Número 939,

Economia

Mercado

A política cambial deixa a desejar

por Delfim Netto publicado 16/02/2017 00h17, última modificação 15/02/2017 15h14
A indústria foi destruída porque, há 30 anos, usa-se a taxa de câmbio como instrumento de combate à inflação
Arquivo/Agência Brasil
Indústria

O desemprego é o mais cruel desperdício de recursos de uma sociedade civilizada

A economia de mercado tem, ínsita, uma tendência à flutuação para a qual os economistas já propuseram dezenas de “explicações”, nenhuma realmente satisfatória. Algumas simplesmente condenam a organização capitalista de produção (Marx, Kalecki), de forma que nada se resolverá enquanto ela não for eliminada, mas os substitutos sugeridos, quando praticamente implementados, foram piores do que a original.

Outros (Keynes) tentaram salvá-la, porque ela não foi “inventada”, mas parece ser a única capaz de acomodar três valores não inteiramente compatíveis: liberdade, igualdade e eficiência produtiva, o que pode gerar uma sociedade civilizada.

Para os economistas clássicos, com exceção de Malthus, o desemprego “involuntário” é uma impossibilidade lógica, uma vez que se supõe que o sistema econômico é um mecanismo natural que se autorregula. No fundo, aceitam que toda a renda recebida é despendida, a famosa Ley de Say (a oferta “cria” a sua própria procura), de forma que não pode haver “vazamento” de renda para fora do circuito produtivo.

Logo, o desemprego existente só pode ser resultado de intervenções indevidas no mercado de trabalho. Qual era essa intervenção? A mobilização dos trabalhadores para melhorar suas condições de vida.

Organizaram-se em sindicatos, naquele tempo “autênticos”, por isso mesmo malvistos pelo governo. Adquiriram poder econômico e político pela associação com partidos como o Trabalhista, na Inglaterra. Com isso, foram capazes de impor a fixação do salário real acima da produtividade marginal do trabalho. A causa do desemprego era, portanto, o próprio trabalhador!

Qual a solução para essa melódia? Reduzir o salário real ao nível da “justiça distributiva”, que os marginalistas haviam descoberto, o que levaria de volta o emprego ao seu nível natural. Ao recusarem o axioma de que o sistema econômico é autorregulável, Marx, Keynes e Kalecki abriram uma nova compreensão do papel da demanda global. Para Marx, já em 1867, o emprego dependia, também, da tecnologia (uma das suas obsessões) e da distribuição de renda.

O desemprego é o mais cruel desperdício de recursos de uma sociedade civilizada. Afinal, o trabalho é o único intercurso do homem com a natureza da qual ele faz parte e da qual – ainda que a cadeia que o leve ao recurso natural seja muito longa – ele extrai a sua subsistência.

A interdição ao trabalho pela falta de demanda da sua atividade retira do homem o sentido de pertencer à sociedade, destrói a sua identidade, corrói a estrutura familiar que lhe dá conforto e, ao final e ao cabo, dependendo do tempo do desemprego, perde as suas qualificações. Alienado do seu, mesmo que longínquo, intercurso com a natureza, não tem como se reconciliar com o “ganhar a vida com dignidade”.

Protestos Sindicais.jpg
O desemprego existente só pode ser resultado de intervenções indevidas no mercado de trabalho. Qual era essa intervenção? A mobilização dos trabalhadores para melhorar suas condições de vida (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Os números fiscais mostram por que não podemos recorrer ao aumento da dívida pública para suprir as deficiências da demanda global. Uma política econômica voluntarista com a melhor das intenções, mas com absoluto desrespeito às restrições físicas que condicionam todas as economias (até o socialismo “ideal”), nos colocou numa armadilha.

A missão de Temer é trocar o pneu do caminhão com ele andando. Os sinais de melhora da economia devem-se à sua “arte” e paciência na coordenação política e à sua firmeza na insistência das reformas que o Brasil precisa para retornar ao leito do desenvolvimento mais sustentável e, principalmente, mais equânime. A recondução das expectativas de inflação para a meta de 4,5% em 2017 é a resposta mais visível àquela firmeza, que abriu as portas para uma redução significativa e durável da taxa de juro real, que pode ser o início de um ciclo “virtuoso”.

Mas não esqueçamos. A recuperação do crescimento depende de dois fatores: 1. Aumento dos investimentos em infraestrutura, que exige uma nova inteligência do governo para diminuir os riscos implícitos em contratos com duração de 20 a 30 anos; aumento dos investimentos privados que precisam de alguma expectativa de crescimento, de taxa de juro real razoável e de uma expansão do crédito. Tudo isso parece começar a florescer.

2. Aumento das exportações, o que exige uma taxa de câmbio relativamente estável e competitiva para o setor industrial, que foi destruído e está ocioso por uma política que, há 30 anos, por sugestão de “cientistas”, tem usado a “taxa de câmbio” como instrumento de combate à inflação. Nesse item, pelo menos em minha opinião, tudo vai muito mal. 

registrado em: Delfim Netto, Mercado, Juros, Inflação