Número 938,

Economia

Futebol

As arenas da Copa de 2014, sem povo e sem lucro

por Miguel Martins publicado 12/02/2017 00h08, última modificação 12/02/2017 12h24
Elitizados, estádios como o Maracanã apresentam prejuízos milionários e continuam a drenar recursos públicos
Paulo Batelli
Torcedor

Com prejuízos de 173 milhões de reais, o consórcio do Maracanã quer se livrar do estádio

Em junho de 1950, o jornalista Mario Filho noticiava nas páginas cor-de-rosa do Jornal dos Sports uma romaria da população carioca rumo ao Estádio Municipal recém-erguido no Maracanã, zona norte do Rio.

“De todos os bairros desciam verdadeiras massas humanas, dando impressão de que se tratava de êxodo.” Mais tarde, o estádio construído para a Copa do Mundo daquele ano seria batizado em homenagem ao jornalista.

Hoje, a memória do patrono do Maracanã foi furtada, e não apenas por conta da redução do estádio à metade de sua capacidade, recriado em assentos inacessíveis e insuficientes para abrigar “as massas humanas” de outrora.

Em janeiro, um busto de cobre de Mario Filho foi levado em meio a uma onda de saques ao estádio. Redesenhado e enxugado para a Copa de 2014 e as Olimpíadas, ao custo de 1,2 bilhão de reais, o Maracanã não tem atualmente condições de sediar uma partida de futebol.

Com o gramado repleto de buracos, a luz cortada por falta de pagamento e a ausência de segurança, o estádio vive um sucateamento pouco após sua mais recente reforma, a terceira em 15 anos.

O abandono é mais um capítulo dos fracassos acumulados na parceria público-privada criada para administrá-lo. Em 2013, durante o governo de Sérgio Cabral, as empresas IMX, de Eike Batista, Odebrecht e AEG formaram um consórcio e assumiram a operação da nova “arena padrão Fifa” por 35 anos. Após menos de quatro anos, os administradores querem se livrar do ex-“Maior do Mundo”.

Abandonado
A reforma de 1,2 bilhão de rais afastou os torcedores populares do ex-"Maior do Mundo", atualmente sem condições de sediar um jogo de futebol (Nacho Doce/Reuters/Zuma Press/Fotoarena)
Com um prejuízo acumulado de 173 milhões de reais, o Maracanã não é mais atraente para ao menos dois dos integrantes originais da parceria, hoje diretamente envolvidos nas investigações da Lava Jato. O primeiro a desembarcar do projeto foi Eike Batista, que vendeu há dois anos sua parte na concessão, de 5%, à Odebrecht.

O empresário foi preso na segunda-feira 30 por suspeita de pagar 16,5 milhões de dólares em propina a Sérgio Cabral. Também detido, o ex-governador do Rio, por sua vez, é acusado de corrupção em diversos contratos, entre eles o da reforma do Maracanã.

No mesmo dia da prisão de Eike, as 77 delações de executivos e ex-executivos da Odebrecht, dona de 95% do consórcio Maracanã, foram homologadas por Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal. O estádio não está nos planos da empreiteira.

O sucateamento atual é fruto de um impasse entre o Comitê Rio 2016, responsável pela organização dos Jogos Olímpicos, e o consórcio. A administradora do estádio exigiu uma série de reparos na estrutura, estimados em 400 mil reais, e negou-se a recebê-lo do comitê antes da conclusão das obras.

Na sexta-feira 27, a Justiça determinou que a Odebrecht reassuma a operação do estádio. A empreiteira quer ser compensada para repassar sua parte na concessão. Dois grupos disputam o negócio, um deles integrado pelo Flamengo, clube de maior torcida no País.

As dívidas do Maracanã são uma metonímia da situação crítica enfrentada por grande parte das arenas erguidas ou reformadas para a Copa de 2014. Os estádios custaram 8,3 bilhões aos cofres públicos e seguem a drenar recursos.

Em 2015, apenas o Beira-Rio, em Porto Alegre, e a Arena Corinthians, em São Paulo, apresentaram receitas operacionais superiores às despesas. Ambos são estádios privados, pertencentes a clubes de alcance nacional. 

Arena Amazônia
A Arena Amazônia foi cogitada como local de triagem de presos (jZamith)
Os estádios administrados diretamente pelo poder público ou por PPPs são aqueles que mais agonizam. A Arena Pantanal, em Cuiabá, o Mané Garrincha, em Brasília, e a Arena da Amazônia, em Manaus, acumulam prejuízos milionários.

Sem times locais relevantes, o estádio brasiliense hoje abriga dois órgãos do governo distrital como forma de economizar gastos. Em Manaus, um desembargador chegou a sugerir em janeiro a utilização da arena local para triagem de presos em meio à rebelião que resultou em 56 mortes no Complexo Penitenciário Anísio Jobim.

Os governos estaduais planejam repassar à iniciativa privada a operação dos estádios públicos, mas o modelo de concessão não tem garantido bons resultados. Além do Maracanã, outras quatro arenas operadas por concessionárias apresentaram prejuízos operacionais em 2015.

Estimativas de longo prazo confirmam a agonia das arenas.  Thiago de Sousa Barros, doutorando em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas e professor da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), publicou no ano passado um artigo sobre a viabilidade econômica dos 12 estádios da Copa de 2014. 

Segundo seu levantamento, que considera a projeção original de receitas, os custos operacionais e o pagamento do investimento inicial em cada estádio, apenas três deles, Arena Pernambuco, Arena da Baixada e Beira-Rio, mostram-se rentáveis nos próximos 20 anos. A maior parte das arenas tem uma estimativa de entradas inferior à de gastos para as duas próximas décadas.

 A taxa interna de retorno é pouco atraente para o setor privado. Em 10 dos 12 estádios, ela é inferior aos juros pagos pelo governo, atualmente fixados em 13%. “Um investidor só vai colocar capital em um estádio se a taxa de retorno render mais que a Selic”, afirma Barros.

Uma das soluções seria ampliar o uso das arenas para outras atividades que não o futebol e exigir melhores resultados dos parceiros privados dos estádios. “As concessionárias muitas vezes recebem pagamentos do governo sem ter a obrigação de gerar mais receita.”

Em meio à crise econômica, o encarecimento do preço dos ingressos nas novas arenas afasta as torcidas. O Campeonato Brasileiro do ano passado apresentou uma média de 15,2 mil torcedores por partida, ante 17 mil em 2015.

Campeão brasileiro naquele ano, o Corinthians apresentou um lucro operacional de 20,8 milhões de reais com sua arena, palco dos jogos da Copa do Mundo em São Paulo. Com a campanha irregular do clube em 2016, o estádio apresentou uma pequena queda na média de público e de preço dos ingressos, mas manteve um frequência alta. 

Embora o estádio registre lucro, as estimativas de Barros indicam que a Arena Corinthians é um negócio arriscado a longo prazo devido ao alto investimento inicial, superior a 1 bilhão de reais em 2014. Recentemente, o clube foi obrigado a renegociar sua dívida para o pagamento da arena. A quitação do débito custará cerca de 2 bilhões de reais ao time paulista pelos próximos 20 anos.

Mané Garrincha
O Mané Garrincha abriga órgãos do governo do Distrito Federal (Baptistão)
Se a elitização das arenas privadas tem distribuído lucros a clubes como Corinthians e Palmeiras, o mesmo não pode ser dito sobre os estádios públicos, tocados ou não pela iniciativa privada. Superestimadas antes da Copa, as receitas não dispararam com o encarecimento das entradas. Publicado em 2013, um estudo de viabilidade econômica da empresa de Eike havia previsto um lucro de 1,4 bilhão de reais para o Consórcio Maracanã ao longo de 35 anos.

Em um trecho do documento, a IMX afirmava que os clubes seriam beneficiados pela “mudança de perfil do público”, bem como pelo aumento do valor dos ingressos. O prejuízo acumulado de quase 200 milhões do estádio fluminense aponta para outra direção.

O conjunto de absurdos que envolvem o Maracanã revolta principalmente os mais apaixonados por sua história. Em 2015, Renato Martins e Pedro Asbeg lançaram o filme Geraldinos, um documentário sobre os eternos personagens do setor popular e sua tristeza ao lembrarem do fim da geral em 2005. Torcedor rubro-negro, Asbeg diz que o abandono do Maracanã “é um tapa na cara de qualquer cidadão carioca” e critica a falta de um setor popular no atual estádio.

“Um local que passou por três reformas com dinheiro público não poderia deixar de ter essa contrapartida social.” Caso assuma, o Flamengo sinalizou a possibilidade de transformar um dos setores em uma arquibancada, com ingressos mais baratos. O Botafogo fez o mesmo no Estádio do Engenhão recentemente.

Um dos personagens mais célebres do setor popular, Antônio Ramos, conhecido como Índio Geraldino, resume no filme de Asbeg e Martins sua frustração com o atual estádio e o fim da geral. “O que era a área do marginal agora é a área nobre.”

Em meio ao descaso, à inviabilidade econômica e à corrupção, os primeiros anos do novo Maracanã têm agredido a memória de Mario Filho menos pelo roubo de seu busto e mais pelo fracassado processo de modernização, capaz de excluir seus mais apaixonados frequentadores sem sequer garantir lucro a seus algozes.