Número 949,

Economia

Opinião

A grande volta ao passado

por Delfim Netto publicado 07/05/2017 00h17, última modificação 05/05/2017 09h27
Aceitamos, mansa e “cientificamente”, voltar a ser supridores mundiais de matérias-primas e alimentos
Antônio Costa/ ANPr
Colheita de Grãos

Brasil é responsável por 15% das exportações de comoditties no mundo

Há pouco mais de 60 anos cultivava-se na FEA-USP um modelo de crescimento que implicitamente admitia rendimentos crescentes; identificava o crescimento econômico com o aumento da produtividade do trabalho; que esta dependia, essencialmente, da relação entre a quantidade e a qualidade de capital alocado a cada trabalhador preparado para manipulá-la e, finalmente, que a distribuição do produzido é um problema político.

Três obstáculos – e uma condição – poderiam frustrar o crescimento: a falta de energia, a redução da velocidade do aumento do estoque de capital com relação à força de trabalho empregada e o constrangimento externo imposto pelo desequilíbrio das contas correntes. A condição para sua aceleração é uma questão política: uma distribuição harmoniosa entre o PIB destinado ao consumo e ao investimento. O gráfico ao lado é o “esqueleto” desse modelo, que se aplica a qualquer organização social.

O modelo sugere que nem a “oferta” cria, necessariamente, a sua própria “procura” (Lei de Say) nem a “procura” gera, necessariamente, a sua própria “oferta”. Lança, assim, sérias dúvidas sobre se existe, na macroeconomia, um mecanismo de coordenação capaz de sustentar o nível de pleno emprego da força de trabalho.

Qual era o problema da economia brasileira nos anos 1950-1953, quando o modelo foi formulado?

Que o café era câmbio, uma vez que representava 70% do valor das exportações. Como sua oferta é defasada, sua demanda é inelástica e éramos o maior produtor mundial, ele determinava a taxa de câmbio e a sobrevivência do setor industrial emergente. Isso começou a mudar com a ousada política industrial do governo Juscelino Kubitschek, que, infelizmente, entregou o País, em 1961, com as contas internas e externas em pandarecos.

Depois do breve governo de Jânio Quadros (31 de janeiro a 29 de agosto de 1961), tudo desandou de vez. No governo João Goulart (8 de setembro de 1962 a 31 de março de 1964), o crescimento do PIB murchou.

Economia
(Foto:Baptistão)
A conjuntura interna era de absoluta desordem, promovida pela “esquerda negativa” de Brizola, como disse o grande San Tiago Dantas. Em todo esse período ficou visível que o modelinho funciona. O pecado original no regime autoritário (15 de abril de 1964 a 15 de março de 1985) foi um nacionalismo equivocado, que impediu o Brasil de se livrar mais cedo da dependência da importação de petróleo.

O pecador foi o general Ernesto Geisel, pela importância decisiva que teve na formulação da política do petróleo do Brasil desde tempos imemoriais. Mesmo avisado, com dois anos de antecedência, recusou-se a modificá-la e abrir a exploração para outras empresas, o que foi obrigado a fazer quando chegou à Presidência da República (15 de março de 1974 a 15 de março de 1979), mas já era tarde. Geisel não teve outra saída a não ser endividar o Brasil para não paralisar a economia. Exatamente o mesmo fizeram todos os outros países que dependiam fortemente da importação de petróleo, inclusive os satélites soviéticos. O Brasil foi o primeiro a acertar sua conta corrente, mas o último a negociar as duas dívidas. Devemos isso às estripulias do ministro Dilson Funaro, no governo José Sarney.

Depois do triste fim do governo de Fernando Collor, o presidente Itamar Franco criou todas as condições para o enorme sucesso do Plano Real, a mais fina joia produzida por competentes economistas que aproveitaram os ensinamentos da bem-sucedida estabilização de Israel. Ele nunca terminou: não fizemos o ajuste fiscal, aumentamos a tributação e exageramos no uso da taxa cambial para o controle da inflação, tudo temperado com gigantesca taxa de juros real interna. Roubaram-se, assim, as condições isonômicas de competição do setor industrial.

No governo Lula, o processo continuou. O nosso problema é que a China e a melhora das relações de troca nos levaram de volta à situação anterior a 1953: aceitamos, mansa e “cientificamente”, voltar a ser supridores mundiais de matérias-primas e alimentos. São importantes, mas, obviamente, incapazes de sustentar o desenvolvimento interno robusto de um país com 210 milhões de habitantes.

Essa regressão, produzida por uma pretensiosa, arrogante e míope “ciência econômica”, tem um encontro marcado com as teses de doutoramento que serão, inevitavelmente, produzidas pela Academia no futuro. 

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