Número 943,

Internacional

EUA

Com Trump, cortinas de fumaça escondem retrocessos

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 19/03/2017 00h14, última modificação 17/03/2017 12h45
Sem provas, Trump acusa Obama de grampeá-lo. Tenta recuperar o controle do discurso que lhe ameaça escapar
David Moir/Reuters/Fotoarena
Golfe

Matou a família e foi ao cinema. Ou melhor, acusou o antecessor de crime e foi jogar golfe

Os rumos tomados pela política de Washington seriam preocupantes o suficiente em um pequeno país dos Bálcãs ou da América Central. Tratando-se da potência controladora do maior arsenal nuclear do planeta e dos fluxos financeiros mais vitais para a economia mundial, é de cair o queixo.

No sábado 4, em mais um rompante pelo Twitter, o presidente Donald Trump acusou o antecessor de grampear suas ligações durante a campanha de maneira “macarthista” e cometer um crime comparável ao de Richard Nixon no caso Watergate.

Após uma série de tuítes indignados, mudou de assunto para culpar Arnold Schwarzenegger pelo fracasso de O Aprendiz, programa de tevê do qual Trump ainda é o produtor, como se fossem temas igualmente importantes para o ocupante da Casa Branca. E saiu para jogar golfe.

A questão é muito séria. Se a acusação é verdadeira, ou Obama e o FBI cometeram um crime ou a investigação foi autorizada pela Justiça com base em indícios plausíveis de crime ou espionagem envolvendo Trump.

Segundo informações de Edward Snowden, o juiz encarregado concede essas autorizações com facilidade, mas é de supor que teria muito mais cautela em um caso como esse. Se é falsa, é uma leviandade em grau perigoso. Parece ser este o caso.

Obama
Obama está furioso e os próprios assessores de Trump relutam em apoiá-lo (Foto: Oliver Douliery/DPA)
Barack Obama negou peremptoriamente ter espionado qualquer cidadão dos EUA. James Clapper, diretor da Inteligência em seu governo, deu-lhe razão. James Comey, diretor do FBI mantido por Trump, cujo anúncio sobre a investigação dos e-mails de Hillary Clinton às vésperas da eleição pode ter decidido o resultado a favor do republicano, não falou publicamente sobre o assunto, mas pediu ao Departamento de Justiça para rejeitar a acusação, que implicaria a participação de sua agência em ação ilegal.

Entrevistada pela rede ABC, a porta-voz da Casa Branca Sarah Sanders disse que Trump não aceitava o desmentido e que o caso da escuta ilegal tinha sido discutido no New York Times, BBC e Fox News. Não é verdade, e o apresentador a interrompeu repetidamente para desmenti-la.

De onde Trump tirou a ideia? Aparentemente, de um radialista de ultradireita, Mark Levin, cujas acusações foram reproduzidas pelo Breitbart News na sexta-feira 3. Depois de recusar em junho uma autorização para monitorar Trump e assessores com base na Lei de Vigilância de Inteligência Estrangeira, a Justiça a teria concedido em outubro, restrita a um computador da Trump Tower supostamente ligado a bancos russos. Obama teria assim obtido e vazado informações para comprometer Trump com a inteligência russa.

Levin e o Breitbart não apresentam provas, apenas uma teoria tecida a partir do seguido vazamento de informações sobre os contatos russos da equipe de Trump. A informação relacionada à Trump Tower seria da jornalista da News Corp e ex-deputada conservadora britânica Louise Mensch, mas ela escreveu sobre uma autorização para “examinar as atividades de pessoas dos EUA na campanha de Donald Trump ligadas à Rússia” com base em atividade suspeita entre um computador da Trump Tower e dois bancos russos, citando “duas fontes ligadas à comunidade de contrainteligência”.

A história foi também reportada pela BBC e pelo Guardian, mas nem ela nem esses veículos falaram de escuta telefônica de Trump ou de seus assessores. New York Times, Washington Post e CNN reportaram que contatos entre assessores de Trump e funcionários russos foram descobertos por meio de “comunicações grampeadas”, mas isso alude, até prova em contrário, ao monitoramento de mensagens ou ligações russas.

Não seria a primeira vez que o presidente, que tem acesso aos relatórios mais secretos das maiores agências de inteligência do mundo, faz política de acordo com matérias obscuras com base em fontes mais do que duvidosas.

Flynn
Trump teve de demitir Flynn por mentir sobre conversa com o embaixador russo

Pouco antes de acusar Obama, respondia às críticas da mídia e da oposição sobre os contatos de seus assessores com a Rússia tuitando uma foto do senador democrata Chuck Schumer com Vladimir Putin, tirada diretamente do Drudge Report, outro site de ultradireita.

Há, porém, uma diferença: os contatos desse e de outros políticos da oposição com líderes e diplomatas russos foram públicos e registrados pela mídia, enquanto o pessoal de Trump fez contatos secretos e depois os negou.

Em fevereiro, ao atacar o asilo a refugiados em um comício, deu como exemplo. “Veja o que aconteceu na noite passada na Suécia. Suécia, quem acreditaria nisso? Suécia. Eles os aceitaram em grande número e estão tendo problemas como nunca imaginaram.” Ninguém ficou mais perplexo do que os próprios suecos: nada acontecera na véspera.

Por fim, obteve-se uma explicação. Uma enviesada reportagem da Fox News atribuíra à imigração um suposto aumento dos crimes na Suécia. Na realidade, a criminalidade, muito inferior à dos EUA (em 2015, houve duas vezes mais homicídios em Orlando, onde Trump discursou, do que em todo o país escandinavo), caiu nos últimos anos e os refugiados são responsáveis por não mais de 1% dela. A Casa Branca admitiu depois ter-se referido a essa matéria.

Dito isso, é preciso apontar também que a questão russa tem sido exagerada pela mídia e pelos democratas. É plausível, embora faltem provas convincentes, de que hackers russos os tenham espionado e vazado informações para ajudar Trump ou desmoralizar Washington.

Jeff Sessions
Jeff Sessions corre o risco de ser demitido e foi afastado do inquérito (Foto: Mark Wilson/AFP)

É plausível que Trump quisesse barganhar com Moscou vantagens econômicas para seus apoiadores, principalmente indústria petrolífera, ou mesmo acordos estratégicos sobre esferas de influência à custa de aliados tradicionais. Esses contatos seriam tecnicamente ilegais, pois um presidente não empossado e seus assessores não confirmados pelo Congresso não poderiam negociar em nome da nação.

É muito inverossímil, porém, que Trump seja controlado ou chantageado pelo Kremlin com base em favores financeiros ou sexuais e soa absurdo que a Rússia tenha de alguma maneira manipulado os resultados eleitorais.

Trump está furioso pela persistência dessa narrativa, que o embaraça politicamente, obrigou-o a demitir um dos auxiliares diretos – o general Michael Flynn, assessor de Segurança Nacional apanhado na mentira ao negar uma conversa com o embaixador russo – e atou as mãos do secretário da Justiça, Jeff Sessions, que, após também ter mentido sobre o assunto, teve de prometer não se envolver nas investigações sobre a suposta interferência russa.

Certamente esperava fazer de Obama um alvo de ataque e inquérito em um contra-ataque preventivo a novas investigações de contatos com a Rússia que talvez o envolvam pessoalmente, mas o Partido Republicano e a mídia conservadora parecem mais perplexos do que convencidos. A Casa Branca pediu ao Congresso um inquérito sobre o assunto, mas não ofereceu nenhum indício e os republicanos admitem não ter evidências.

O deputado democrata Adam Schiff, da Comissão de Inteligência, diz que o pedido de investigação será aceito, mas é bem possível que acabe por prejudicar Trump em vez de ajudá-lo. O presidente, acostumado a manipular a opinião de massas de eleitores pouco instruídos, parece não perceber que fazer o mesmo com juízes, agentes secretos e deputados é mais difícil.

Por outro lado, os democratas liberais também não se dão conta de que o discurso “macarthista” é pouco persuasivo fora de suas próprias fileiras e de alguns republicanos particularmente apegados aos valores da Guerra Fria – e mesmo estes não se impressionam o suficiente para deixar de apoiar as nomeações e medidas de Trump.

Fariam uma oposição mais substantiva e capaz de captar apoio popular se focasse a maneira escandalosa como o novo governo propõe privilegiar ainda mais os multimilionários e prejudicar não só as minorias e os imigrantes como também os trabalhadores brancos.

Protesto
A questão da saúde é mais fundamental e mobilizadora do que a suposta conexão russa. Mas os próprios democratas receiam mexer no vespeiro (Foto: Zuma Press/Fotoarena)
Mesmo quem dá de ombros ao decreto de banimento dos refugiados, na versão original ou na variante amenizada da segunda-feira 6 (poupa os iraquianos e os portadores de vistos já emitidos e green cards), tem motivos para se preocupar com o destino do programa de saúde.

Trump prometeu acabar com o Obamacare e o projeto republicano apresentado nesse mesmo dia vai nesse sentido, ao anular a obrigação de adquirir um seguro e substituí-lo por um crédito fiscal para ajudar a pagar um seguro privado.

Embora mantenha a inclusão de filhos até 26 anos e a proibição de discriminar pacientes, esse projeto piora a situação dos mais pobres, especialmente os idosos. Oferece créditos fiscais de valor igual em todo o país e na maioria das faixas de renda, apenas um pouco maiores para os mais velhos.

Um segurado com renda de 20 mil em um estado pobre como o Alabama recebe hoje um subsídio de 4,5 mil se tiver 27 anos e 13,2 mil se tiver 60, mas passaria a receber apenas 2 mil e 4 mil, respectivamente. Um segurado com renda de 75 mil, hoje não subsidiado pelo Obamacare, passaria a desfrutar dos mesmos 2 mil a 4 mil em qualquer estado.

Basicamente tira dinheiro do terço mais necessitado (principalmente minorias) para colocá-lo nos bolsos do terço intermediário (bem mais branco). Mesmo assim, é rejeitada pelo Tea Party e pelos congressistas mais conservadores, que veem o plano como um “Obamacare Light”, são contrários a qualquer regulamentação estatal e ameaçam bloquear a reforma.

É escandaloso, é um prato cheio para a oposição e toca muito mais os corações e mentes dos eleitores do que um abstrato conluio de Trump com o Kremlin. Mas os democratas, temerosos de despertar um movimento popular fora de seu controle e enfurecer seus patrocinadores, preferem quebrar a cabeça em busca de brechas e manobras para enfraquecer Trump sem incomodar a elite.

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