Número 939,

Política

Poemas

Temer no Parnaso

por Nirlando Beirão publicado 25/02/2017 00h12, última modificação 23/02/2017 11h35
O que a Academia de – vá lá – Letras está esperando para agasalhar o talento ficcional do presidente fictício?
Temer

"Eu não sabia. Eu juro que não sabia!" (Saber, pág 90)

Embora o personal advisor tido por Gaudêncio Torquato – arregimentado para propagandear as virtudes caligráficas do patrão na contracapa do volume – tenha ido incomodar, à guisa de comparação, lá nas aragens gélidas da Germânia, o filósofo Arthur Schopenhauer, é na poesia brasileira, no vigor multifocal de sua Crestomatia, que Michel Temer busca inspiração.É ela que o irriga e a ela que Temer vigorosamente supera. 

Incursiona, em cadência pastoril, entre os árcades da Inconfidência Mineira, ao pé de castas Marílias, e, sem trégua a época e a estilo, atravessa os nativistas e terça lira com os românticos (o romantismo está incrustado na alma gentil do bacharel de Tietê); para, enfim, desaguar na veia erótica dos bardos do modernismo, centauro rompante que é, esse Michel Temer, capaz de fazer inveja ao namorador Vinicius de Moraes – pálido escriba, o “poetinha”, se acareado com o viril poetastro que dormita no tribuno. 

Não apenas Vinicius se apequena ante o vate Temer. No cotejo proposto aqui por CartaCapital, não há quem lhe faça sombra, é uma covardia a confrontação de talentos, o que sugere a constrangedora, mas justificada indagação: por que é que tão delicada sensibilidade nas artes do versejar foi se distrair em searas outras, onde o discurso requer o aprisionamento engravatado das mesóclises, em vez da espontaneidade libertária das hipérboles?

Um desperdício, certamente, tal domínio ficcional sufocado nas entranhas de um presidente fictício.

É Carlos Ayres Britto, ex-ministro do Supremo Tribunal, ele também, ao que consta, repentista bissexto, quem se incumbe, no prefácio, de resgatar a identidade oculta do trovador pungente de dentro da couraça opressora do jurisconsulto e homem público.

Não que o autor de “pareceres e discursos parlamentares”, de “tantos projetos de leis e outros documentos normativos” já não exiba aí “as salientes notas do intelectual que mescla num mesmo tom a escorreita forma idiomática e o conteúdo mais consistente”. Desse Temer não consegue escapar a sensibilidade lírica, nem sequer ao fazer preleção sobre Direito Constitucional, nem mesmo quando ele redige uma Medida Provisória. 

Mas não é ao cabedal científico do prefaciado – ainda que sempre impregnado do vício da doçura vocabular – que Ayres Britto dirige sua epifania. O magistrado sai a lhe esmiuçar, com entusiasmo, o hemisfério direito do cérebro, “que não é senão o dominante lado do sentimento”.

Poema

Convém ouvir, aqui, o trombetear de aspas: “Sentimento que é fonte de uma outra espécie de energia vital: aquela que nos faz contemplativos e disponíveis para tudo que se manifeste em nossa interioridade e também do nosso lado de fora, de parelha com os estados d’alma que atendem pelos nomes de intuição, sensitividade, imaginação criativa, percepção (que não se confunde com reflexão), coragem para sermos nós mesmos e, portanto, originais”. 

 O turbilhão de encômios arrasta consigo sem o pudor da contenção Nietzsche, Sócrates e até Manoel de Barros, coitado, incapaz de se defender. Extasiado, Ayres Britto celebra “alguém que, dentro de si, bravamente impede que o adulto de hoje feche todos os espaços de movimentação da criança de ontem”, e que “põe asas de condor na própria imaginação para deixar emergir o universal que dentro dele se confronta com o individual” – “convicto de que sem o eclipse do ego ninguém se ilumina”. 

E, no entanto, em contraponto inibido com o alvoroço do cortesão, Michel Temer, o artífice das palavras, ele próprio abriga-se na modéstia confortável de quem está convicto de sua primazia, sem alarde, seguro de si, desimpedido até mesmo do compromisso prisioneiro da rima e da métrica tirana dos sonetos – e vai folheando estrofes em que confessa a debandada passageira da inspiração (De manhã/ Uma inspiração./ Fantástica. Criativa./ Anotei-a na memória./ À noite/ Cadê?/ Será falta/ De memória/ Ou de nova/ Inspiração?) e trata de reduzir sua obra magna à condição de uns tantos rabiscos arquivados em guardanapos de papel. 

 O único rasgo de imodéstia – desculpável, diga-se – é dedicar uma ode sua a Jorge Luis Borges. Desafortunadamente, Borges já não pode retribuir tal gentileza. 

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'Assim. Triste. Desarticulado. Desejoso.Choroso. Alegre, às vezes' (Lula Marques/Ag. PT)

A musa Erato, patronnesse das elegias amorosas, baixa invariavelmente em Michel Temer “nas viagens aéreas no trajeto Brasília-São Paulo”. Dar polimento a súbitos poemas nas citadas circunstâncias tem o condão de inflar ainda mais seus méritos de rapsodo, já que, em jatinhos da FAB, o máximo de intercâmbio erudito a lhe caber poderia ser a eventual presença de um Moreira Franco (nom de plume: Gato Angorá).

Porque com caronas como Paulo Skaf, o da Fiesp, fica difícil encetar qualquer veleidade intelectual. Skaf jamais leu um livro na vida. 

O bardo relutante, em “constante questionamento”, no dizer do imortal Carlos Nejar – um a mais recrutado, no ofício de redigir a “orelha”, para certificar em Temer o dom de arquiteto de coplas e estanças – é reclamado por Ayres Britto “no assento da irmandade dos que fazem da palavra escrita um hino de louvor à estética”.

Se o recado se dirige especificamente ao Solar de Machado de Assis, pode ficar descansado o ex-ministro do STF. A chancela da editora Topbooks e do editor José Mario Pereira serve de convite vip e ingresso automático à Academia Brasileira de Letras.  

Sempre à frente de seu tempo, Pereira publicou o menestrel em 2012, quando apenas Temer e o editor (mas nem mesmo a fiel entourage do então vice) concebiam voos mais altos para aquele que, à sombra de Dilma Rousseff, rastejava em sua própria e empolada mediocridade. Cinco anos atrás, o editor reuniu em Michel Temer o pendor da profecia com a urgência da militância. Poema2

José Mário Pereira é um fenômeno. Conseguiu eleger para a ABL o doutor Roberto Marinho a bordo dos escritos de seus ghost-writers. Mas quem disse que a Academia de Letras tem as letras no seu foco?

No enorme elenco dos doutos incapazes de enfileirar um vocábulo depois do outro avulta a figura de Merval Pereira, mais um inegável triunfo de José Mário, o grão-chanceler da imortalidade, na tarefa de aliciar os enfardados nos sussurros do chá das quintas.

Anônima Intimidade é o título que ficará na posteridade, nessa ordem indireta que, noblesse oblige, privilegia a adjetivação, usual artifício da trova, sem esquecer que é indireto o autor, e sempre será, aos olhos da História.

Talvez Intimidade Anônima se ajustasse melhor a um thriller policial classe B. O fato é que Michel Temer, coroado com guirlandas e guiado pelas ninfas, ingressou no Parnaso. A poesia brasileira nunca mais será a mesma. 

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