Número 946,

Política

Opinião

Temer, herdeiro de FHC

por Mauricio Dias publicado 01/04/2017 00h50, última modificação 31/03/2017 13h26
O presidente do golpe reedita os propósitos fracassados do ex-presidente. Nos planos de um e outro, o povo não sobrevive
Beto Barata/PR
FHC

Michel Temer herdou as pedras que FHC não conseguiu afastar do caminho

Para alcançar a Presidência da República, em maio de 2016, o então vice-presidente Michel Temer, além de participar do golpe contra Dilma Rousseff, assumiu a incumbência, derivada dos influentes aliados, de aprovar uma agenda com tarefas duríssimas a serem adotadas pelo governo. Trato feito.

Em atenção ao acordo do golpe, Temer botou sob a mira as reformas da Previdência Social, a Consolidação das Leis do Trabalho e um freio no aumento do salário mínimo, entre outras coisas.

Ele tentou, apesar de tudo, aparecer como benfeitor dos trabalhadores. Já é visto, no entanto, como algoz. Ninguém tapa o sol com peneira.

Em reação às propostas de Temer, reuniu-se também a oposição. Além dela, fora dos limites do Congresso, as instituições sociais também começam a se movimentar. Além da aliança das centrais sindicais, com greve geral marcada para o dia 28 de abril, a Igreja Católica saiu da letargia.

Dom Celso Antônio Marchiori, bispo da Diocese de Apucarana, protestou duramente contra a proposta de reforma da Presidência. Para ele, “injusta, desigual, cruel”, voltada contra os pobres.

“Nela não estão compreendidos os militares, os políticos, os altos escalões do Judiciário, do Ministério Público”, percebeu o bispo.

Temer fez um ataque imediato a direitos adquiridos e iniciou a escalada de entrega de parte da Petrobras, do pré-sal e dos leilões das privatizações. São pretensões antigas para as quais há explicações.

Uma delas e, talvez, a mais expressiva está embutida em frase curta e grossa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, afirmada após o afastamento definitivo de Dilma. Ele definiu assim o papel de Michel Temer: “Ele tem missão a cumprir”.

FHC, como presidente, tentou também cumprir essa tarefa.

Na euforia do primeiro governo dele, anunciou que iria acabar com a “Era Vargas”. Prometeu pôr fim, segundo ele, em um “um pedaço” do passado político do País com força para atravancar o presente e retardar o avanço social. É um modelo “autárquico e intervencionista”, sugeriu o ex-príncipe da sociologia brasileira.

Assim FHC anunciou seus rumos. Não foi longe. Naufragou na ponta do iceberg neoliberal. Não cumpriu a missão. Tentou. Fez estragos. Agora virou intérprete. Michel Temer fará a segunda tentativa. Um novo algoz com maiores problemas.

Herdou as pedras que FHC não conseguiu afastar do caminho, e, além de não ter votos, enfrenta o ex-presidente Lula, surgido na trilha do ex-presidente Vargas.

Temer, mesmo assim, espera acabar com a impopularidade que o incomoda. Compreensível até este ponto. Ninguém gosta de ser vaiado.

Dando crédito e tempo ao remédio adotado por ele, o Brasil pode até sobreviver. O povo, não.