Número 944,

Internacional

HIstória

Revolução Russa, o dia da caça

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 27/03/2017 13h48, última modificação 27/03/2017 13h49
Há cem anos, caía o Imperador de Todas as Rússias. Apesar de tudo, ainda há o que comemorar
Courtesy Everett Collection/Fotoarena
Dia da mulher

Ao irem às ruas em fevereiro, as operárias de Petrogrado transformaram a paralisação de uma fábrica em greve geral e iniciaram a Revolução Russa

Há cem anos, em 15 de março de 1917, o tsar Nicolau II foi obrigado a abdicar e pôr um fim a séculos de monarquia russa e de relativa estabilidade social das elites europeias. A agitação revolucionária explodira uma semana antes, em 8 de março, correspondente a 23 de fevereiro no calendário ortodoxo usado na Rússia também para fins civis até 1918 e por isso é lembrada como a Revolução de Fevereiro, assim como o movimento posterior que pôs Vladimir Lenin e os bolcheviques no poder, em 7 de novembro (25 de outubro no calendário ortodoxo), ficou para a história como Revolução de Outubro.

Florestas de pinheiros foram derrubadas e rios de tinta correram para alimentar teorias conspiratórias sobre quem puxou os cordéis, mas o início do movimento foi imprevisto e espontâneo. Ninguém ficou mais surpreso que os dirigentes da ala esquerda do Partido Social-Democrata, os bolcheviques.

Na ocasião estavam quase todos presos, exilados ou confinados à Sibéria e souberam das novidades pelos jornais. Nos meses seguintes, as cúpulas desse e de outros partidos russos, inclusive liberais (“cadetes”), esquerda populista (“social-revolucionários”), social-democratas moderados (“mencheviques”) e anarquistas, suaram para tentar conquistar a confiança dos cidadãos revoltados e impor rédeas e direção à insurreição.

Não foi coincidência a revolução começar na data hoje comemorada como o Dia Internacional da Mulher. A partir da campanha das militantes alemãs Clara Zetkin e Luise Zietz, o movimento socialista do início do século XX aceitara incorporar pautas feministas não especificamente trabalhistas e um Dia Internacional da Mulher foi organizado pela primeira vez pelo Partido Socialista dos EUA, em 23 de fevereiro de 1909, em apoio à campanha pelo voto feminino.

A iniciativa fora assistida pela Internacional Socialista no ano seguinte e dias de reivindicação feminista foram celebrados em diferentes datas de fevereiro e março de 1911 a 1914, quando a irrupção da Primeira Guerra Mundial desorganizou o movimento internacional.

Em 1917, porém, a situação na então Petrogrado era insuportável. Com a convocação dos homens válidos para a frente de batalha, mulheres haviam ocupado grande parte das vagas industriais. A guerra e um inverno rigoroso haviam se combinado para desabastecer as cidades de alimentos, matérias-primas e combustíveis. A inflação disparava e a comida faltava, enquanto as fábricas paravam e demitiam por falta de materiais.

Clara Zetkin
Que o Dia da Mulher surgisse de uma greve de 1857 é lenda. Mas nesse ano nasceu Clara Zetkin, sua inspiradora (Foto: Zuma Press/Fotoarena)
Em 18 de fevereiro, os operários e operárias da maior fábrica local, a Companhia Putilov, entraram em greve. No dia 23, trabalhadoras de toda a cidade, organizadas pelas companheiras mais militantes, aproveitaram o Dia Internacional da Mulher para arregimentar apoio aos grevistas nas ruas e fábricas e a elas se juntaram donas de casa enregeladas nas filas. 

As lideranças revolucionárias de médio escalão de Petrogrado julgavam a rebelião prematura e se enfureceram, como registrou o engenheiro Vasily Kayurov, supervisor do partido bolchevique no bairro industrial de Vyborg.

“Para minha grande surpresa e indignação, várias fábricas têxteis entraram em greve e as delegadas vieram pedir apoio a nós, engenheiros. Fiquei extremamente indignado com o comportamento das grevistas. Ignoravam totalmente as instruções dos comitês distritais do partido. Eu mesmo, na véspera, havia insistido com elas para mostrar moderação e disciplina, e de repente há uma greve. Isso não tem razão nem propósito, a menos que se leve em conta o rápido crescimento das filas do pão.” 

A paralisação da Putilov tornou-se uma greve geral. O tsar ordenou às tropas de Petrogrado disparar contra os manifestantes de ambos os sexos, se fosse necessário, mas, ao contrário do que temiam dirigentes como Kayurov, os soldados se amotinaram, atiraram contra os comandantes e populares tomaram ou incendiaram os quartéis da polícia.

Sergei Mstislavski, um dos líderes do Partido Social-Revolucionário, confessou o espanto: “A revolução apanhou a nós, o pessoal do partido, cochilando como as virgens tolas da Bíblia”. Leon Trotski escreveu, mais tarde: “As massas quase não tiveram lideranças. Os jornais estavam silenciados pela greve. Sem olhar para trás, elas fizeram a própria história”.

Foi a partir desse 23 de fevereiro, tornado 8 de março com a mudança do calendário, que a Internacional Comunista fixou, em 1922, o Dia Internacional da Mulher. Por muito tempo foi comemorado quase exclusivamente por partidos e sindicatos comunistas e ignorado ou repudiado pelo chamado “mundo livre”.

Segundo historiadoras do feminismo, a lenda de sua origem na repressão violenta a uma imaginária greve de operárias da confecção dos EUA de 1857 surgiu em um artigo de 1955 do jornal comunista francês L’Humanité.

Se com isso pretendia desvincular a data feminista do comunismo soviético e ampliar sua aceitação, teve sucesso. Durante os anos 1960, as feministas dos EUA aderiram à comemoração, internacionalizada pela ONU em 1975. Neste ano de 2017, até conservadores como Donald Trump e Michel Temer precisaram assinalá-la. À sua maneira, é claro.

Logo surgiu quem se dispusesse a dirigir as massas. No dia 27, com mais de 100 mil soldados já rebelados, líderes operários presos foram libertados e organizaram o Soviete (Conselho) de Petrogrado, presidido pelo menchevique Nikolay Chkheidze com esse objetivo. Os políticos tradicionais e a própria nobreza perceberam então o risco de iminente atropelamento pela história e tentaram recuperar a iniciativa. 

O presidente da Duma (Parlamento) Mikhail Rodzianko, que na véspera implorara ao tsar por reformas para acalmar a população sem receber resposta, decidiu tomar o poder. Assumiu o comando dos militares não rebelados, prendeu os ministros, fez deter o trem do tsar que voltava à capital e proclamou um governo provisório, liderado pelo príncipe “cadete” Georgy Lvov.

Este não tinha parentesco próximo com a família imperial, mas o próprio grão-duque Kirill Vladimirovich, primo do imperador, hasteou uma bandeira vermelha no seu palácio e juntou-se à revolução. 

Muitos aristocratas, assim como políticos burgueses, ansiavam por se livrar da inabilidade militar de Nicolau II e da incompetência política da tsarina Alexandra e julgavam estar em posição de controlar as massas e comandar a transição. Não conseguiram, porém, obrigar o gênio a voltar para a garrafa. O Soviete de Petrogrado continuou a controlar vários ramos do governo e das Forças Armadas e, em plena guerra com a Alemanha, digladiou pelo poder com o Parlamento por meses, enquanto diferentes partidos disputavam as duas casas. Lev Kamenev, Josef Stalin e outros vieram da Sibéria nas semanas seguintes.

Vladimir Lenin, Grigori Zinoviev, Grigori Sokolnikov e demais exilados bolcheviques na Suíça tiveram o retorno facilitado pela Alemanha com a expectativa de um acordo de paz mais favorável e chegaram em 3 de abril. Trotski chegou de Nova York no mês seguinte. 

1917
O susto de 1917 foi responsável, no mínimo, por três gerações de distribuição de renda e pactos sociais por quase todo o mundo
Em julho, o governo liberal Lvov renunciou e foi sucedido por um governo mais à esquerda do social-revolucionário Alexander Kerenski, enquanto o Soviete de Petrogrado incorporava delegações de outras cidades para se tornar Soviete dos Representantes de Operários e Soldados de Todas as Rússias. Os bolcheviques, minoritários, tentaram um levante fracassado em julho e muitos foram presos ou tiveram de fugir.

Talvez fossem hoje mera nota de rodapé se em agosto o fracasso do golpe de Estado reacionário do general Lavr Kornilov não radicalizasse os operários. Nos meses seguintes, o partido de Lenin tomou o controle dos sovietes, graças a eleições e manobras políticas, e aboliu o esvaziado governo provisório.

As consequências para a Rússia são bem conhecidas e vale mais a pena lembrar o impacto no resto do mundo. Em 1918, operários e soldados rebelaram-se contra a continuação da guerra em vários países da Europa e em várias regiões chegou-se a proclamar repúblicas soviéticas. Essas insurreições foram esmagadas, mas o fantasma do comunismo passou a assombrar como nunca as elites europeias.

O colapso final do padrão-ouro deu-se, em 1931, quando marinheiros britânicos se rebelaram contra as medidas de austeridade necessárias para sustentá-lo e o setor financeiro entrou em pânico, temendo uma revolução bolchevique. O fascismo e o nazismo foram respostas à ameaça socialista, mas também foi, em outros países, a ampliação dos direitos de voto, a redução das desigualdades e o fortalecimento dos movimentos anticoloniais e anti-imperialistas fora da Europa.

Apesar do enrijecimento do regime russo com Stalin e sucessores, 1917 continuou em boa parte do mundo a inspirar progressos sociais e políticos – ou, pelo menos, inibir certos retrocessos – até o colapso soviético em 1991.

Os Estados de Bem-Estar Social foram consolidados na Europa do Pós-Guerra para esvaziar o apelo do socialismo entre os trabalhadores europeus e a emancipação mais ou menos pacífica da maioria das colônias da França e Reino Unido, e sua retirada de Suez foi em boa parte resultado das pressões dos EUA e seu receio de ver os comunistas dominar a resistência.

Mesmo nos EUA, onde não havia um partido socialista relevante, a campanha pelos direitos civis teve como um de seus argumentos a necessidade de retirar à propaganda comunista o argumento do racismo estadunidense. O fim do apartheid na África do Sul ainda pode ser contado entre os últimos frutos do movimento iniciado em Petrogrado.

Thomas Piketty mostrou como houve uma forte desconcentração de renda nos países ricos depois de 1918, revertida a partir dos anos 1990, mas atribuí-la às guerras, como ele fez, é meia verdade. Foi necessária uma consequência específica da guerra, o desafio socialista – e, sem uma revolução e um desafio comparáveis, as chances de se reverter pacificamente a restauração dos antigos regimes é muito reduzida. 

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