Número 948,

Política

Entrevista

Bresser-Pereira e a tentativa de erguer uma nação dos escombros

por Redação — publicado 17/04/2017 00h30, última modificação 17/04/2017 09h04
O economista e ex-ministro explica o objetivo de seu manifesto por um projeto de desenvolvimento econômico, político, social e ambiental
Arquivo/Marcos Mendez
Luiz Carlos Bresser-Pereira

'O que queremos? Um Brasil que volte a ser uma nação e tenha um projeto de desenvolvimento'

As reuniões aconteceram ao redor de uma sólida mesa de madeira de 6 metros de comprimento por 1,5 metro de largura numa ampla sala na zona oeste de São Paulo. Na coordenação, o ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira. No centro dos debates, a questão nacional.

Ao longo dos últimos meses, economistas, empresários, advogados, sociólogos, embaixadores, artistas e políticos discutiram a dramática situação do País e propostas para a retomada do crescimento consistente, com inclusão e independência. Das conversas nasceu o manifesto Projeto Brasil Nação. “Três substantivos unidos que dizem bem o que queremos: um Brasil que volte a ser uma nação e tenha um projeto de desenvolvimento econômico, político, social e ambiental”, afirma Bresser-Pereira na entrevista a seguir.

O País, aponta o documento (disponível ao fim do texto), enfrenta um desmonte, com desnacionalização, sufocamento da indústria e destruição de direitos. Em poucos dias, o manifesto, disponível no site www.bresserpereira.org.br, obteve mais de 150 adesões. Entre os signatários, o ex-chanceler Celso Amorim, o escritor Raduan Nassar, o cantor Chico Buarque, o engenheiro Mario Bernardini e o ator Wagner Moura.

CartaCapital: Como surgiu o movimento Projeto Brasil Nação?
Luiz Carlos Bresser-Pereira: O movimento nasceu de uma iniciativa da jornalista Eleonora de Lucena, que foi editora-executiva da Folha de S.Paulo por muitos anos. Ela me procurou em dezembro e manifestou sua preocupação com o que tem acontecido com o Brasil. E lembrou a imensa leitura que alcançou a minha entrevista, feita por ela em fevereiro de 2015, na Folha, na qual eu dizia que o País estava tomado pelo ódio.

Concordei com ela, e disse que deveríamos iniciar um movimento político para devolver ao Brasil a ideia de nação. Hoje, em vez de uma nação coesa em busca da democracia e da justiça social, como éramos nos anos 1980, somos uma sociedade dividida, na qual um governo nascido de um golpe parlamentar tenta impor ao povo uma política liberal radical. Hoje, em vez de uma economia que cresce fortemente a uma taxa superior a 4 % ao ano, somos desde 1980 uma economia semiestagnada, crescendo menos de 1%.

CC: E essa situação nos coloca em que patamar?
LCBP: Estamos diante de uma crise econômica de longo prazo, agravada pela descoberta de um amplo esquema de corrupção envolvendo empresas, políticos, lobistas e funcionários de empresas estatais. Diante de uma crise moral e política que abriu espaço para um liberalismo radical moralista,  como nunca havia visto. Uma verdadeira luta de classes de cima para baixo. Dado esse diagnóstico geral, realizamos uma série de reuniões para redigir o manifesto que agora estamos tornando público.

CC: Qual o objetivo do texto?
LCBP: O manifesto visa lançar o movimento Projeto Brasil Nação, três substantivos unidos que dizem bem o que queremos: um Brasil que volte a ser uma nação e tenha um projeto de desenvolvimento econômico, político, social e ambiental. A nação brasileira foi forte e soberana pela última vez nos anos 1980, quando nos unimos para realizar a transição democrática e aprovar uma bela Constituição. Em seguida, começou a divisão, pois os liberais a viram como excessivamente social, envolvendo uma carga tributária alta demais, e porque boa parte dos brasileiros perdeu a ideia de nação diante da hegemonia ideológica do liberalismo internacional.

CC: Qual a consequência?
LCBP: O Brasil, desde 1990, por meio da abertura comercial, da abertura financeira, das privatizações de monopólios públicos e de uma política de altos juros e câmbio apreciado crônica e ciclicamente, passou a ter um regime de política econômica liberal, desindustrializou-se e cresceu a uma taxa per capita equivalente a um quarto da registrada no regime anterior, desenvolvimentista. No período em que o PT esteve no poder (2003-2015), houve tentativas de mudanças, mas fracassaram. Diante desse quadro, entendemos que precisávamos de um documento que não fosse uma simples manifestação de protesto e indignação contra o atual governo nem pretendesse ser um projeto para o Brasil que cobrisse todos os campos. Precisávamos de um documento que enunciasse valores e definisse apenas uma das áreas desse projeto, a econômica.

Daí nasceram os cinco pontos econômicos do projeto: 1. Regra fiscal que não seja mera tentativa de reduzir o tamanho do Estado à força, como é a atual regra; 2. Taxa de juros mais baixa, semelhante àquela de países de igual nível de desenvolvimento; 3. Superávit em conta corrente necessário para que a taxa de câmbio assegure competitividade para as empresas industriais eficientes; 4. Retomada do investimento público; e 5. Reforma tributária que torne os impostos progressivos. Enfim, precisávamos de um programa que fosse uma clara alternativa ao populismo cambial combinado com desrespeito aos direitos sociais. O manifesto define essa alternativa.

CC: Quais os próximos passos?
LCBP: São dois: obter pela internet um grande número de assinaturas para o documento. E conversarmos com os partidos políticos e movimentos sociais que estiverem interessados em esclarecer e aprofundar as questões e as políticas descritas no manifesto. É importante assinalar que o movimento Projeto Brasil Nação não é partidário nem pretende ter a chave para todas as questões. É um movimento de cidadãos que quer mostrar que existe uma alternativa para o Brasil, uma alternativa que poderá unir trabalhadores, empresários e classe média em torno das ideias de nação, desenvolvimento econômico, diminuição das desigualdades e proteção do ambiente.