Número 938,

Economia

Estudo

Previdência: idade mínima de 65 anos ignora desigualdades

por Márcio Bueno — publicado 04/02/2017 08h31, última modificação 03/02/2017 12h41
Países que adotam esse patamar para aposentadoria têm expectativa de vida mais elevada que a brasileira
Sérgio Amaral
Público

Em média, os cidadãos da OCDE vivem melhor que os brasileiros

Da exposição de motivos da PEC 287 consta um gráfico com a expectativa de vida dos trabalhadores dos países que compõem a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. A maioria optou pela idade mínima de 65 anos para a aposentadoria, o que foi usado como parâmetro para a reforma brasileira.

Há, porém, uma questão: qual a expectativa de vida no Brasil e na maioria dos países da OCDE? A comparação foi feita por Marcelo L. Perrucci, auditor federal da Controladoria-Geral da União. Perrucci elaborou o gráfico publicado nesta página. Enquanto a expectativa de vida média dos países da OCDE, que optaram pela idade mínima de 65 anos de aposentadoria, é de 81,2 anos, no Brasil os cidadãos vivem 75 anos, em média.

Perrucci, também presidente do Conselho Fiscal da Fundação de Previdência Complementar do Servidor Público Federal do Poder Executivo, não parou por aí. Buscou saber qual o tempo de vida saudável após a aposentadoria entre aqui e lá.

Quando se perde a visão ou se contraem doenças graves, a aposentadoria, de certa forma, deixa de ser desfrutada. Ao acessar os dados da OMS/ONU, montou outra tabela, que revela uma situação ainda mais desfavorável aos brasileiros.

Na média, os trabalhadores dos países da OCDE vivem 6,5 anos com saúde, enquanto, no Brasil, o tempo de aproveitar a aposentadoria, na média, é de apenas seis meses.

gráfico.jpgA escolha dos 65 anos como idade mínima para a aposentadoria não levou em conta as profundas desigualdades sociais e regionais do Brasil. Dados do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas mostram que em 19 cidades do Nordeste a expectativa de vida não passa de 65 anos.

Dados do IBGE mostram uma grande diferença de expectativa de vida dos catarinenses e dos maranhenses: 79 contra 70,6 anos. A respeito, o secretário da Previdência Social, Marcelo Caetano, argumentou: “Ainda que a reforma pudesse diferenciar regiões ou estados, continuaria a haver disparidades, pois a expectativa varia até na mesma cidade, de acordo com o bairro”.

Na cidade de São Paulo, diz o secretário, os moradores de bairro Alto de Pinheiros têm expectativa de vida de 79,7 anos, enquanto em Cidade Tiradentes, a média é de 53,9 anos, uma diferença brutal, de nada menos que 25,8 anos. Caetano, em vez de acenar com uma solução para as desigualdades regionais e sociais, contenta-se em apontar situações ainda mais absurdas.