Número 946,

Internacional

Internacional

Nos EUA, a direita está de ressaca

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 14/04/2017 00h01, última modificação 13/04/2017 13h03
A derrota da tentativa de derrubar o Obamacare mostra ser possível pôr limites à ofensiva da ultradireita
Mandel Ngan/AFP
Trump

Passados dois meses da bebedeira da posse de Donald Trump, xenófobos reacionários acordam indispostos do sonho de estar surfando uma onda prestes a engolir o mundo. Em vez de impulsionar os similares europeus, o início do seu governo parece contribuir para inspirar os eleitores do outro lado do Atlântico a pensar duas vezes e ter mais cautela com as cédulas eleitorais. Nos próprios Estados Unidos, o Partido Republicano começa a recear um desastre nas próximas eleições.

A popularidade de Trump, fraca desde o início, teve piora significativa. Não conseguiu a maioria do voto popular, foi eleito graças às distorções do Colégio Eleitoral e, pela primeira vez, desde o início dessas pesquisas com Harry Truman em 1945, um presidente tem desaprovação substancialmente maior do que a aprovação (56% a 36%, segundo o Gallup) antes de completar cem dias no governo.

Mas não só rejeita esses dados com acusações vazias de fraude eleitoral e falsificação das pesquisas como age como se acreditasse ser mesmo respaldado pela grande maioria. É como dirigir na estrada a toda velocidade sem acreditar na sinalização. Os choques com a realidade podem ser catastróficos.

A mais dolorosa dessas trombadas, até agora, foi a rejeição da sua proposta de reformular o sistema de saúde criado pelo governo anterior, o Obamacare. A mudança aumentaria o custo para os mais pobres e mais idosos a ponto de torná-lo proibitivo para milhões para favorecer os seguradores e as classes médias superiores. Mesmo no atual clima de polarização política em que praticamente qualquer proposta respaldada por um dos grandes partidos pode conseguir pelo menos 45% de apoio popular, essa não passava de 17%.

Ainda assim, seria aprovada se a bancada republicana da Câmara tivesse coerência. Passou a maior parte do governo Barack Obama tentando revogar a medida social mais importante do seu governo e a rejeitou em nada menos de 67 votações, todas barradas ou derrubadas no Senado (e sujeitas ao veto de Obama, caso fossem ali aprovadas). Agora que o partido detém ambas as casas do Congresso e a Presidência, não pôde repetir a façanha.

Bastariam 215 votos e o Partido Republicano tem 237 cadeiras, mas a facção mais ideológica do Tea Party, entre 28 e 35 deputados com bases radicalizadas e mais interessadas em rigor ideológico do que em resultados práticos, recusou a “meia medida”: ou revogação completa ou nada.

Ao mesmo tempo, seus companheiros de partido moderados estavam conscientes da impopularidade do “Trumpcare” entre suas bases empobrecidas e envelhecidas e se agarraram a essa desculpa para deixar como está. Para evitar a humilhação da derrota, o presidente da Câmara, Paul Ryan, retirou o projeto e disse aos jornalistas que os EUA continuarão a conviver com o Obamacare “dentro do futuro previsível”.

As tentativas de mobilizar manifestações populares em apoio ao governo tiveram resultados pífios. Trump responsabilizou os democratas pela derrota – o equivalente a Felipão culpar a Alemanha pelo 7 a 1 – e advertiu pelo Twitter que o Obamacare vai “explodir”, sinalizando uma disposição para sabotar o funcionamento e o financiamento do sistema que pode ser tão ruim para as seguradoras quanto para os segurados.

Antes disso implodiu a ingênua fé do mercado na capacidade de Trump de concretizar seus planos aparentemente sedutores para o mercado financeiro. Se no início do seu governo, no auge do poder e da coesão partidária e com maioria nas duas casas, ele não consegue aprovar uma prioridade legislativa que supostamente atendia a uma aspiração republicana de anos, como será daqui para a frente? As bolsas interromperam a escalada e levaram um tombo.

Até a mera autorização para aumentar a dívida pública, indispensável para o funcionamento normal do governo depois de 28 de abril, está ameaçada. Trump quer 30 bilhões de dólares para usar até setembro, aplicar recursos de emergência no Pentágono e no muro na fronteira mexicana e cortar 18 bilhões em gastos civis.

Como no caso do Obamacare, os democratas são contrários em peso e os republicanos estão divididos: moderados rejeitam os cortes em programas públicos e o muro. Tudo indica que Trump terá de se arranjar sem grandes mudanças para não ter seu governo paralisado, como aconteceu por duas semanas com o governo Obama em 2013. “A Arte da Negociação” de Trump, tão alardeada na campanha, começa a parecer pura bravata. O que esperar dos planos de reforma tributária, gastos armamentistas e reconstrução da infraestrutura?

A liberdade de ação do governo, além disso, começa a ser seriamente limitada pela investigação sobre as conexões de sua campanha com a Rússia. Exageros à parte, a frequência de contatos confidenciais entre representantes do Kremlin e seu pessoal, inclusive o genro Jared Kushner, sugere trocas de informações, favores ou compromissos com um governo estrangeiro em um grau temerário para um candidato ou mesmo presidente eleito, talvez mesmo ilegal.

Mesmo sem vir à luz algo obviamente capaz de justificar um impeachment, Trump pode ser forçado a afastar muitos dos assessores nos quais mais confia, como fez com o general Michael Flynn, e se submeter à tutela de políticos mais convencionais. A menos que um evento inesperado faça por Trump algo parecido ao que o 11 de Setembro fez por Bush júnior, ele terá de baixar suas expectativas sobre fazer gato e sapato do sistema político.

Isso pode impedir Vladimir Putin de colher alguns dos frutos esperados da vitória de seu admirador em Washington, mas por ora não tem razões para reclamar. Trump dificilmente aumentará os gastos militares como desejaria, mas prejudica a reputação dos EUA no Oriente Médio com políticas confusas e ações militares imprudentes e talvez ainda mais na Europa, ao tentar abertamente sabotar a União Europeia e fragilizar a Otan ao ameaçar retirar suas tropas se não for pago para mantê-las.

Vladimir Putin
Sergei Karpukhin/AFP

Segundo um ministro alemão, Trump chegou ao ridículo de aproveitar a visita de Angela Merkel para apresentar-lhe uma “fatura” de 376 bilhões de dólares por 15 anos de proteção, mais juros. Sem ter certeza de contar com os EUA, os países da Europa Oriental perderão a disposição de desafiar Moscou.

Além disso, Putin obteve, no mínimo, o silêncio e a complacência da Casa Branca em sua recente ação repressiva interna, como dificilmente aconteceria com um governo Obama ou Hillary Clinton. Os protestos foram deflagrados por um documentário produzido pelo líder oposicionista liberal Alexei Navalny sobre a alegada corrupção do primeiro-ministro Dmitri Medvedev, intitulado “Ele não se chama Dimon” – porque o premier odeia ser chamado por esse diminutivo.

Salvo no sentido calendarial, é exagero chamá-los de “Primavera Russa”, mas ao mobilizar cerca de 150 mil em dezenas de cidades russas, foram os maiores desde aqueles contra fraudes eleitorais após a eleição de 2011 (houve também protestos menores em 2014, contra a intervenção na Ucrânia) e tiveram como novidade a alta participação de jovens e adolescentes. As manifestações foram autorizadas em cidades menores, mas proibidas em São Petersburgo e Moscou. Ali houve cerca de mil detenções, inclusive a do organizador, condenado a 15 dias de prisão, sem maiores ônus diplomáticos para o Kremlin.

Isso, naturalmente, não anula as críticas. Vêm de uma geração que não viveu o caos do colapso da União Soviética e das desastrosas reformas “liberais” de Boris Yeltsin. Os mais velhos tendem a admirar Putin e perdoar seus abusos por ter restaurado uma relativa ordem e prosperidade, mas os mais jovens, justamente por terem crescido em um clima mais estável, não se satisfazem com isso e querem mais justiça, liberdade e voz ativa. Mais cedo ou mais tarde, será preciso ouvi-los.

Os outros parceiros potenciais de Trump, porém, parecem mais distantes do poder do que há alguns meses. Em Israel, onde Benjamin Netanyahu e os colonos ultranacionalistas julgavam ter ganho carta branca, agora se perguntam se apostaram no cavalo errado. Trump está longe de ser claro quanto às suas intenções na região. Na Holanda, Geert Wilders teve um resultado abaixo da expectativa.

A vitória de Marine Le Pen parece agora menos plausível e as expectativas de grande crescimento do partido xenófobo AfD nas eleições alemãs de setembro também esfriaram após a eleição estadual do Sarre, onde Angela Merkel saiu-se bem e o partido de Frauke Petry conseguiu apenas 6%, depois de ter conquistado 13% a 24% em eleições de 2016. Trata-se, é verdade, de um Estado pequeno e atípico, onde a reputação da AfD é muito ruim por causa das ligações de líderes locais com neonazistas declarados.

Isso não significa, porém, que a Casa Branca ainda não seja capaz de fazer um grande estrago. À parte os riscos de uma imprudência ao lidar com rivais nucleares como a Coreia do Norte ou a própria China, ou ao provocar um confronto com o Irã, bastam o esvaziamento da Agência de Proteção Ambiental e o abandono do Tratado de Paris para deixar ao país e à humanidade um legado destrutivo difícil de reverter.Tais medidas podem ser tomadas de uma penada, entusiasmam seus partidários e seus resultados negativos talvez não sejam percebidos antes do fim do governo Trump, quando será tarde demais.