Número 943,

Saúde

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O mais humano dos restauros

por Nirlando Beirão publicado 16/04/2017 00h01, última modificação 13/04/2017 13h46
Equipe da Unip testa próteses faciais que, usando celular e impressora 3D, poupam tempo e também dinheiro
iStockPhoto
Face

"Devolver ao paciente sua identidade, é assim que resumo nosso objetivo"

A tecnologia, quando aplicada aos procedimentos clínicos e cirúrgicos, traz, juntamente com os seus inegáveis benefícios, uma recorrente contrapartida: o perigo de que os tratamentos não caibam no bolso da maioria dos pacientes.

A sofisticação das aparelhagens – com a demanda de uma mão de obra mais qualificada e, portanto, mais bem remunerada – costuma resultar nisso: uma medicina mais cara e menos acessível. Um belo desafio para a pesquisa científica hoje seria ampliar os vertiginosos progressos tecnológicos na área de saúde para além dos hospitais da elite endinheirada e empoderada.

Um pesquisador de 28 anos, nascido no Peru, pratica na Universidade Paulista (Unip), campus de São Paulo, a bordo de seu programa de doutoramento, a rara experiência de fazer da tecnologia um jeito de simplificar e baratear o mais humano dos restauros: aquele que recupera o rosto de alguma lesão perniciosa, algum tipo de câncer, por exemplo.

Molde
Molde produzido por impressora 3D, a partir de software gratuito (Matias Arrieta)
Rodrigo Gamarra Salazar, o odontologista peruano, foi assinalado pelo professor Luciano Dib ainda lá em seu país natal e distinguido com o convite para, tendo o padrinho como orientador de tese, desenvolver e aplicar aqui sua técnica – as primeiras próteses faciais no mundo a partir de um smartphone banal e de uma impressora 3D comum. Poupa tempo, poupa dinheiro – e tem o condão de restaurar, além do rosto, a autoestima.

“Devolver ao paciente sua identidade, é assim que resumo nosso objetivo”, diz Luciano Dib, cirurgião-dentista formado em 1984 na USP (Ribeirão Preto), professor na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e na Unip, dono de um currículo de trânsito multinacional e líder em várias frentes no ofício de reintegrar as vítimas de deformidades faciais ao convívio social e familiar. “É um sofrimento que transforma as pessoas em indigentes.”

Discípulo, desde quando ainda se iniciava no Hospital do Câncer, do pioneiro que revolucionou esse tipo de estudo a partir dos anos 80, o sueco Per-Ingvar Branemark (1929-2014), o professor Dib faz desse conceito – identidade – uma pedra de toque no seu trabalho de mobilização.Tanto que acaba de lançar uma multidisciplinar organização da sociedade civil de interesse público (Oscip) com este apelo: Instituto Mais Identidade.

Foi o professor Luciano quem identificou, há cerca de dez anos, a importante contribuição da professora Rosemary Seelaus, da Universidade de Illinois, em Chicago, referência em próteses tridimensionais.

Especialista em “artes médicas” – disciplina que existe nos Estados Unidos –, ms. Seelaus inovou com fotografia 3D para preparar o modelo, que era, porém, feito de cera. E o custo era alto: 200 mil dólares só em equipamento fotográfico.

Foi Luciano Dib também quem, na condição de presidente da Sociedade Latino-Americana de Recuperação Facial, reconheceu em Rodrigo Gamarra Salazar a energia pessoal e a vivência digital tão própria de sua geração – e com potencial considerável para inovar a pesquisa em velocidade da internet.

Rodrigo
"Não basta ser um profissional de gabinete. Temos de chegar à sociedade", Rodrigo Gamarra Salazar, doutorando da UNIP (Wanessa Soares)
Há sete anos, quando ainda cursava a graduação em Odontologia na Universidad Cayetano Heredia, em Lima, e passou a se incomodar pelo descaso com que era tratado o assunto da recuperação bucomaxilofacial – no jargão acadêmico –, o doutor Gamarra percebeu o drama de ver uma deformação física invariavelmente degenerar em angústia metafísica.

“Não havia um único especialista no Peru”, lembra o pesquisador. “Lá, como aqui no Brasil, dois entre três pacientes a serem assistidos estão abaixo da linha da pobreza.” Não por acaso, o recém-formado Gamarra passou a atuar em programas de responsabilidade social e, no contato com tantas carências, optou por sair a campo para aplicar projetos “de impacto na sociedade”. Não se sentia confortável, ante tal panorama, em ser apenas um profissional de gabinete.

Não há no mundo mais que 200 profissionais como o dr. Gamarra. “Somos menos especialistas do que países”, brinca. De todo modo, a comunidade dos restauradores com coração atua em rede e, assim como o dr. Gamarra se aproveitou do contato com a professora Rosemary Seelaus, e com a parceria com o Centro Tecnológico da Informação Renato Archer, de Campinas, vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, as inovações da turma da Unip paulistana passaram a estimular experiências semelhantes no Peru, no Chile, no Uruguai e até na Índia. “Como é um método moderno e acessível, fica fácil testar seus resultados”, explica o pesquisador.

Luciano
"A palavra-chave é identidade. Devolver ao paciente sua identidade social", Professor Luciano Dib, líder da equipe da UNIP (Wanessa Soares)
Aqui, as pesquisas já deram resultado com vários voluntários – dois desses casos expostos publicamente a pedido dos próprios pacientes. A Unip deixa aberta a porta para novos interessados. Mas o método ainda está na fase de uma daquelas avaliações científicas altamente rigorosas.

O passo seguinte será otimizar os protocolos médicos para treinar, só então, os profissionais para a decifração tecnológica e os procedimentos clínicos.

A descomplicação do método traduz-se em equipes mais enxutas. Fotografar com celular, por exemplo, é infinitamente mais simples do que convocar fotógrafos especializados com câmeras supersensíveis.

A escultura da prótese, a partir do protótipo criado em impressora 3D de baixo custo, não vai além de uma a uma hora e meia (em vez das sete horas do processo tradicional). Tomografias, raio X e toda uma parafernália de equipamentos e acessórios são dispensáveis.

Victorio Gorzoni
O modelo é real: Victorio Gorzoni ganha seu novo rosto
O dr. Gamarra calcula em cerca de 500 mil dólares o custo de uma prótese pelo sistema convencional. Nesse caso também, tempo é dinheiro. No experimento da equipe da Unip, da fotografia do paciente ao assentamento final da prótese, bastaria em casos mais simples meio dia de expediente de trabalho (quadro abaixo).

Para converter a realidade virtual das promessas tecnológicas em estado da arte da ciência odontológica, o dr. Gamarra depende da fundamental contribuição de um artífice do traço. O designer Cícero Moraes, 34 anos, catarinense formado em marketing e autodidata em computação gráfica, chegou ao time no acaso bem providencial das conexões da internet. Ele mora em Sinop, Mato Grosso, e o diálogo científico – maravilha dos novos tempos – é todo feito online. “Nunca trabalhei com eles in loco”, conta Cícero.

O designer vinha compartilhando pela rede suas experiências de reconstrução facial e assim se aproximou tanto da cirurgia plástica quanto da pesquisa odontológica. Cícero Moraes possui a expertise requintada de um daqueles finos restauradores de museu, tanto que, a convite de um dos mais importantes deles, o da Universidade de Pádua, na Itália, comandou a tarefa de reconstrução do rosto de 25 figuras do acervo da instituição. Entre elas, soube ele depois (a experiência era às cegas), o rosto da imagem de Santo Antônio, padroeiro da cidade.

Prótese
O antes e depois (quando a prótese de silicone vai ser afixada no rosto)
Pelas estatísticas do Ministério da Saúde, 30 mil casos, a cada ano, de pessoas que demandam algum tipo de recuperação facial – a enorme maioria é de vítimas de câncer. A demografia social da doença exigiria que o sistema público de saúde comprasse a causa e a pesquisa hoje desenvolvida numa universidade particular, como a Unip, incentiva o sonho de que os futuros tratamentos sejam de graça. “Todo paciente merece recuperar, com uma prótese estética, sua qualidade de vida”, prega o dr. Gamarra, repetindo as lições do mestre Luciano Dib.

Até aqui, a Unip, do Grupo Objetivo, tem custeado as pesquisas. Trata-se de uma megauniversidade, com 200 mil alunos, 27 campi (a maioria em São Paulo – capital e interior –, mas também em Goiânia, Manaus e Brasília), 339 laboratórios na área da saúde e 90 clínicas experimentais. Apoia atividades culturais e científicas extracampus.

Para ir além, a empreitada de Dib, Gamarra e equipe tem não só de sensibilizar o poder público, tarefa espinhosa neste Brasil da austeridade seletiva, essa que só pune os pobres, mas também de se extrapolar numa milícia de mobilização coletiva, com um time de nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais, até mesmo gente capaz de encarar o restauro da face com a expertise de uma tela ou de uma escultura.

Cícero
"É um trabalho fino, artístico, que lembra aquelas restaurações de peças de museu", Cícero Moraes, perito em computação gráfica (Wanessa Soares)
O que está em jogo, aqui, não é um mero remendo numa superfície danificada de pele, osso ou cartilagem. O que está em jogo é o direito a uma vida plena, socialmente aceitável, com dignidade e sem desonra. “A tecnologia digital avança muito rápido”, aposta o professor Dib. “Logo, logo, vai chegar o dia em que a prótese definitiva vai sair pronta da impressora.”

Afinal, trata-se de tirar do limbo aqueles que, marginalizados, envergonhados, sofrem a terrível verdade proclamada, milênios atrás, pelo romano Cícero, a de que: “O rosto é o espelho da alma”. A ciência está, enfim, lhes estendendo a mão.

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