Número 948,

Política

Operação Lava Jato

Salvemos o Brasil

por Mino Carta publicado 17/04/2017 00h30, última modificação 13/04/2017 12h34
Com o golpe naufraga o país, cuja importância transcende a desastrada prepotência dos golpistas. Como escapar a este enredo trágico, mas também ridículo?
Ricardo Stuckert
Lula

Lula tem a convicção de que tudo tem que ser provado, vale para adversários e correligionários

A 17 de abril de 2016, a Câmara aprovou o impeachment da presidenta Dilma Rousseff e deu início ao processo que se concluiria com o golpe e a posse do governo ilegítimo de Michel Temer. Um ano depois, a nau dos insensatos soçobra miseravelmente, mas o naufrágio não é somente dos golpistas, e sim do País.

Simples explicar por quê. A tripulação do barco furado é bem maior do que a lista de Fachin. Nela figura com o devido destaque o próprio Supremo Tribunal Federal, conivente com o golpe e com irregularidades, deslizes e absurdos jurídicos cometidos pela força-tarefa da Lava Jato, que tão eficazmente cuidou de destruir inteiros setores da nossa economia, além de perseguir com prioridade Lula e seu partido.

E na tripulação cabe a Polícia Federal, que se prestou a desservir ao País para funcionar como braço armado do golpe em substituição aos tanques de 1964. E cabe à mídia nativa, decisiva na obra de propaganda destinada a empolgar os burguesotes empafiosos e quem os inveja na crença de que bastaria defenestrar Dilma para ser feliz. E não esqueçamos os paneleiros e os marchadores de camiseta canarinho, e os patos da Fiesp e os extasiados rentistas, fiéis do deus mercado.

Se nove ministros são denunciados, como haverá de cumprir sua missão o governo? E todos sabemos que, caso não tivesse sido o indicado pela hipocrisia do golpe, Temer estaria no rol com toda a honra.

E como poderá atuar um Congresso em que a denúncia alcança mais de 20 senadores e mais de 40 deputados? Sem contar que ali em um dos mais imponentes palácios de Niemeyer, hospeda-se uma maioria de merecedores do anátema da deusa vendada.

Não há como duvidar do acerto de inúmeras denúncias, mesmo assim no Brasil Têmis costuma dobrar-se à vontade do mais forte e de caso pensado tira a venda. Mais forte no país medieval é a casa-grande, movida a ódio de classe e inaudita prepotência.

É do conhecimento até do mundo mineral que o primeiro objetivo da Lava Jato, alavanca do golpe, foi alijar Lula da corrida presidencial de 2018 e demolir o partido por ele fundado logo após a reforma eleitoral editada pela ditadura. Aos botões, a pergunta: haverá eleições em 2018? 

CartaCapital passou a profetizar o caos desde a vitória de Dilma em 2014. Raymundo Faoro ensinou-me que o verdadeiro profeta é em verdade mensageiro, sujeito a uma lógica inescapável em lugar de virtudes divinatórias.

A constatação da incompetência e da parvoíce dos golpistas e da credulidade da maioria permitia prever o desfecho. O próprio governo Dilma caiu no jogo ao oferecer contribuição a um fenômeno de autofagia da chamada classe política que encontra escassos paralelos na história do homem. Talvez nenhum.

Desastre anunciado, em suma, precipitado pela aliança entre mafiosos desastrados e fanáticos do apocalipse, a se valerem da tradição de impunidade e da ignorância da plateia, disposta a aceitar, sempre e sempre, a imposição da lei do mais forte.

O único líder popular brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, alvo privilegiado dos milenaristas de Curitiba, é também o único em condições de esclarecer a nação aturdida a respeito das chances futuras em meio a uma situação trágica, conquanto não isenta de aspectos francamente ridículos.

CartaCapital sabe que neste exato instante Lula convoca os envolvidos do PT na lista de Fachin para que exponham suas razões. Por ora, é convicção do ex-presidente de que tudo terá ainda de ser provado, tanto a respeito de adversários quanto de correligionários.

Sabe das falsas acusações atiradas contra ele e admite a possibilidade de que haja muitos outros injustiçados. De todo modo, parece certo que ainda haverá um seu pronunciamento a respeito de um momento de tamanha incerteza.

CartaCapital entende que da sua capacidade de ponderação, do seu faro político e do seu poder de liderança, que o tornam favorito ao próximo pleito, depende em grande parte o comportamento da maioria. Onde está a saída?

A menos traumática, na convocação de eleições no mais curto espaço de tempo possível, de sorte a entregar ao povo a palavra final. Seria da responsabilidade da presidente do STF, a ministra Cármen Lúcia, a convocação eleitoral, a garantir o respeito à Constituição traída. Uma dúvida subsiste: que esperar desta Alta Corte, inerte diante do golpe? 

A outra saída, imaginável agora ao rufar dos tambores da divulgação da lista de Fachin, está na agitação social. Haverá quem fale da “cordialidade” do povo brasileiro, ou da sua tradicional resignação.

A situação, entretanto, é severamente complicada pelo avanço inexorável da recessão, com todas as suas consequências, a começar pelo desemprego em alta. Até quando haverá de funcionar uma tradição a afundar raízes em três séculos e meio de escravidão? Até por isso, o comportamento de Lula é determinante quando afloram sinais de inconformismo popular.

A atitude do ex-presidente terá também notável influência no plano internacional. Na tarde de terça-feira 11, dois advogados de Lula tiveram em Roma uma reunião em uma sala da Câmara italiana com a presença de autoridades, parlamentares e juristas, e expuseram com clareza a situação do País e do seu representado, acusado sem provas pelos promotores curitibanos.

Convincentes aos ouvidos dos presentes, não conseguiram registro na mídia. A Itália e a Europa também vivem uma crise enquanto as bombas do terrorismo explodem em todo canto e a cada hora. Só a presença de Lula pode tornar a situação do Brasil e do ex-presidente um caso internacional.

A despeito do golpe e de seus resultados, o Brasil tem enorme peso político e econômico no cenário mundial. Perdeu o papel de protagonista que já exerceu, bastaria pouco para retomá-lo, a partir de um raide europeu do próprio Lula para levar o mundo a compreender a dimensão de uma crise que também o atinge.