Número 938,

Economia

Opinião

Trump e a globalização perversa

por Delfim Netto publicado 08/02/2017 00h27, última modificação 07/02/2017 15h33
Os seus exageros ajudaram a eleger o republicano nos Estados Unidos e produziram consequências desastrosas em vários países
Gage Skidmore
Trump

Exageros de Trump fazem lançar dúvidas sobre a compatibilidade entre o “mercado” regulado por um Estado forte

A tribo dos economistas está inquieta. Alguns parecem estar perdendo a paciência e começam a concordar com Milton Friedman: “O banqueiro central é como um idiota no chuveiro: sempre tem dificuldade de encontrar a temperatura certa!” E, a partir daí, oferecem novas hipóteses teóricas. Assiste razão aos que exigem delas “robustas” provas de “causalidade” (exatamente o que a “velha” não tem), uma vez que na economia a fonte é o conhecimento empírico.

O problema é saber se isso é possível num universo caprichoso – a sociedade –, cujos membros interagem num processo dinâmico de extrema complexidade, ao qual a revolução das comunicações deu novas dimensões.

O ponto interessante é que cada lado do debate apresenta coleções de artigos, com a mesma metodologia, a mesma pretensão científica e conclusões opostas.

Ao contrário da lógica, da matemática, das ciências “duras” e da biologia, que avançam com “novas” perguntas, a economia procura, desde tempos imemoriais, respostas às “mesmas” perguntas:

1. Por que algumas sociedades são capazes de explorar melhor o seu espaço e atender melhor às necessidades materiais dos seus habitantes?

2. Por que parecem ter um impulso interno que faz flutuar o nível de sua atividade e o emprego dos seus membros?

3. Qual é, afinal, o verdadeiro enigma no funcionamento de uma organização social que, pelo conhecimento de um sinal (os preços estabelecidos nos “mercados”), parece, às vezes, harmonizar o interesse do indivíduo com o coletivo?

Será possível que, depois de 2,5 mil anos de análise da sociedade, tenhamos chegado à conclusão de que, em matéria da sua administração material, nada sabemos e, portanto, tudo vale? Antes de responder, duas considerações.

A primeira é uma dúvida: qual o efeito da divisão do trabalho na investigação dos limites da própria razão (na lógica, na matemática) e no conhecimento da natureza? Nelas, é mais do que evidente, a suprema especialização (saber cada vez mais de cada vez menos) gestou e acelerou o uso do conhecimento em nosso benefício.

Há sinais, entretanto, de que mesmo nas ciências da natureza estamos chegando ao limite da especialização. Física, química, biologia e matemática (modelos e computação) vêm aumentando dramaticamente a sua cooperação na exploração conjunta de seus problemas.

Tenho, hoje, a convicção de que a extrema especialização nas ciências sociais, em particular o “imperialismo científico” da economia, que defendíamos com unhas e dentes, esterilizou a nossa capacidade de entender como funciona a única atividade econômica, isto é, o trabalho (é dele que se trata!), que é intrínseco, poroso e impregna todo o comportamento social, o que tem consequência sobre a qualidade da política econômica.

Paul
O artigo de Paul Samuelson buscou provar os benefícios da globalização do comércio
A segunda está, de certa forma, implícita nas considerações anteriores. Newton “descobriu”, no século XVII, o maior segredo da natureza: como fugir dela? Calculou a velocidade de escape da Terra de um projétil lançado ao espaço sideral. Ela não tomou qualquer providência. Não teve “inveja” nem “ciúmes”, e não mudou seus “parâmetros”. Permitiu ao homem que, com eles, fosse à Lua no século XX.

Ainda me lembro da excitação que causou, quando republicado no Readings in the Theory of International Trade, o famoso artigo de P.A. Samuelson, “The Gains from International Trade”.

Nele se “provavam”, analiticamente, os benefícios da globalização do comércio. As hipóteses eram irrealistas (mas quem se importa com elas?) e a conclusão sugeria que no mundo só haveria “ganhadores”. Externalidades custosas estavam escondidas na álgebra da teoria das vantagens comparativas.

Os efeitos da distribuição assimétrica dos benefícios seriam desprezíveis, diante da expansão da riqueza por ela produzida. Pois bem: 77 anos depois do artigo, Samuelson relativizou boa parte de suas conclusões sobre as virtudes da globalização.

No longo prazo, e com suporte de políticas públicas inteligentes, será mesmo um importante fator de paz e progresso. No intermezzo, seus perversos exageros ajudaram a eleger Trump. Pior, produziram consequências desastrosas em vários países.

Volta-se a lançar sérias dúvidas sobre a compatibilidade entre o “mercado” regulado por um Estado forte, constitucionalmente constrangido e um regime verdadeiramente democrático, onde a liberdade e a igualdade de oportunidades para todos devem ser os objetivos.

Mas, afinal, para que serve, então, o nosso conhecimento da economia? Provavelmente, e muito, para que possamos obter um pouco mais de conforto na breve passagem por esta vida única e intransferível. Mas isso fica para outro dia.