Número 948,

Cultura

Entrevista - Russo Passapusso

"A arte dá possibilidades de construir opinião livre do medo"

por Jotabê Medeiros — publicado 29/04/2017 00h16, última modificação 02/05/2017 16h57
O vocalista da banda BaianaSystem afirma que suas manifestações políticas são naturais e nunca foram pautadas pelo medo
Jardel Souza
Russo Passupusso

Russo Papapusso: “A cultura é a melhor saída”

Responsável por puxar o maior coro de Fora Temer do Carnaval de 2017, o vocalista da banda Baiana System, Russo Papapusso, não é um homem de slogans, mas de significados. “As coisas precisam ter sentido. (É preciso) que o público tenha discernimento para compreender as coisas”, diz o músico.

Maior revelação da música brasileira dos últimos dois anos, os coros do público são uma de suas particularidades, o que levou o Conselho Municipal do Carnaval de Salvador, no dia 24 de fevereiro, a pensar em proibir sua manifestação política. A banda repetiria a regência anti-Temer no Festival Lollapalooza, em São Paulo, num show de grande repercussão. Papapusso falou a CartaCapital.

CartaCapital: Como artista, você demonstrou ousadia política se colocando contrário à permanência deste governo que está aí. Gostaria de saber se essa manifestação (a do Carnaval e a do Lollapalooza) teve uma análise dos riscos, se teme macarthismo ou perseguição política?

Russo Papapusso: Não parei pra analisar riscos, a arte está em todos os lugares, ela sensibiliza e nos dá possibilidades de construir uma opinião livre do medo. Não há prisioneiros. As minhas manifestações são naturais, somos instrumentos da música num diálogo que mistura o espiritual e o social com muito respeito.

Nos dias de hoje, a partir do momento em que você assume uma postura, é muito importante não alimentar a intolerância. As ruas estão cheias de motivos pra fazer você perder a razão, a crença, e rapidamente se transformar naquilo que você mesmo critica. Nesse cenário, música é cura.

CC: Dentro do atual quadro político e social, qual você acredita que deva ser a melhor saída para a volta do País à normalidade?

RP: Pra mim, cultura é a melhor saída. Não acredito muito no conceito de normalidade.

CC: Como banda que reconectou a Bahia com a inquietação musical e a pesquisa, como você analisa a música comercial baiana e brasileira e sua inserção neste mundo? Você acha que a música tem uma finalidade além do entretenimento?

RP: Não consigo fazer análise como banda, o Baiana System é um convívio de diferentes, um quebra-cabeça. Sobre reconectar a Bahia, acho que estamos bem longe dessa inquietação e pesquisa desejada. O que existe é uma batalha constante pra dialogar e mostrar o valor da tradição cultural para o mercado.

CC: Você tem expectativas a respeito dos julgamentos de qualidade estética?

RP: Se tenho alguma esperança? Na minha opinião ela está nos ouvidos das pessoas que têm aceitado novos caminhos, novos aprendizados, e buscam informações, expressões, diálogos nos quais elas tenham a permissão de construir e desconstruir; piratear. No mundo de hoje, com tantas ferramentas, usá-las virou uma espécie de lei. A música tem todas as finalidades, e nela carregamos nossas mudanças, injúrias, esperanças, crenças, amores, dores, fé, força; tudo que podemos lembrar sobre nossa existência. Com ou sem entretenimento.