Número 950,

Política

Lava Jato

A Lava Jato não é consenso

por Marcos Coimbra publicado 04/05/2017 00h04, última modificação 03/05/2017 16h04
Pesquisa CUT/Vox Populi, realizada entre 6 e 10 de abril, mostra que a aprovação do juiz Moro, que já foi elevadíssima, caiu para 47%
Lula Marques/ AGPT
Cunha indo para a sede da PF

O ex-deputado federal, Eduardo Cunha, é transferido de Brasília para a sede da Polícia Federal em Curitiba

Há quem pense que a Operação Lava Jato é um consenso nacional. Que seus agentes são vistos como heróis pelo povo, que respalda com entusiasmo tudo que fazem. Pelo menos os cidadãos de bem, pois quem, senão os bandidos, poderia fazer-lhe algum reparo?

O sentimento de que existe esse consenso é tão presente que são raros os que ousam questioná-la. Parece que, para poder criticá-la, é preciso persignar-se três vezes, em meio a juras de não ser “contra a Lava Jato”.

Seria natural que recebesse o apoio unânime da população. Entre os estereótipos de nossa cultura política, talvez nenhum seja tão arraigado quanto a suposição de que a corrupção é a causa originária dos problemas do País. Desde tempos imemoriais, é isso que a maioria imagina, atribuindo à corrupção a culpa de não haver empregos, boas escolas e boa saúde. Erradamente, as pessoas creem que, se não houvesse corruptos, sobraria dinheiro para tudo.

A insistência no discurso anticorrupção acentuou-se depois da chegada do PT ao poder. Quando Lula venceu a eleição de 2002 e começou a fazer um governo com larga aprovação popular, seus adversários na política, nos aparelhos de Estado e na sociedade enxergaram na manipulação do estereótipo um meio para enfraquecê-lo, uma vez que denunciá-lo por incompetência se mostrava difícil. Em 2005, o escândalo do “mensalão do PT” (que apenas expunha práticas há anos incorporadas no presidencialismo híbrido criado pela Constituição de 1988), foi a primeira manifestação dessa estratégia. Aquilo que as pessoas consideravam um problema crônico de nossa sociedade foi transformado em problema agudo.

A Lava Jato foi construída pela imprensa conservadora como a vanguarda da luta contra a corrupção, e normal seria que tivesse 100% de aprovação. Apresentados há três anos como os paladinos desse combate, os responsáveis por ela no Judiciário, no Ministério Público e na Polícia Federal deveriam, a esta altura, ser aclamados por todos.

Esse consenso não existe, no entanto. Ao contrário, embora ainda tenha boa acolhida, o que vemos é, a cada dia que passa, diminuir o apoio de que desfruta. Na mais recente pesquisa CUT/Vox Populi, realizada entre os dias 6 e 10 de abril corrente, isso fica claro.

Quando perguntados a respeito da atuação do juiz Sergio Moro, não chega a 50% a proporção dos que acham que ele “faz uma luta justa e usa métodos corretos”. No inverso dos 100% que deveríamos ter na avaliação do trabalho de um magistrado, apenas 47% concordam com o enunciado.

A maioria escolhe duas outras opções ou “não sabe”: 19% respondem que “o juiz Sergio Moro não está fazendo uma luta justa, pois age politicamente, protegendo alguns e perseguindo outros” e 16% que “(...) está fazendo uma luta justa, mas usa métodos questionáveis”. Os que não sabem são 18%.

A mesma percepção de “perseguição” aparece na avaliação do trabalho dos procuradores. Entre dezembro de 2016 e agora, a taxa dos que afirmam que “são justos e tratam todos os políticos da mesma maneira” caiu de 51% para 45%, enquanto subiu a dos que entendem que não são isentos (que foi de 37% para 42%).

A discordância em relação aos métodos utilizados pelos agentes da Lava Jato é nítida nas respostas à pergunta a respeito de se é correto acusar Lula “sem provas, mas com convicções”, como eles próprios disseram. A proporção dos que acreditam ser isso errado é de 68%, enquanto somente 28% estão de acordo.

Além de mostrar que o endosso à operação está muito distante de 100%, a pesquisa também revela que o interesse da sociedade por ela vem caindo. Há um ano e meio, em novembro de 2015, 44% dos entrevistados afirmavam que “se interessaram muito por ela no início e continuavam muito interessados”. Agora, a proporção dos que concordam com a frase caiu para 25%. Enquanto isso, os que dizem “não ter interesse” passaram a ser 44% e os com apenas “algum interesse” foram a 30%.

A Operação Lava Jato, em vez de ser algo com que concorda o conjunto da sociedade e que a mobiliza, é crescentemente questionada. Seus métodos são criticados por um número cada vez maior de pessoas e seus seguidores minguam.

No fundo, porém, o teste do verdadeiro apoio que recebe da população é indireto. Ela – e a imensa máquina de propaganda que a imprensa conservadora montou para potencializar seu impacto – está se revelando incapaz de provocar as mudanças que buscava. Pelo que as pesquisas mostram, se o povo puder escolher livremente os candidatos na próxima eleição presidencial, vai acontecer o oposto do que esses personagens querem.