Número 945,

Economia

Reino Unido

Políticos, condenados ao Brexit

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 02/04/2017 00h49, última modificação 31/03/2017 12h50
O referendo e o voto distrital prenderam a casta política britânica em uma armadilha da qual não sabe sair
Toby Melville / Reuters
Reino Unido

Após despertarem sem querer o entusiasmo dos nacionalistas britânicos, os conservadores de Theresa May não sabem o que fazer além de fugir para a frente e torcer para dar certo

O quadro da União Europeia é difícil, na maior parte por culpa da teimosia autodestrutiva de suas elites políticas em salvaguardar os lucros e privilégios de seus grandes banqueiros e industriais ao preço do empobrecimento e humilhação de nações inteiras.

Exemplo grosseiro é o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, que, em entrevista a um jornal alemão na terça-feira 21, saiu-se com esta. “Na crise do euro, os países do Norte têm mostrado solidariedade com os afetados pela crise. Como social-democrata, atribuo à solidariedade excepcional importância. Mas quem a solicita tem obrigações. Não se pode gastar todo o dinheiro em bebidas e mulheres e, em seguida, pedir para ser ajudado.”

De um só golpe, o ministro da Fazenda holandês ofendeu todas as mulheres e 128 milhões de italianos, espanhóis, gregos e portugueses, pôs mais um prego no caixão de seu Partido Trabalhista e envergonhou os colegas do Partido Socialista Europeu (aliança de partidos social-democratas e trabalhistas), que o repudiou em nota de seu presidente.

O primeiro-ministro português, António Costa, tachou suas declarações de racistas, sexistas e xenófobas e pediu sua demissão, como também o ex-premier italiano Matteo Renzi. Ambos sabem muito bem que quem fica com o dinheiro – e, de quebra, também com as mais caras das bebidas e das mulheres que têm preço – são justamente os banqueiros do Norte.

A saída de Dijsselbloem deve ser questão de tempo, pois seu partido foi destroçado nas eleições holandesas da semana anterior e deve ficar fora da nova coalizão de governo, mas a arrogância suicida das elites, incluída nela muito do centro-esquerda, não desaparecerá tão facilmente.

A política do Reino Unido não é, porém, mais inteligente, a não ser pela maior flexibilidade na administração da própria moeda. A rejeição “populista” a Bruxelas, expressa no referendo que decidiu o Brexit, foi menos por seu lado antipopular do que por seu lado humanista: a relativa abertura aos refugiados, a livre circulação de cidadãos da União e a aplicação de normas europeias e de decisões do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos ao país.

Isso põe o governo conservador britânico em uma situação complicada e falsa. Ao promover o referendo, o governo David Cameron, incluída a atual primeira-ministra Theresa May, estavam certos de que o Brexit perderia. Pretendiam apenas dar uma satisfação aos eurocéticos e encerrar um debate que dividia seu partido. A situação escapou de seu controle e agora são obrigados a conduzir o país em uma direção indesejada, para a qual nem eles nem a oposição tinham planos, mas que nenhum dos dois maiores partidos ousa contrariar. 

A decisão não foi tomada por uma maioria esmagadora dos eleitores – 52% a 48%, apenas – e regiões importantes, inclusive Londres, Escócia e Irlanda do Norte, votaram a favor da permanência. Entretanto, no Reino Unido vigora o voto distrital e dois terços dos distritos (429 dos 650) tiveram maioria a favor do Brexit, inclusive 78% daqueles que elegeram os 330 deputados conservadores e 65% dos que serviram de base aos 229 trabalhistas, hoje amargamente divididos sobre esse e outros temas.

Essas porcentagens seriam maiores se fossem contados à parte os 59 distritos escoceses, todos pró-europeus. Isso deixou os nacionalistas escoceses (54 deputados) como o único partido relevante com bases solidamente anti-Brexit. O Partido Liberal-Democrata tenta ser a voz europeísta dentro da Inglaterra, mas conta apenas nove parlamentares. Segundo as pesquisas, se houvesse eleições hoje, os conservadores ampliariam sua maioria. May prefere, porém, evitá-las para não alimentar a discussão pública sobre as consequências do Brexit.

Salvo pela desvalorização da libra esterlina, cujos efeitos são ambivalentes (aumenta o custo de vida, mas facilita exportações e atrai turistas), as piores consequências ameaçadas pelos adversários do Brexit ainda não se manifestaram. Mas pode ser como a piada do homem que cai do quinquagésimo andar e passa pelo vigésimo dizendo “até aqui, tudo bem”.

A primeira-ministra May fez em 29 de março o pedido para iniciar formalmente o processo de separação, após o qual os outros 27 países da União Europeia responderão com a primeira proposta conjunta sobre seus termos, o que pode levar dois meses. 

Theresa May
Jornal exposto em Londres destaca Theresa May e o início formal do Brexit

Com certeza, a resposta será pouco agradável aos britânicos. A propaganda do Brexit deu a entender que os britânicos conservariam todas as vantagens de pertencer à Europa, incluindo acesso irrestrito aos mercados e direito de residência, sem nenhuma das obrigações. O governo britânico, oficialmente pró-Brexit, continuou a alimentar essa ilusão nos últimos nove meses, reforçada pelas bravatas nacionalistas do chanceler Boris Johnson, mas, quando chegar a resposta oficial de Bruxelas, será difícil mantê-la.

A maioria dos governos continentais não tem interesse em incentivar seus próprios eurocéticos e está disposta a impor condições punitivas, mesmo se isso causar prejuízos a seu próprio comércio. O relativo fracasso dos nacionalistas holandeses de Geert Wilders na eleição da quarta-feira 15 e a provável derrota de Marine Le Pen no segundo turno francês fortalecem sua posição.

Mesmo os governos mais eurocéticos, como o polonês, estão indignados com o clima de hostilidade aos imigrantes do Leste Europeu na Inglaterra e com as ameaças pelo governo britânico de discriminar e expulsar seus emigrantes.

A Câmara dos Lordes, que não depende do voto popular, tentou incluir garantias aos europeus residentes na lei que autorizou o governo a iniciar o processo de saída, mas May fez a Câmara dos Comuns derrubá-la com o argumento de que isso enfraqueceria a posição britânica nas negociações.

Companhias aéreas britânicas foram informadas de que perderão suas rotas internas na União Europeia, a menos que mudem suas sedes para o continente e transfiram a maior parte do capital para sócios europeus. O projeto de fusão entre as bolsas de Londres e Frankfurt, que parecia irreversível às vésperas do referendo, foi cancelado. O Goldman Sachs e outros bancos internacionais que faziam negócios na Europa a partir da capital britânica terão de transferir parte de seus escritórios para a Alemanha ou a França.

O francês Michel Barnier, negociador europeu, apresentou ao Reino Unido, para começar, uma conta de 60 bilhões de euros referentes a compromissos assumidos antes da separação, inclusive aposentadorias, projetos de infraestrutura e o resgate da Irlanda. Sem isso, nem pensar em uma separação amigável o suficiente para satisfazer aos cidadãos britânicos estabelecidos no continente e aos setores mais importantes para Londres, principalmente veículos e bancos.

As relações se regerão pelas normas da Organização Mundial do Comércio, que permite tarifas de até 10%. Políticos britânicos tentam se mostrar despreocupados com esse risco e May insiste em que “é melhor acordo nenhum do que um acordo ruim”, mas a insinceridade é transparente.

A primeira-ministra praticamente se jogou nos braços de Donald Trump em sua visita a Washington, mas, por mais subserviente que seu governo seja, os EUA não oferecerão condições mais generosas que Bruxelas. Pelo contrário, Trump quer mostrar a seus eleitores como defende unilateralmente os interesses da economia estadunidense. A União Europeia, mais consciente disso que os britânicos, desistiu da “Parceria Transatlântica” de livre-comércio com os EUA e decidiu priorizar as negociações comerciais com o Japão.

Ainda mais fantasiosa é a esperança manifestada por alguns conservadores, de fazer da quase irrelevante Comunidade (Britânica) das Nações um “Império 2.0”, expressão literal de funcionários sob as ordens do secretário do Comércio, Liam Fox, ao falar de um hipotético acordo de livre-comércio com ex-colônias africanas, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.

Não só cai mal em nações hoje orgulhosas da independência, como não faz sentido. Mesmo no auge do imperialismo, o comércio do Reino Unido com a Europa Continental era mais importante do que com suas colônias e, hoje, a maioria delas tem mais negócios com a China e os EUA do que com a ex-metrópole. Esta lhes interessa como destino de migração e oportunidade de estudos subsidiados, mas disso os nacionalistas ingleses não querem nem ouvir falar. 

A União Europeia é potencialmente uma das três maiores economias do mundo, mas o Reino Unido, isolado, é apenas uma nação de média importância, na mesma divisão do Brasil ou da Coreia do Sul. E tende a ficar menor, pois o Brexit tornou-se um argumento para a separação da Escócia, onde 62% votaram por permanecer na organização.

Nicola Sturgeon, a primeira-ministra escocesa, anunciou sua intenção de promover outro referendo entre 2018 e 2019, perto do fim do prazo de dois anos para as negociações com Bruxelas. Em 2014, 45% dos escoceses votaram pela independência, hoje as pesquisas indicam 49% e, dentro de dois anos, a maioria pode ser sólida.

O governo May não admite o referendo por “ser divisivo e causar incerteza econômica”, mas a intransigência é igualmente divisiva e pode fazer da Escócia um problema tão sério para Londres quanto é a Catalunha para Madri. Também o conflito da Irlanda do Norte, pacificado em 1998 com ajuda da integração europeia, pode ser reaberto. A restauração de barreiras e controles de fronteira com a República da Irlanda pode reacender os sentimentos separatistas dos nacionalistas “católicos”.