Número 947,

Cultura

Brasiliana

Os saltimbancos da Banda dos Seguranças do Metrô

por Fábio Fujita — publicado 19/04/2017 00h30, última modificação 18/04/2017 18h15
Com covers que vão de Metallica a Sorriso Maroto, grupo faz sucesso nas estações de São Paulo
Fabio Fujita
Vocalista Costa Lima

O carisma do vocalista Costa Lima contagia o público

Antes que alguém da plateia comece a pedir, o vocalista toma a iniciativa e, ao fim da segunda canção, pergunta como se não soubesse a resposta: “Vocês querem que a gente toque Raul?” O sim coletivo reverbera com estrondo, preâmbulo para os inconfundíveis acordes de Metamorfose Ambulante. A animação é geral.

Estamos na estação Corinthians-Itaquera do metrô de São Paulo, horário de rush, pouco depois das 6 da tarde. Não se trata de artistas de rua improvisando música por trocados e dando trabalho aos seguranças. Longe disso. Há seis anos, alguns dos próprios seguranças formaram uma banda e, de quando em quando, dão uma pausa na rotina diária para mostrar aos usuários seus talentos musicais, em covers que vão de Metallica a Sorriso Maroto, de Andrea Bocelli a Luan Santana.

A trajetória da Banda dos Seguranças do Metrô, vulgo BSM, começou em 2011, quando três integrantes do atual grupo – Ivan Costa Lima (vocalista), Lucivaldo Araújo (trombonista e regente) e Claudinei Cipriano (tecladista) – se dispuseram a participar de uma ação social estimulada pelo próprio Metrô com uma instituição de portadores de hanseníase.

Em princípio, o objetivo era fazer uma doação de mantimentos, remédios e curativos que os próprios tinham previamente arrecadado. Mas como os três eram ligados à música, nasceu a ideia de agitar a visita com um pequeno show. “A gente se reuniu na casa de um e ensaiou duas horinhas. Nunca tínhamos cantado juntos”, recorda Costa Lima.

Pouco depois, a trinca foi convidada a fechar um evento institucional do Metrô sobre planos de segurança para a Copa do Mundo de 2014. Para a ocasião, outros seguranças-músicos foram recrutados: Wagner Jr. (cavaquinho, violão e voz), Henrique Nunes (contrabaixo), Adolpho Ramos (percussão), Geverton Silva (saxofone), Marcos José (guitarra e violão), Silvio Morassi (guitarra) e Fábio Ferreira (bateria). Os elogios à performance levaram a direção do Metrô a agendar uma primeira apresentação pública do grupo em 12 de fevereiro de 2012, na estação Sé, coração da rede. Êxito instantâneo.

Egresso da música gospel, o vocalista Costa Lima sabe conduzir a plateia como um astro pop. No primeiro show de 2017, em março, meio por brincadeira, meio a sério, ele aproveitava o frisson geral após cantar Tem Que Ser Você, dos sertanejos Victor & Léo, para lembrar ao público: “Somos seguranças do metrô. Então: mochila na frente do corpo. A faixa amarela é para sua segurança”. Aplausos e risos.

O saxofonista Geverton Silva e o baterista Fabio Ferreira
O saxofonista Geverton Silva e o baterista Fabio Ferreira cercados por fãs ao fim da apresentação (Fabio Fujita)

As músicas sucedem-se. Costa Lima demonstra impressionante elasticidade vocal ao afinar seus agudos e entoar a ópera italiana Con Te Partirò, com a qual protagoniza uma catarse coletiva. À canção erudita somam-se outras menos históricas. “Vamos mandar uma de ‘sofrência’ agora. Vai ser uma choradeira doída”, anuncia o vocalista antes de começar a cantar Eu Sei de Cor, de Marília Mendonça, detonando uma nova onda de gritos histéricos. Certa vez, uma fã mais impetuosa chegou a pedir o vocalista em casamento.

Com uma média de dez apresentações por ano pelas estações, e público rotativo em torno de 2 mil espectadores, a BSM conseguiu reunir uma legião de admiradores. Marli Rodrigues, Aline Rita e Valéria Thiem administram um fã-clube online, cuja página no Facebook tem 17 mil curtidas. “O que mais gosto neles é que não ficam num só gênero. E, tirando funk, eu gosto de tudo”, diz Aline. Desde que os descobriu há dois anos, quando passava por uma estação, garante só ter perdido um único show. “Estava doente no dia.” Marli chegou a viajar a Ilhabela, litoral paulista, quando os seguranças foram convidados a tocar num aniversário da cidade.

Um episódio marcou profundamente os integrantes da BSM nesses anos de apresentação. Certa vez, uma moça com problemas depressivos estava determinada a se matar. Até ouvir em uma estação um cover dos seguranças de Bridge Over Troubled Water, de Simon & Garfunkel. Um trecho da letra diz: Quando você está para baixo e sem rumo, quando você está na rua, quando a noite cai tão dura, eu vou lhe confortar. Parecia um recado do destino, e aquilo a fez mudar de ideia. “Ela nos procurou na apresentação seguinte, vestindo uma camiseta com a nossa foto, e nos contou o efeito da música sobre sua vida. Disse jamais imaginar que os seguranças pudessem passar uma mensagem positiva”, relembra o percussionista Adolpho Ramos. Se salvar vidas está entre as funções principais dos seguranças, a contribuição da música, pelo visto, tem sido certeira.