Número 950,

Economia

Opinião

A realidade do mundo é cruel

por Delfim Netto publicado 10/05/2017 00h05, última modificação 09/05/2017 12h34
O Brasil ainda não entendeu que o fortalecimento da siderurgia é um problema de segurança nacional
Alfred T. Palmer
Siderúrgica

"O fortalecimento da siderurgia americana não é um problema econômico. É um problema de segurança nacional”

A Constituição de 1988 propõe a construção de uma sociedade civilizada. Seus valores supremos são: 1. A mais ampla liberdade individual. 2. A perseguição sistemática da igualdade de oportunidades. 3. Construir uma coordenação eficiente da atividade econômica dos cidadãos compatível com eles.

Como os três objetivos são relativamente incompatíveis, eles só poderão ser acomodados, assintomaticamente, por uma administração política centrada num Estado forte, que regule os “mercados”, principalmente o financeiro. Ele, também, deve ser constrangido constitucionalmente.

Essas condições não garantem, entretanto, um desenvolvimento social e econômico robusto, inclusivo e sustentável. Para isso, é preciso um projeto razoavelmente consensual que indique o que a nação quer ser nos próximos 25 anos (pelo menos) e recuse a sujeição às vontades dos “mercados”.

Quando ela se abre ao comércio internacional, eles podem, se não forem regulados, controlar o seu futuro. A história revela que “vantagens comparativas” não são divinas e podem, dentro de limites razoáveis, ser construídas. A abertura comercial desabrida tende a moldar a estrutura produtiva do País. Por isso, é preciso cuidado para não transformá-lo em servo da demanda dos seus parceiros e não senhor de seu destino.

Isso não tem nada a ver com a boa teoria econômica. Tem a ver com a ingênua visão de mundo de alguns economistas. Pensam-no composto de pequenas ilhas altruísticas, partes de um arquipélago onde reinam a paz e a fraternidade sob controle da ONU.

Infelizmente, o mundo é outra coisa: uma coleção de ilhas independentes, com interesses bem diferentes, que se veem com alguma desconfiança e dispostas a defender seus territórios a qualquer custo e a ONU é apenas o local que serve às cinco potências que têm poder de veto para continuar a “proteger”, em qualquer circunstância, suas velhas ou novas colônias. 

É por isso que a ilha com pretensão de executar um projeto de desenvolvimento social e econômico que defina o seu futuro deve ser senhora da política econômica, informada pela boa teoria sustentada pela evidência histórica, que permita: 1. Executar uma política monetária independente que conduza à estabilidade do valor da moeda num regime próximo ao pleno emprego. 2. Que estabeleça uma taxa de juros real interna parecida com a externa somada ao seu risco idiossincrático, para que 3. A taxa de câmbio real seja adequada e reflita as condições da economia real e não do mercado financeiro, e 4. Que coordene a política fiscal com a monetária para produzir um relativo equilíbrio fiscal, capaz de sustentar um endividamento que abra espaço para ações anticíclicas quando a demanda privada der sinais de fraqueza.

Como na economia nem a “oferta” cria, necessariamente, a sua própria “procura”, nem a “procura” cria, necessariamente, a sua “oferta”, a coordenação do processo de desenvolvimento exige uma relação segura e amigável entre o Estado e o setor privado. Seu papel há de ser o de coordenar o programa do futuro da sociedade e aproveitar as vantagens comparativas, mas não se deixar levar pela divisão internacional do trabalho imposta pelas potências que controlam o mundo. 

Quais são as condições para uma ilha poder gozar de relativa independência? Desde tempos imemoriais, sabe-se que é construir – tanto quanto possível – três autonomias: 1. A alimentar. 2. A energética, e 3. A militar, criando uma capacidade de defesa dissuasiva. Nenhuma delas pode ser alcançada sem um setor siderúrgico eficiente. Foi preciso o terremoto Donald Trump para nos acordar para o fato de que a siderurgia não é apenas um problema econômico, principalmente num mundo onde a paz está cada vez mais longe.

Ao determinar que todas as obras de infraestrutura que contratará terão, necessariamente, de usar aço produzido nos Estados Unidos, prejudicou fortemente nossas exportações. Ao assinar o ato protecionista, disse: “Isto não tem nada a ver com a China. Tem a ver com o mundo. O fortalecimento da siderurgia americana não é um problema econômico. É um problema de segurança nacional”. O Brasil ainda não entendeu isso.

A produtividade medida em tonelada de aço por homem-hora do nosso setor siderúrgico é muito próxima da mundial, mas a ausência do “Reintegra” e as gigantescas taxas de juro reais que incidem sobre o custo de uma indústria de ciclo longo roubam-lhe a capacidade competitiva. Ele está murchando e vai piorar com as restrições americanas. 

registrado em: Delfim Netto