Número 947,

Cultura

Música

Cátia de França: a bruxa está solta

por Pedro Alexandre Sanchez — publicado 18/04/2017 00h30, última modificação 17/04/2017 17h04
A compositora paraibana, apadrinhada e produzida pelo conterrâneo Zé Ramalho, volta a disseminar sua poesia agreste
Mariana Kreischer
Cátia de França

Aos 70 anos, a ex-sanfoneira do Zé Ramalho reapresenta uma visão original de mundo em disco e show

Por onde anda Cátia de França? A artista paraibana revelou-se ao Brasil em 1979, apadrinhada e produzida pelo conterrâneo Zé Ramalho, num disco uterino chamado 20 Palavras ao Redor do Sol. Depois, foi-se distanciando do olho do Grande Irmão até se tornar quase invisível, quase inaudível.

Voltou a trazer notícias de si agora, no Sesc Belenzinho de São Pulo em releitura do álbum de 38 anos atrás, de peças históricas como Kukukaya, Sustenta a Pisada, Coito das Araras e Eu Vou Pegar o Metrô.

“Foi esse disco que me segurou esse tempo todo num país que esnoba as coisas que faço”, disse Cátia, após atender uma fila de admiradores, vários com cópias gastas dos antigos elepês da trovadora nas mãos. “A minha criação não interessa à mídia burra. Foi a internet que me eternizou.”

No palco, Cátia conta à audiência que ela e Zé Ramalho estão “meio estranhos um com o outro há muitos anos”. Por onde anda aquela camaradagem, Cátia? “Menino, é uma coisa tão delicada”, diz, antes de contar (leia e veja a entrevista em www.farofafa.cartacapital.com.br). Hoje apaixonada por outro instrumento (“sou quase um centauro, metade mulher, metade violão”), começou sanfoneira do bardo paraibano, “num universo estritamente masculino, como futebol”.

Agreste, negra, indígena, árabe, judia, cigana e bruxa, mora hoje em Lumiar, na Região Serrana. O lugar de atmosfera mística lhe propiciou a inclusão digital e a coloca no coração do jogo da asa da bruxa.

“O povo criou uma crendice de que bruxa é do mal. Não. Tudo tem sempre as duas faces”, diz a amiga de bruxas da Wicca, mariposas e outras figuras femininas amedrontadoras. Diz-se “profundamente incomodada” pela derrubada de Dilma. “Mataram dona Marisa. Disseram: ‘Deixa ela morrer mesmo’. Quem já viu um cara que fez um juramento dizer isso? É muita nojeira.”

Mesmo sob intempéries, Cátia está produtiva na maturidade. Após 11 anos, com suporte da Natura Musical, lançou o CD inédito Hóspede da Natureza, um tratado de sabedoria. É cada batalha que eu ganho/ no risco que não tem tamanho, desafia o banal em Minha Vida É uma Rede.