Número 949,

Cultura

Dança

Hulda Bittencourt: o legado do cisne

por Jotabê Medeiros — publicado 07/05/2017 01h00, última modificação 05/05/2017 13h28
Aos 82 anos, a pioneira da dança no Brasil tem sua história encenada por sua própria companhia
Tomas Kolisch Jr
Hulda

O balé H.U.L.D.A.: “Pioneirismo de 40 anos no ensino e na encenação do balé clássico

Hulda vem do hebraico. É o nome da profetiza que, em dois livros do Antigo Testamento, foi escolhida por Deus para transmitir a sua vontade, uma rara deferência à mulher nas páginas dos livros sagrados.

Foi assim que batizaram a pioneira  do balé paulistano, Maria Hulda Bittencourt, filha de imigrantes alemães que chegaram ao Brasil fugidos da Segunda Guerra em 1930. Em 1934, tiveram aqui Hulda, que, adulta, casou com o engenheiro químico Edmundo.

A paixão de Hulda pelo balé contaminou Edmundo, que vendeu sua fábrica química e um terreno para construir para a mulher a sede do Cisne Negro Companhia de Dança, o primeiro edifício da Vila Beatriz, espaço construído exclusivamente para balé. Hoje com 82 anos, a pioneira Hulda Bittencourt tem sua história e a de sua paixão colocados em cena pela própria companhia que criou há 40 anos.

Para ela, Jorge Takla concebeu o balé H.U.L.D.A., em cartaz no Teatro Santander, uma saga em cinco partes: H significa horizontes, U de união, L de liberdade, D de dança e A de amor.

“Meu coração não vai aguentar”, disse Hulda esta semana, após assistir a um dos ensaios. A filha, Dany Bittencourt, coreógrafa, dá risada. “O coração dela é forte, não tem perigo. Mas é fato que ela se emociona muito nos ensaios. Mas ela quer estar sempre, é a vida dela”. 

Hulda fundou o Cisne Negro em 1977, estreando com Cenas Brasileiras, inspirado em obras de Portinari. Exportou bailarinos para companhias do mundo todo. A companhia dançou em 17 países e mais de 400 cidades, aldeia indígena, no Carnaval, hospitais, acompanhou estrelas como Andrea Bocelli e celebrou a música de David Bowie. Hulda passou por muitos desafios,  o menor deles um ou outro vizinho que não suportava Tchaikovsky. A companhia divide o espaço com a escola de dança.

São 12 bailarinos em cena. Ana Botafogo faz uma participação especial, e até assume o papel de encarnar a veterana Hulda. Rui Moreira, que foi aluno de Hulda, assina a coreografia com Dany Bittencourt. “Não é um trabalho biográfico, mas tem passagens que permeiam a história dela”, diz Dany. 

O pianista André Mehmari nasceu dois dias depois do Cisne Negro. Completa 40 anos com a companhia. Foi ele quem compôs, em sua casa na Cantareira, todas as músicas que embalam a coreografia. De ponta a ponta da História, a dança é o amálgama de tudo. 

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