Número 948,

Internacional

Síria

Assad, Trump e a (i)lógica dos mísseis

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 23/04/2017 00h13, última modificação 20/04/2017 12h09
É tão difícil entender o ataque químico atribuído à Síria quanto a política internacional da Casa Branca
U.S. Navy Photographer
a ilógica dos misseis

Suposta punição pelo uso de armas químicas, o disparo dos mísseis Tomahawk destruiu alguns aviões na base de Sheyrat, mas não aponta para nenhuma solução

Continua um mistério não devidamente investigado o aparente bombardeio com armas químicas de Khan Sheikhoun, cidade síria de 50 mil habitantes. O ataque, no qual teriam morrido pelo menos 74 civis (fala-se em até 100), não faz sentido do ponto de vista militar e muito menos do político. A ideia difundida na mídia de que Bashar al-Assad quis intimidar os rebeldes mostrando-lhes que estavam à sua mercê não tem lógica. A cidade e a região ao seu redor são controladas pela Al-Qaeda, cujos fanáticos não se impressionariam com isso.

Supostamente, todo o arsenal químico da Síria fora desmantelado sob a supervisão da ONU, e em 2013-2015. Pode-se imaginar que os militares sírios tenham ocultado uma reserva para uma eventual situação desesperada. Mas não era uma batalha decisiva, o alvo não era particularmente importante e a posição política do regime sírio fora muito reforçada pela vitória em Alepo e pelo apoio russo.

Apenas três dias antes, Donald Trump declarara que derrubá-lo não era mais um dos objetivos dos Estados Unidos. Por que, nessas circunstâncias, Assad permitiria a seus militares perpetrar praticamente o único ato capaz de justificar politicamente uma intervenção das potências ocidentais? Se os russos sabiam e o ajudaram, como alega o governo dos EUA, tudo fica ainda mais absurdo.

Especular é inútil e esperar por um inquérito imparcial é perda de tempo.  Talvez algum dia a verdade venha à tona, mas por ora é preciso satisfazer-se com descrever e analisar as consequências. Até agora, a resposta do governo Trump foi rápida e brutal, mas comedida. Não parece haver a intenção de usar o caso como pretexto para um bombardeio generalizado ou uma invasão, como fez George W.

Bush no Iraque e fizeram Barack Obama e Hillary Clinton na Líbia. Se a narrativa ocidental sobre o bombardeio sírio é verdadeira, retaliar a base aérea da qual o mesmo partiu pareceria, em princípio, uma resposta razoável e proporcional a uma ação contrária às convenções de guerra.

Entretanto, não estamos no campo da moralidade nem se queira crer que Trump agiu por uma “reação visceral” aos vídeos de Khan Sheikhoun. Do ponto de vista da política interna dos EUA, a ação tem significado pragmático e foi, ao menos a curto prazo, bem-sucedida, mesmo se tem custos para além dos pelo menos 94 milhões de dólares gastos com os 59 mísseis Tomahawk que partiram de dois destróieres rumo à base de Sheyrat. Segundo os russos, apenas 23 atingiram o alvo. Outros atingiram três aldeias vizinhas nas quais morreram nove civis, inclusive cinco crianças, além dos sete a nove militares mortos na base.

O ataque à Síria foi instantaneamente festejado tanto pelos neoconservadores republicanos quanto pelos liberais clintonianos, unidos na convicção de que os EUA têm a prerrogativa de derrubar os regimes que não lhe convêm por quaisquer pretextos enquanto minimiza ou ignora suas próprias barbaridades, bem como as cometidas por seus aliados. Como a Arábia Saudita no Iêmen, para citar um exemplo atual e gritante na mesma região.

Muitos jornalistas, que passaram os primeiros dois meses do governo Trump ridicularizando merecidamente as atitudes do presidente ignorante e autoritário, apaixonaram-se pelo senhor da guerra. “Trump tornou-se o presidente dos Estados Unidos na noite passada”, louvou o âncora da CNN Fareed Zakaria, sem ser o único. O rufar dos tambores raramente falha em unir as elites dos EUA, embora os resultados trágicos da guerra real acabem por dividi-las a médio prazo.

O momento não podia ser mais oportuno, dias após a derrota humilhante de Trump na tentativa de fazer aprovar sua reforma do Obamacare em seu próprio partido e a queda do apoio popular para menos de 40%. Além disso, Trump silenciou, ou pelo menos confundiu a narrativa segundo a qual ele seria uma marionete do Kremlin, exceto para a teoria da conspiração do âncora da MSNBC Lawrence O’Donnell, para o qual foi tudo uma distração orquestrada por Vladimir Putin. Do ponto de vista da política interna, o maior contratempo foi alienar a “Alt-Right”.

A direita mais racista, nacionalista e isolacionista, cujo papel na ascensão de Trump foi vital, sente-se traída. Não só a ação contraria o lema “America First” ao retaliar um ataque sírio que não afetou interesses dos EUA, como na véspera fora afastado do Conselho de Segurança Nacional o porta-voz da “Alt-Right” no governo Trump, o estrategista-chefe Steve Bannon, e restauradas as posições dos chefes do Estado-Maior e da Inteligência. Reverteu-se a controvertida decisão de 29 de janeiro, ao mesmo tempo que o primeiro-genro, marido da assistente pessoal do presidente e assessor-chefe Jared Kushner visitava o Iraque na companhia do chefe do Estado-Maior, general Joseph Dunford.

Mísseis
Ataque químico causou horror (Foto: Amnar Abdullah/Reuters/Zuma Press/Fotoarena)

A interpretação da ultradireita é de que Kushner, com apoio do Pentágono e sob a ameaça do FBI de expor mais conexões entre a campanha de Trump e o Kremlin, venceu a queda de braço com Bannon e convenceu o presidente a marginalizar seu ideólogo e fazer as pazes com o “Estado profundo” (o aparelho militar e de inteligência) e o establishment republicano.

Parece plausível, com a ressalva de a falta de princípios e de compromissos claros do presidente tornarem perfeitamente possível uma reviravolta no sentido oposto, caso isso lhe pareça conveniente. Por ora, a reação do Breitbart News e seus seguidores é atacar Kushner e por tabela o seu judaísmo, expondo um antissemitismo antes parcialmente represado.

As consequências na frente externa são mais complicadas. Militarmente, o ataque teve poucos efeitos práticos, além de aliviar momentaneamente a pressão sobre a Al-Qaeda na região. Em 24 horas a pista bombardeada voltou a operar e houve novos ataques a Khan Sheikhoun, desta vez com bombas convencionais.

Os EUA alegaram ter destruído 20% do poderio aéreo sírio, mas é provavelmente um exagero. A Síria tinha 200 a 300 aviões de combate e o ataque teria destruído 20 aviões, segundo o Pentágono, ou 6, segundo a Rússia, previamente avisada. De qualquer forma, mais decisivo é o poder aéreo russo na região.

Do ponto de vista da diplomacia e da manutenção ou reconstrução da ordem internacional, a ação de Trump é cheia de som e fúria e significa nada, como diria William Shakespeare. The Guardian apontou que em duas semanas ele formulou cinco políticas diferentes: 1. Assad pode permanecer (até dia 4 de abril). 2. Assad precisa sair (dias 5 e 6). 3. O problema são as armas químicas, não Assad (dias 6 a 10). 4. A prioridade é o Estado Islâmico, depois negociaremos com a Rússia sobre Assad (dia 9). E 5. Os EUA responderão se Assad voltar a usar armas químicas ou bombas-barris (antes usadas rotineiramente sem provocar reação).

O chanceler britânico Boris Johnson cancelou uma viagem à Rússia para ir à reunião do G-7 em Taormina e tentar convencer seus pares a se comprometer com novas sanções à Rússia, sem sucesso. Embora os aliados europeus da Otan (ao contrário da maioria dos países menos comprometidos, inclusive o Brasil) tenham aprovado o ataque de Trump, pedem um inquérito antes de mais iniciativas, como, aliás, também Moscou e Teerã.

Na terça-feira 11, o secretário de Estado Rex Tillerson aparentemente apresentou uma sexta política sobre a Síria: a Rússia tem de escolher entre estar ao lado dos EUA e aliados ou apoiar Assad, o Irã e o Hezbollah.

Como ultimato, é fútil: a Rússia escolheu seu lado em 2015, ao intervir para salvar o regime de Damasco do colapso iminente, se não em 2011, quando ficou ao seu lado na guerra civil, antes mesmo de a intervenção russa na Ucrânia e a anexação da Crimeia voltarem a pôr Ocidente e a Rússia em pé de guerra e iniciar a escalada das sanções. Desde a quinta-feira 6, o Kremlin subiu a aposta, prometeu reforçar as defesas aéreas da Síria e do Irã e acusou os EUA de forjar ataques químicos.

Ainda que esteja começando a se envolver na guerra civil líbia com a expectativa de voltar a se firmar no país, o Kremlin tem hoje na Síria seu único aliado e sua única base no Mediterrâneo e nenhum motivo para confiar na Otan, cuja razão de ser e objetivo de longo prazo continua a ser a neutralização do poder russo.

No mínimo, ao se manter coerente na defesa de seus aliados apesar das pressões ocidentais, Putin reforça seu prestígio na região – o que já o fez ganhar o respeito, no mínimo, do Iraque, da Turquia e de Israel – e contrasta com a confusa e imprevisível política de Washington. A disposição de lançar alguns mísseis para ganho político imediato não se confunde com a de enviar tropas em grande quantidade e assumir os riscos e custos de uma intervenção de grandes proporções.

O mesmo se aplica à Coreia do Norte, para a qual o bombardeio da Síria também foi um “recado”, segundo o secretário Tillerson, seguido do envio às suas costas de uma força-tarefa capitaneada pelo porta-aviões Carl Vinson.

Os EUA talvez aproveitem o esfriamento de relações entre Pyongyang e Pequim desde o assassinato de Kim Jong-nam para atacar instalações nucleares ou bases de mísseis norte-coreanas, mas à parte o risco de espalhar radioatividade, quais seriam as consequências? Nem os EUA nem a Coreia do Sul querem invadir e ocupar o Norte. O resultado de tal ataque seria ou fechar o regime ainda mais em torno de Kim Jong-un, ou substituí-lo por um líder mais simpático a Pequim, cujo prestígio e influência na região crescerão. Reações pontuais e imprevisíveis não sustentam um império.