula de Alho, de 1997: Você já ouviu falar da pílula de alho?/ é uma pílula amarela/ cê toma uma daquela/ nem sabe o que é que sente, mas a infecção já era/ eu tive dor de dente/ tomei algumas delas, as bichinhas logo agiram/ depois de certo tempo/ senti-me melhorado e os sintomas maus sumiram/ a pílula de alho/ feita de alho e calor/ é puro óleo de alho/ é como a flor de dendê/ é mel da planta isenta de qualquer outro fator. Era um desenvolvimento da antiga Jurubeba (1975), cantada em tom picaresco e festivo em dupla com Jorge Ben (Jor): Quem procura acha cura, flor de jurubeba/ quem procura acha na raiz de jurubeba/ tudo que é de bom pro figueiredo e que se beba/ feito vinho, feito chá/ de licor, de infusão/ jurubeba, jurubeba, planta nobre do sertão.

O novo disco de Gil não tem prazo para terminar. Ele começa a gravar agora, mas não definiu a meta de lançamento. “Estabeleci em casa que não queria voltar a trabalhar no nível de atividade que tinha antes. Eu pensei: se eu reduzir um terço das minhas atividades, vou continuar me sustentando, ganhando a vida. E é preciso dormir confortavelmente. É o tempo para que a alma faça o trabalho para o corpo. É preciso também ter consciência do envelhecimento. O homem velho é o rei dos animais”, pondera.

Elogiado mundialmente como ministro da Cultura do governo Lula, cargo no qual criou novos paradigmas de visão cultural, e um dos primeiros a se levantar contra a extinção da pasta, nos primeiros dias do governo Temer, Gil está se poupando também do vírus da política. Não é tão contundente ao falar do tema. Não parece disposto nem a examinar o desmonte das políticas de cultura no País todo. “A minha preocupação é a de todo cidadão brasileiro. Todo mundo está preocupado com as dificuldades adicionais que surgiram. Quero, como todo brasileiro, que as coisas possam ser contornadas, que surjam condições mais salubres para que a vida corra. Mas não tem nenhum estresse particular, não”, ele diz.

Gil fala com a habitual presença de espírito sobre enfermidades e consultórios. “Me acostumei desde muito cedo a conviver com aquela história de pressão das pessoas”, lembra, para uma plateia de médicos e estudantes de medicina. Aprendeu coisas novas sobre a medicina nesse período, coisas que explicam em parte sua própria história. Por exemplo, por conta da escravidão, os afrodescendentes que vivem no Brasil, cujos antepassados foram submetidos a toda sorte de provação física e estresse mental, têm 8% mais chance de ser acometidos pela hipertensão do que os brancos. Gil soube também que os índios Yanomami, por não comerem alimentos com sal, são normotensos (não têm problemas com hipertensão).

“Muita gente me pergunta: ‘mas logo você, que tem uma alimentação saudável?’”, revela Gil, sobre o espanto causado quando foi internado. “Ninguém está livre”, responde. Agora, tem um medidor de pressão digital em casa, que a mulher, Flora, usa periodicamente. E os medicamentos viraram uma imperiosidade. “Eu já considero que é daqui pro resto da vida que vou viver controlando a minha pressão”, diz o autor de tratados de medicina filosófica em pílulas como Super-Homem – A Canção (1979), Se Eu Quiser Falar com Deus (1981), Andar com Fé (1982), Não Tenho Medo da Morte (2008) e Não Tenho Medo da Vida (2011).