Número 942,

Cultura

Papinho Gourmet

A revolta dos jacus

por Marcio Alemão publicado 19/03/2017 00h01, última modificação 17/03/2017 14h23
Eles estão se organizando e as exigências que pretendem fazer aos proprietários das fazendas não são poucas.
Estella Maris
Jacu

O Jacu, pássaro que gosta de comer frutinhas, vai até o pé de café e engole alguns

Eu disse, lembra? Disse que na tal loja de cafés de alto nível onde comprei um bom café por 180 reais o quilo, haveria de ter outros ainda mais caros. Voltei lá. E o campeão leva o nome de Jacu Bird.

Conhece a história do jacu e o café? Não chega a ser um enredo encantador. Diz o seguinte: o Jacu, o pássaro, que gosta de comer frutinhos, vai até o pé de café quando os frutos estão maduros e engole alguns. Não mastiga.

Ele os engole inteiros. Feita a digestão, ele os elimina. Trabalhadores especializados recolhem essas fezes com os grãos de café. Vamos para o processo de separar o joio do trigo, ou quase isso. Higienizações várias. O café então é torrado e a saca chega a ser vendida por 16 mil reais. Na loja, você pode comprar 1 quilo por mil reais. Isso mesmo, mil reais!

E preste atenção, porque o assunto é sério: esse preço tende a aumentar. Os jacus estão se organizando e as exigências que pretendem fazer aos proprietários das fazendas não são poucas. Da mesma forma, os colhedores das “fezes cafeinadas” estão pressionando os jacus para que a “desova” seja feita de maneira mais organizada e não se espalhe para além de uma área de 500 metros.

Os produtores ainda não se manifestaram, aguardam novas deliberações, mas temem que o negócio talvez se torne inviável. Uma das exigências seria o repasse de 20% do lucro obtido para o Lar dos Jacus Ansiosos, que se tornaram dependentes químicos da cafeína. Na paralela, fazendeiros tentam acordos com canários, pássaros-pretos e até papagaios, apesar de muitos acreditarem que esses últimos ficam de papo furado durante o serviço e pouco rendem.

Enquanto isso, tentam reproduzir em laboratório o processo digestivo do jacu, pois seriam os seus sucos gástricos que transformam o grão de café em um grão de ouro. E esse tem sido o ponto mais polêmico de toda a negociação. “Meu suco gástrico, minhas regras”, defendem os jacus sindicalizados na porta do laboratório, onde o medo começa a afastar alguns cientistas, como M.F.D., de 38, que não quis mostrar seu rosto e declarou ter sido atacada por cinco deles.

A informação faz total sentido desde que encontraram no ninho-sede da organização dos jacus várias cópias piratas do filme Os Pássaros, de Hitchcock.

A tensão tende a aumentar.