Número 944,

Política

Editorial

Os Idos de Março

por Mino Carta publicado 20/03/2017 00h02, última modificação 17/03/2017 11h53
Júlio César morreu debaixo das punhaladas dos conspiradores. Os Idos contêm nas suas pregas muitas ambiguidades
Ricardo Stuckert
Lula

Se o propósito era detonar o PT e seu líder, agora parece claro que ninguém mais escapa

Diante de minha Olivetti, penso, e logo existo, para constatar que hoje, 15 de março, recorrem os Idos de Março. Júlio César ouviu o aviso do adivinho e prosseguiu no caminho do Senado romano, onde o esperava a morte. Data fatídica para uma grande figura da história e que hoje haveria de ser para uma chusma de medíocres falcatrueiros da política nativa.

Leio a lista não oficial divulgada pela mídia e não duvido que aqueles nomes constarão das denúncias a serem formalizadas por Rodrigo Janot. Nada me surpreende no que diz respeito aos notórios elementos (aqui o termo policialesco tem encaixe perfeito) da quadrilha golpista. Tampouco cabe em relação a Lula, Dilma e Mantega, estes não se confundem com os demais, mas suas presenças eram inevitáveis.

Júlio César morreu debaixo das punhaladas dos conspiradores, e o mais extraordinário intérprete daquele 15 de março, Shakespeare, viu no líder do complô, Brutus, um defensor da liberdade. O filho adotivo do cônsul, que pretendia tornar-se imperador, não se parecia com os patéticos golpistas hoje alcançados pela Lava Jato. De todo modo os Idos contêm nas suas pregas muitas ambiguidades.

Fernando Henrique Cardoso, digamos, não é senador da antiga Roma. E lá vem ele a propor a diferença entre o caixa 2 do Bem e o caixa 2 do Mal, a contar com a assessoria “jurídica” de Gilmar Mendes e o frenético apoio de Aécio Neves, outro senador de tempos novos e bem mais nebulosos do que aqueles de Roma nos Idos de Março do ano 44 antes de Cristo.

Caixa 2 do Bem é aquele que brinda os patriotas, enquanto o do Mal será escondido nas cuecas de alguém, petista, obviamente. Não são poucos os parlamentares da aliança tucano-peemedebista seduzidos pela ideia, a ponto de cogitarem de uma lei da anistia para quem sabe roubar. É uma forma de alegar uma superioridade intelectual no trato das coisas da vida.

A sublinhar que a sabedoria de Gilmar Mendes parece não habilitá-lo a entender toda a dificuldade, à luz da lei, de destrinchar joio de trigo. Veremos o que veremos, embora seja razoável esperar pelo pior em meio a uma crise antes de mais nada mental.

A Lava Jato, à sombra da total ausência dos poderes da República, depois de destruir a economia brasileira, vai impedir a prática da política. Se o propósito era detonar o PT e seu líder, agora parece claro que ninguém mais escapa. Mesmo porque do lodaçal exala a convicção de que o jogo político se destina ao roubo. Terra arrasada no dia seguinte. E as vítimas somos nós, brasileiros.

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