Número 949,

Internacional

França

A eleição na França traz possibilidades impossíveis

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 21/04/2017 00h55, última modificação 20/04/2017 11h13
Quatro candidatos, Le Pen, Macron, Fillon e Mélenchon, empatam dentro da margem de erro
Patrick Kovarik/AFP
Candidatos

Da esquerda para a direita: Fillon, Macron, Mélenchon, Le Pen e Hamon

Se não houver surpresas, Emmanuel Macron e Marine Le Pen serão os candidatos mais votados do primeiro turno no domingo 23, não obrigatoriamente nessa ordem, e o primeiro vencerá a segunda com folga em 7 de maio, dia do segundo turno. Em princípio, a vitória do centrista, ex-ministro de François Hollande, seria um resultado satisfatório e permitiria à combalida União Europeia ganhar tempo para enfrentar seus problemas, mesmo se não está claro se saberia aproveitá-lo.

A dúvida é como Macron governaria. Embora a mídia nunca use “populista” e “liberal”, na mesma sentença, trata-se exatamente disso. Sua campanha é personalista e, salvo uma reviravolta improvável até as eleições parlamentares de junho, terá pouca base parlamentar.

É improvável que, no sistema distrital, seu improvisado partido “Em Marcha”, fundado há um ano, tome muito espaço aos partidos tradicionais. Se governar sem base parlamentar pode ser impossível no presidencialismo brasileiro, como fazê-lo com uma Constituição semipresidencialista, na qual o presidente não pode demitir ministros sem autorização do Legislativo?

Na prática, Macron estaria à mercê de quem tiver a maioria no Parlamento. A última pesquisa para o Parlamento, de junho de 2016, indicava uma maioria de centro-direita, mas seria arriscado apostar na manutenção desse quadro.

O presidente François Hollande e seu ex-primeiro-ministro Manuel Valls aparentemente acreditam em uma aliança com Macron para conquistar a maioria em junho e em nome dessa aposta traíram – ou “cristianizaram”, para usar o vocabulário político brasileiro – seu próprio candidato socialista Benoît Hamon, bem à esquerda de suas posições e escolhido pelas bases do partido contra a sua vontade. O único cenário no qual a Quinta República continuaria a funcionar como planejado seria o da vitória de François Fillon, mas este parece ser agora o menos provável.

Gráfico

Há sinais, por outro lado, de que uma surpresa pode ter sido gestada. Um dos sinais disso é a excessiva convergência dos resultados de diferentes institutos de pesquisa. O esvaziamento de Hamon, cujas intenções de voto caíram para 8% a 9%, deixou os outros quatro principais candidatos – os dois inicialmente citados, mais o centro-direitista Fillon e o esquerdista radical Jean-Luc Mélenchon – muito próximos uns dos outros, com porcentagens de 18% a 24%, em alguns casos de 20% a 23%, mas peculiarmente quase todas as pesquisas os mostram na mesma ordem, apesar de as margens de erro serem maiores que as diferenças entre eles.

O estatístico Nate Silver vê sintomas de “comportamento de manada” (herding), fenômeno que se passa quando os institutos, ao obter resultados inesperados e recear o risco de cometer erros crassos, começam a “massagear” seus dados para não destoarem muito dos concorrentes – neste caso, se todos errarem, ninguém passa vergonha sozinho.

A surpresa mais viável e de implicações mais complexas é a possibilidade de Mélenchon, em clara ascensão nas últimas semanas, passar a perna em um dos favoritos, ou mesmo em ambos, e chegar ao segundo turno. Se a maioria dos eleitores socialistas escolheu Hamon nas primárias, foi por rejeitar a política centrista da sua cúpula. Ao vê-lo inviabilizado, muitos optam pelo candidato da esquerda radical como a alternativa mais satisfatória. Seu programa é de fato semelhante, com o acréscimo da veemência do discurso dos “Indignados” de 2011.

Ao optar por Macron, Hollande pode ter, ironicamente, posto seu Partido Socialista no mesmo caminho do esquecimento ao qual se recolheram o Pasok grego e o Partido Trabalhista holandês e ressuscitado o Partido Comunista, cuja decadência parecia irreversível desde os anos 1980, mas tornou-se a espinha dorsal da coligação “França Insubmissa” de Mélenchon.

O candidato não veio do PCF, e sim do Partido de Esquerda, dissidência dos socialistas por ele criada em 2009, mas as diferenças entre ambos e seus sócios menores, como o Ensemble (“Conjunto”), partido ecologista de esquerda, são hoje pouco relevantes.

O pior dos pesadelos imagináveis para Bruxelas, Berlim e Frankfurt tornou-se uma possibilidade concreta e não tão remota: um segundo turno entre Le Pen e Mélenchon. Ambos são contrários à União Europeia, uma em princípio, o outro na sua forma realmente existente. Os dois também representam dores de cabeça em potencial, no mínimo, para o sistema financeiro e industrial, o segundo ainda mais que a primeira.

Boa parte da direita se sentirá tentada a engolir os princípios liberais e apoiar o neofascismo, mas será embaraçoso fazê-lo em público e as pesquisas para o segundo turno indicam que Mélenchon venceria a xenófoba com porcentagem pouco menor (58%) que a que seria obtida por Macron (62%) em circunstâncias análogas. Seria um terremoto político como não se via na Europa desde a queda do Muro de Berlim. Multiplique-se por dez a eleição de Aléxis Tsipras na Grécia: a França é muito maior, mais rica, mais central para a União Europeia e menos dependente dos credores.

Mélenchon e Le Pen
O inesperado crescimento do candidato da esquerda complicou a disputa e pode pôr as elites neoliberais ante o pior dos dilemas: a esquerda autêntica ou o neofascismo (Fotos: Alain Jocard e Joel Saget/AFP)

Macron contra Mélenchon também não é uma possibilidade a ser descartada. Neste caso, as pesquisas sugerem vantagem para o primeiro, mas não por uma margem suficiente para deixar tranquilos seus partidários: 58% a 42% no máximo, 53% a 47% em outra pesquisa. O economista Thomas Piketty, eleitor de Hamon, declarou que votaria em Mélenchon nessa hipótese e considera Macron corresponsável do desastre econômico de Hollande. Em uma eleição polarizada e acirrada, o resultado real seria imprevisível.

“Essa campanha cheira mal”, passou a queixar-se Hollande, cujo olfato se incomodava menos com a liderança de uma neofascista nas pesquisas, a corrupção de Fillon e sua própria deslealdade para com as bases de seu partido. “Simplificações são perigosas, fazem-nos olhar mais o espetáculo do tribuno do que seu conteúdo”, teria alertado o presidente, segundo o Le Figaro, para o qual Mélenchon é o “Chávez francês”.

Nem só os veículos conservadores se assustam: o diretor do Libération, outrora jornal de Jean-Paul Sartre, hoje porta-voz de Édouard de Rothschild e do centro-esquerda, o chama “comandante Che Mélenchon” e dá eco à acusação de Macron de que a França poderá “despertar dentro da Aliança Bolivariana”. O El País fez o mesmo, além de associá-lo a seu bicho-papão, Pablo Iglesias. O Guardian destacou artigo de opinião que acusa Mélenchon de ser “antialemão e brando com Vladimir Putin”.

Para se ser justo com o candidato e com os fatos, Mélenchon critica os rumos da União Europeia, principalmente o seu conservadorismo econômico e sua rigidez fiscal e os atribui ao papel dominante do governo alemão e de Angela Merkel. Também defende retirar a França da Otan e desvinculá-la da política antirrussa dos EUA e Reino Unido na Ucrânia e Síria, embora os maiores admiradores de Putin na França e os favoritos da mídia russa sejam, claramente, Le Pen e Fillon.

Expressou várias vezes sua admiração pelos governos de esquerda na América Latina e liderou homenagens a Hugo Chávez e Fidel Castro, por ocasião de seus falecimentos, junto à estátua de Simón Bolívar, mas sua proposta de relação com a Alba limita-se às possessões francesas no Caribe e América do Sul, Guadalupe, Martinica e Guiana Francesa.

Macron
O populismo liberal de Macron igualmente não se encaixa nas tradições da V República. A falta de base partidária pode colocá-lo na posição de refém de quem tiver a maioria do Parlamento (Foto: Eric Feferberg/AFP)
Mélenchon é de fato carismático, ao menos em comparação aos concorrentes. Quanto ao conteúdo, o problema não é a falta dele, e sim o fato de ser inaceitável para a ortodoxia liberal. Com o título de “Por uma política econômica séria e à altura do desafio”, um manifesto de cem economistas de vários países, publicado na terça-feira 18, declarou-lhe apoio. Os signatários incluem Anwar Shaikh e Mark Setterfield dos EUA, Robert Skidelsky e Ben Fine, do Reino Unido, e o francês Marc Lavoie.

Condenam os cortes de gastos públicos e o desmantelamento das leis trabalhistas e do bem-estar social propostos por Fillon e (de forma menos drástica) por Macron e promove as soluções propostas por Mélenchon como “as únicas a formar um quadro coerente e rigorosamente quantificado e serem capazes de responder às cinco urgências atuais”, a saber, reduzir o desemprego, deter o aumento da desigualdade, combater a desindustrialização, enfrentar a mudança climática e transformar os tratados europeus.

O último ponto é o mais problemático. Além de propor uma Constituinte para fundar uma “Sexta República” parlamentarista e baseada no voto proporcional, Mélenchon quer alterações drásticas no funcionamento da União Europeia e do euro, o “Plano B para a Europa” de democratização das instituições, defendido também pelo ex-ministro da Fazenda grego Yanis Varoufakis, pelo partido alemão A Esquerda (Die Linke) de Oskar Lafontaine, pelo Podemos de Pablo Iglesias, pelo Bloco de Esquerda português e pelo novo partido Esquerda Italiana de Nicola Fratoianni.

Mas, salvo uma reviravolta continental, é improvável que se consiga qualquer coisa de substancial nessa direção e, mais de uma vez, Mélenchon já declarou que prefere à situação atual o retorno à soberania, ou seja, o “Frexit” e o fim da União Europeia.

É uma agenda coerente, mas extraordinariamente ambiciosa e muito difícil de conduzir ante a hegemonia liberal-conservadora no continente e uma provável maioria idem no próprio Parlamento francês. Descartá-la equivale, porém, a abrir mão de quaisquer esperanças em um futuro que não seja de decomposição da sociedade e da Europa.

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