Número 948,

Sociedade

Cinema

"Martírio": a democracia para os índios nunca chega

por Pedro Alexandre Sanches — publicado 28/04/2017 00h31, última modificação 27/04/2017 13h33
Documentário mostra a resistência Guarani Kaiowá ao longo do tempo
Cacá Bernardes
Martírio Divulgação.jpg

Os indígenas de Mato Grosso do Sul pintados e vestidos para a guerra no filme de Vicent Carelli

Os índios são à prova de golpe. O estado de exceção é a nossa praia”, costuma dizer o líder indígena Ailton Krenak, quando indagado a respeito do impacto do golpe de 2016 sobre os povos originários da Ilha de Vera Cruz. Centrado na luta sem trégua dos índios Guarani Kaiowá de Mato Grosso do Sul, o documentário Martírio, dirigido pelo antropólogo, indigenista e cineasta franco-brasileiro Vincent Carelli, foi finalizado em contexto ainda democrático, mas está em cartaz agora, num Brasil ainda mais sombrio que o de um ano atrás, quando Dilma Rousseff foi apeada da Presidência da República.

“A democracia para os índios nunca chega. É isso que Ailton quer dizer”, afirma Carelli, também responsável pelo projeto Vídeo nas Aldeias, crucial na empreitada de revelar aos indígenas que eles têm o direito da autoexpressão. “Mas tudo piora muito em tempos de ditadura, de golpe, de abuso de autoridade, de partidarismo no Judiciário. Acho que neste momento todos nós somos índios no Brasil”, afirma o diretor, que desde 1988 acompanha com câmera em punho as vicissitudes dos guarani kaiowá.

Martírio tem causado comoção e vencido prêmios (quase sempre de público, quase nunca de crítica) pelos festivais por que passa. No fim do ano passado, foi esquecido pela curadoria da 11a Mostra Cinema e Direitos Humanos, sob o guarda-chuva do Ministério da Justiça de Michel Temer. “Acho que quem fez a seleção tirou o Martírio para não ser demitido”, ironiza Carelli.

O filme flagra indígenas a gritar “assassina” para Dilma e as falas genocidas da ruralista e (então) futura ministra da Agricultura Kátia Abreu. Hoje, o diretor descreve a mão de Temer sobre a causa indígena: “Há um desmantelamento da Funai, foram demitidos mais de 300 funcionários. Tem um militar lá. A gente voltou ao militarismo para tratar dos assuntos dos índios. Tem um pastor evangélico na presidência da Funai e um ministro ruralista na Justiça, o Osmar Serraglio. E a gente faz o quê?”

O nome para o avanço possível num oceano de retrocessos é Martírio. “Um dos grandes sucessos do filme é que as pessoas ficam impressionadas de ver uma narrativa de história do Brasil que não é nada do que aprenderam na escola”, comemora o diretor. E nossa identidade indígena é convocada, mais uma vez, a se mostrar à prova de golpes.