Número 949,

Cultura

História

Guernica é mais do que um mural

por Nirlando Beirão publicado 06/05/2017 01h00, última modificação 05/05/2017 13h05
Oitenta anos depois de ser arrasada pela aviação nazifascista, a cidade basca inspira prazer, liberdade e paz
Gernika-Lumo

26/4/1937. Três horas sem trégua de bombardeio. Era dia de feira. Os alvos eram civis

Gernika-Lumo é o nome oficial, em basco – com “ger” como sílaba forte. A população vai pouco além dos 16 mil habitantes. Fica na costa de Biscaia, norte da Espanha, embora não deite os olhos diretamente ao mar, com o qual se conecta através de uma ría – um fiorde que, a partir do Atlântico, vai se esgueirando pelas colinas até lamber os pés da cidadezinha deitada no sereno vale.

Não é exatamente um sítio que justificasse o turismo que hoje em dia suscita se não fosse por uma dolorida curiosidade histórica. Em 26 de abril de 1937, o povoado pacato foi tragicamente escolhido pelos Junkers de Adolf Hitler e os Savoia-Marchetti de Benito Mussolini para simbolizar a definitiva adesão dos nazifascistas de além-fronteira à causa do general rebelde Francisco Franco contra a República Espanhola.

Era dia de feira e o vilarejo está apinhado de moradores das redondezas – única explicação possível para a sanguinária escolha dos fascistas. Por três horas ininterruptas, Guernica vergou ao peso de 29 toneladas de bombas. Umas 2 mil pessoas morreram.

Foi a primeira vez numa guerra que alvos civis foram propositalmente bombardeados. Guernica abriu um sinistro precedente e desencadeou uma dessas indignações internacionais que, sabe-se bem, não costumam dar em nada.

Guernica
Guernica vergou ao peso de 29 toneladas de bombas (Pablo Picasso)
Três meses depois, um contundente mural de 3,5 metros de altura e 7,76 metros de extensão materializou-se na entrada do pavilhão da República Espanhola da Exposição Internacional de Paris. Assinava a tela um pintor catalão refugiado em Paris, Pablo Picasso.

No canto oposto da sala, uma foto até o teto de García Lorca, com uma única e seca legenda: “Poeta fuzilado em Granada”. A carnificina nazifascista mereceu de Picasso o mais contundente registro visual de sua barbárie. O mural teria o dom de tornar a dor de Guernica inesquecível e, aos olhos da humanidade, indesculpável.

Guernica, a cidade, foi cicatrizando as cicatrizes e hoje é um destino turístico propelido não apenas por sua tragédia, mas por fatores bem mais agradáveis, como a acalentada gastronomia basca, imbatível no quesito frutos do mar, e a proximidade de Bilbao, a fervilhante capital da província, brindada com o apelo cult de seu Museu Guggenheim. De Bilbao a Guernica são menos de uma hora de ônibus e de trem e 30 minutos de carro.

Árvore-símbolo
Das ruínas de um vilarejo que vergou ao peso de 29 toneladas de bombas, sobrou a árvore-símbolo. A paisagem atual, à margem da “ria”, é obra de um povo que jamais se curvou

O lugar a ser obrigatoriamente visto – e os turistas cumprem o rito da assiduidade – é a Gernikako Arbola, a árvore ao pé das quais os líderes bascos e os reis espanhóis vinham jurar seu respeito à autonomia basca.

O carvalho, que resistiu ao bombardeio, é, com sua autoridade simbólica, a outra explicação possível para que os ancestrais do Moro e do Bolsonaro tenham decidido aplicar sua vingança de sangue a um lugarejo indefeso.

Ali ao lado ergue-se, em estilo neoclássico, a Câmara Provincial – que igualmente passou ilesa ao bombardeio. O Parque da Paz foi desenhado depois. A escultura Figura Grande num Abrigo, do britânico Henry Moore, reiterada a mensagem, ao lado de crianças que jogam futebol, de que a normalidade dos tempos atuais não significa ocultar o passado por debaixo do tapete do esquecimento.

O entorno de Guernica também se beneficia do renascimento turístico que fez do País Basco um must go de beleza e gulodice. O pequeno porto de Mundaka, de onde escorre o braço de água salgada que vai dar em Guernica, guarda sua tranquilidade modorrenta em contradição com o mar de tubos vertiginosos onde os surfistas desafiam seu equilíbrio. A praça central tem uma daquelas típicas capelas de pescadores e uma igreja em estilo românico cujo muro serve a renhidas partidas de pelota, o esporte dos bascos. 

Bermeo é outro pequeno cais, não muito distante, de lendária reputação nas lides do mar (Cristóvão Colombo recrutou marinheiros de Bermeo, acostumados a aventuras ultramarinas, para suas viagens à América) e um trágico registro a empanar seu orgulho.

Costa Basca
A costa basca, ao lado de Guernica, cura as cicatrizes do passado no surfe e na cozinha (Fotoarena)
Uma terrível tempestade no verão de 1912 surpreendeu em alto-mar 143 experimentados pescadores locais. Um cão de bronze uivando para o mar é o tributo do lugarejo a seus heróis mortos.

Já Elantxobe, que sobe o penhasco a partir de um pequeno ancoradouro, pode eventualmente lembrar, a um turista mais viajado, a Costa Amalfitana, na Itália, sem o perigo de grandes aglomerações humanas. As ostras, mais do que qualquer outro brinde do mar, é que têm precedência no cardápio local, na companhia do txakoli, um vinho branco de suave competência, apesar do nome.